Bloco de Esquerda reuniu com a Braga Ciclável

Bloco de Esquerda reuniu com a Braga Ciclável


No dia 14 de maio, a Braga Ciclável esteve presente no Parque da Ponte, na sequência de uma solicitação de reunião da Comissão Coordenadora Distrital de Braga do Bloco de Esquerda, para abordar a importância da bicicleta nas cidades.

Nesta reunião estiveram presentes 6 elementos do Bloco de Esquerda: Alexandra Vieira, Manuela Airosa, José Ribeiro, Rui Antunes e ainda os candidatos às Europeias, Ana Rute Marcelino e Miguel Martins. A associação Braga Ciclável esteve representada por Mário Meireles, Victor Domingos, Rafael Remondes e José Gusman Barbosa.

Ao longo de duas horas foram abordados diversos temas relacionados com a bicicleta e a cidade.

Foram debatidos os benefícios do uso da bicicleta no contexto da cidade de Braga, especialmente em distâncias até 5 km onde a cidade é praticamente plana e pode ter mais pessoas a utilizar a bicicleta. Mário Meireles explicou a necessidade do aumento do seu uso enquanto modo de transporte por forma a fazer com que Braga deixe de ser o terceiro concelho mais poluído do país.

A falta de segurança e de condições nas ruas das nossas cidades para a utilização da bicicleta de uma forma mais massiva tornam Braga o terceiro concelho com maior sinistralidade do país. Daí a necessidade de reversão das condições infraestruturais da cidade para permitirem uma mobilidade responsável.

A concluir, todos os intervenientes concordaram que é necessária uma estratégia municipal de mobilidade integrada que leve a uma redução do uso do automóvel, fazendo com que as deslocações interurbanas sejam feitas maioritariamente em transporte público, e as deslocações urbanas sejam maioritariamente feitas a pé, de bicicleta e de transporte público, numa lógica multi e intermodal.

A par disso, foi ainda dado a conhecer o projeto #BragaZeroAtropelamentos, ficando ainda de se agendar posteriormente uma reunião para que este projeto seja explanado de uma forma mais aprofundada.

As cidades e a bicicleta

As cidades e a bicicleta


Há muitas pessoas que têm a tendência para afirmar que as cidades portuguesas não têm uma cultura da bicicleta. Utilizam esta afirmação, desprendida de verdade, para justificar a falta de investimentos neste modo de transporte. E tanto conseguimos ouvir isto de um cidadão no café, como de técnicos municipais que deviam aprofundar as temáticas antes de, levianamente, proferirem estas afirmações, como mesmo de pessoas com altas responsabilidades nas cidades. E falo de cidades portuguesas de um modo geral. A desinformação e a ignorância são gerais. Chega a ser preocupante a leviandade que se trata um assunto tão sério quanto a forma como as pessoas se decidem deslocar e se quer impingir que todos se deslocam de carro.

E digo que as cidades têm uma cultura da bicicleta, porque se pesquisarmos um bocadinho e se falarmos com as pessoas mais velhas encontramos ainda traços de uma cultura que já foi forte. Aliás, não nos devemos esquecer que a Bicicleta surgiu 100 anos antes do carro.
Falando agora especificamente de Braga, temos pessoas que toda a vida trabalharam em bicicletas, em tempos produziram bicicletas em Braga, e entretanto passaram apenas para a manutenção de bicicletas. Há pessoas que nos dizem que na Rua D.Pedro V, nos anos 50, havia apenas 3 ou 4 carros, muitas bicicletas e muitas motorizadas. Há registos da presença de um velódromo na Ponte de São João, entrega de gelados de bicicleta (ainda hoje há, e de pizza, e de outros recados) e sempre teve lojas de alugueres e reparação de bicicletas.

Braga terá, de acordo com os estudos de 2011 e 2013, cerca de 200 utilizadores da bicicleta como modo de transporte e 800 utilizadores da bicicleta de um modo geral. Estes números hoje serão diferentes, certamente maiores, mas ainda assim não temos um boom na utilização da bicicleta. E nem vamos ter um aumento significativo, a não ser que tenhamos uma rede ciclável segura, segregada e conectada na cidade de Braga. Continuaremos a esperar, ansiosamente, pelos 22 km de ciclovias na zona urbana e pelos 76 km de vias cicláveis para podermos ser muitos mais pessoas de bicicleta e muitas menos de carro individual para deslocações urbanas.

Os reis na barriga

Os reis na barriga


Houve tempos em que os donos das cidades eram os nobres e os reis e, nesse tempo, quando eles passavam nas ruas, nas suas carruagens ou nos seus cavalos, toda a gente se desviava, cedendo passagem aos senhores, em vénias e adoração e medo. Um vulgar cidadão não se atrevia atravessar no caminho de um dos senhores – era punido por lei e a pena era, por vezes, de morte, tal era a afronta.

Estou a falar de há muito tempo, tempos em que não havia código da estrada e em que ninguém garantia o direito de todos os indivíduos por igual.

Estranhamente, embora os tempos tenham mudado e as leis tenham acabado com os benefícios de classes, no que toca à estrada, ainda há gente que se sinta com o rei na barriga e com o direito à vénia e ao medo. (mais…)

Bracarenses no mundo: a pedalar em Santiago de Compostela – O caminho faz-se pedalando

Bracarenses no mundo: a pedalar em Santiago de Compostela – O caminho faz-se pedalando


Sempre ouvi dizer que Braga é o “penico do céu”, mas foi em Santiago de Compostela que conheci o verdadeiro significado de “chover a potes”. Embora para os bracarenses isto pareça duvidoso, asseguro que na capital da vizinha Galiza chove mais do que na nossa cidade, e prova disso são os seus 1.325 mm de índice de pluviosidade média anual que superam os 1.252 de Braga. Como é que se torna uma terra chuvosa e com relevo acidentado como Compostela numa cidade ciclável? Pedalando aos poucos!

As minhas primeiras pedaladas em Compostela foram dadas numa bicicleta concedida pelo programa de empréstimo de bicicletas a estudantes da Universidade de Santiago de Compostela, no âmbito do seu Plan de Desenvolvemento Sostible. Numa cidade com cerca de 100.000 habitantes, que tem o seu dinamismo social e económico vinculado aos serviços administrativos, à universidade e ao turismo, este programa tem como objetivo incutir a utilização da bicicleta nos hábitos de mobilidade diários da comunidade universitária. No meu caso, este programa permitiu-me superar os “medos” associados à dificuldade de enfrentar as características físicas de Compostela em cima de uma bicicleta, e hoje em dia já pedalo no meu próprio velocípede.

Ainda que ver mantos de água a cobrir o granito das ruas de Compostela, algumas delas bastante inclinadas, não seja a imagem mais aliciante para sair de casa com uma bicicleta, o facto de nesta cidade se limitar o espaço do automóvel convida a formas de mobilidade alternativas. Nos últimos anos foram implementadas importantes medidas para facilitar o uso diário da bicicleta, tais como: a extensão da área que proíbe a passagem de veículos motorizados do centro histórico a importantes ruas na sua periferia; a limitação da velocidade a 30 km/h em vias centrais de trânsito; a criação de zonas avançadas de espera para bicicletas nos semáforos das ruas mais movimentadas; e o aumento do número de lugares para estacionarmos o nosso veículo de duas rodas.

As atuais diretrizes de mobilidade da autarquia de Compostela parecem ir ao encontro da vontade da cidadania: no Orçamento Participativo de 2017, a população decidiu canalizar 400.000 euros a dois projetos relacionados com a diminuição da dependência dos carros na cidade. Um dos projetos adaptará o trânsito à circulação da bicicleta, e o outro, criará uma via de acesso às praias fluviais do concelho sem que seja necessário utilizar o carro.
Em Compostela, a bicicleta não é apenas um meio de transporte entre a casa e o trabalho, mas é também uma agradável companhia para momentos de lazer numa cidade que conta com 26,28 m2 de área verde por habitante. Especialmente quando a chuva dá tréguas, não há nada melhor do que percorrer o passeio fluvial do rio Sarela, ou do rio Sar, de bicicleta, ou ainda pedalar até um dos 15 parques verdes que abraçam Santiago de Compostela.

Ainda que localizadas em Estados diferentes, Braga e Compostela partilham elementos físicos e sociais que aproximam os atuais cenários de gestão da mobilidade destas cidades. Para além da pluviosidade abundante, da dispersão da população e do relevo acidentado, estas duas cidades históricas foram adaptando nas últimas décadas o seu urbanismo às exigências dos veículos privados. Contudo, nem as opções urbanísticas passadas nem as condições físicas dos territórios podem decretar a impossibilidade de adequar as cidades a formas mais sustentáveis de mobilidade. Parece-me cada vez mais evidente que o estimulo à utilização de bicicletas passa por incidir nas decisões individuais dos habitantes através de escolhas coletivas à escala municipal que visibilizem os ciclistas e assinalem e protejam o seu espaço na cidade.

Bracarenses no mundo: a pedalar em Aarhus – Capital Europeia da Cultura 2018

Bracarenses no mundo: a pedalar em Aarhus – Capital Europeia da Cultura 2018


Recentemente viajei até à Dinamarca. Aarhus era destino desconhecido e agora admirado. Podia ter ido a Copenhaga, mas a Copenhaga é mais fácil de ir de avião do que a Aarhus. Podendo ir até lá de carro (estou temporariamente a trabalhar na Alemanha) e aproveitar a paisagem dinamarquesa é para aproveitar.
Coincidentemente Aarhus é Capital Europeia da Cultura 2017 e, portanto, mais um motivo para lá ir.

No caminho para Aarhus é fácil de perceber que a cultura da bicicleta é isso mesmo, cultura. Não é um incentivo governamental nem tão pouco um desporto, é algo intrínseco nos dinamarqueses.
Assim que chego a Aarhus, percebo que distância entre o uso de automóvel e da bicicleta é muito pequena. O espaço é partilhado de forma igual (com as devidas proporcionalidades) e a cidade respira mobilidade com espaço para peões, bicicletas, transportes públicos e automóveis a coexistirem harmoniosamente.

No caso específico da bicicleta, foi interessante notar que apesar de existirem bastantes infra-estruturas orientadas ao uso da mesma, as pessoas basicamente parecem utilizar o bom senso quando circulam de bicicleta. As regras existem, são de forma geral cumpridas, mas se tiverem que quebrar uma regra o bom senso impera e as pessoas são cautelosas e atentas a quem está à sua volta. Acho que Aarhus transparece um pragmatismo (já observado por mim na Alemanha) em que a primazia é dada ao sentido prático no uso da bicicleta e no não uso do automóvel. Um certo pragmatismo, quanto a mim, valiosíssimo. Que talvez merecesse uma importação para Portugal.

Observando o dia a dia em Aarhus, foi fácil reparar em como é surpreendente o resultado das políticas de mobilidade. Milhares de bicicletas por todo o lado, transportes públicos muito variados e muito frequentes e carros banidos do centro histórico da cidade. Gente a ir de grandes bairros na periferia para o centro de bicicleta através de grandes ciclovias. E qualquer pessoa anda em qualquer bicicleta, não só o atleta de bicicleta de montanha ou o miúdo em bicicleta “BMX”.

Nesta cidade vêem-se todos os “clichês” da mobilidade associada à bicicleta, os suportes em todos os pontos de aglomeração de pessoas, as zonas de 30, a permissão explicita de circulação de bicicletas e peões nas chamadas zonas de coexistência, ciclovias devidamente sinalizadas ao lado das principais artérias que ligam o centro e os bairros periféricos, semaforização e marcações no chão dedicadas às bicicletas nos cruzamentos mais complicados para facilitar o atravessamento e muito mais.

Vendo isto, não acredito que o facto de existirem ciclovias ou suportes para bicicletas, tenham feito algo mais por Aahrus do que o pragmatismo do povo Dinamarquês. É certo que hoje, olhando para uma ciclovia moderna que liga a periferia ao centro de Aahrus, parece que foi assim que a cidade evoluiu, ciclovia e depois ciclistas. Mas acho que foi precisamente ao contrário! Pragmaticamente o Dinamarquês olha para a bicicleta e vê uma solução para os seus problemas e os políticos acompanham com políticas de mobilidade e infra-estruturas adequadas.

Afinal de contas as estradas e o código da estrada também não apareceram antes dos carros, pois não?

Transpondo esta realidade para Braga, diria então que não precisamos só de infra-estruturas bonitas e modernas, precisamos sim de vontade e pragmatismo. Nada mais. Para resolver alguns problemas precisamos apenas que alguém amanhã, depois de ler este artigo pense, “se calhar hoje posso tentar usar a bicicleta para ir para o trabalho, porque não?”. Um de cada vez, pode ser que devagar, Braga se torne no futuro numa cidade mais adepta da mobilidade, numa cidade sem alguns problemas. Eu quero acreditar que pode.

Para mim, este pragmatismo é parte da cultura dinamarquesa. Cultura não é só teatro, cinema, ou música. Cultura é também perceber que vivemos em comunidade e o que nos afecta, também afecta, em última análise, aqueles que connosco convivem.

Em 2017, Aarhus é Capital Europeia da Cultura. A bicicleta é apenas mais uma maneira de a demonstrar.

Basta de atropelamentos!

Basta de atropelamentos!


Na manhã deste domingo, um grupo de ciclistas foi violentamente abalroado por um automóvel que circulava em velocidade excessiva na Avenida António Macedo, em Braga. De acordo com as notícias publicadas pela comunicação social e com os relatos que têm vindo a público, houve vários feridos e um dos ciclistas perdeu a vida.

A Braga Ciclável recebeu com tristeza esta notícia, e partilha essa dor e tristeza com os amigos e familiares das vítimas. Também nós acreditamos que não é admissível continuarem a acontecer, em plena cidade, acidentes como este. Cada vida que se perde, cada ciclista que é atropelado na estrada, leva consigo um pedaço da felicidade de todos os que o rodeiam. Em momentos como este, ninguém sai a ganhar. Todos perdem. O desleixo das autoridades, os excessos dos condutores, a indiferença da sociedade em geral, saem caro, muito caro.

É por isso urgente aplicar medidas efetivas de acalmia de trânsito. A responsabilidade para evitar estas mortes e ferimentos, e todo o sofrimento e prejuízo que daí advêm, cabe a todos.

Acidente em Braga - atropelamento na Avenida António Macedo

Cada condutor tem uma responsabilidade individual, que se reflete no tipo de condução, na velocidade a que escolhe circular (e não, não somos obrigados a seguir a corrente, não somos obrigados a circular à velocidade máxima permitida, e muito menos a velocidades superiores a esse limite), no cuidado com que mantém as distâncias de segurança e a permanente atenção a todos os utilizadores da via pública, incluindo peões e ciclistas. É inaceitável matar alguém na estrada só porque se vai com mais pressa e se circula num veículo rápido e mais pesado. Cada condutor tem de ser responsabilizado pelos seus atos e pelas consequências que deles advêm, porque não há seguro algum que possa devolver as vidas roubadas a peões e a ciclistas como este que perdeu a vida no passado domingo.

As forças de segurança e autoridade têm também a responsabilidade de sensibilizar e fazer cumprir a lei. Sabemos que nas ruas e avenidas de Braga continuam a ser praticadas velocidades excessivas e que, infelizmente, ainda é prática corrente o perigosíssimo uso do telemóvel durante a condução. É urgente combater esses comportamentos de risco, que causam acidentes e que ferem com gravidade e matam pessoas.

Finalmente, mas não menos importante, à autarquia cabe o fundamental papel de remodelar a nossa rede viária, implementando mecanismos que aumentem a segurança para todos os utentes, independentemente da sua forma de locomoção. Não é concebível que a maior zona habitacional de Braga seja atravessada por uma via onde se praticam velocidades muito superiores a 50km/h, numa altura em que várias cidades europeias apostam em força no limite máximo de 30km/h como forma de aumentar a segurança. A acalmia de trânsito deve pois ser uma prioridade, para que acidentes como este não voltem a acontecer.

É urgente acabar com os atropelamentos em Braga. A estrada é de todos, a estrada tem de ser segura para todos!

 
Fotos gentilmente cedidas pelo nosso leitor e amigo Carlos Veríssimo.