Investimento em Mobilidade: aprender com os erros

Investimento em Mobilidade: aprender com os erros


Nos tempos que correm já todos perceberam que o excesso de automóveis nas cidades acarreta problemas de vários tipos e que o futuro da mobilidade urbana passa por investir na promoção e criação de condições para a mobilidade suave (a pé e de bicicleta) e em transportes públicos. Ao mesmo tempo, é fundamental tomar consciência e evitar alguns erros do presente e do passado.

Mas de que erros falamos?

Em primeiro lugar, a aposta no automóvel. Sabe-se hoje em dia que continuar a insistir em medidas que apenas beneficiam os carros significa atrair ainda mais carros, gerando a médio prazo mais poluição, maior sedentarismo, maior ocupação excessiva do espaço público e mais congestionamento. É o paradoxo da gestão do trânsito: vias mais largas e mais rápidas levam afinal de contas a mais congestionamento e menor eficiência.

Em segundo lugar, o erro de gastar dinheiro em meras operações cosméticas, supostamente para benefício dos peões e ciclistas, ou gastar dinheiro em obras mal planeadas para a sua função, as quais são muitas vezes mais dispendiosas do que as soluções mais adequadas em recomenda pelas boas práticas. Por exemplo, quando se faz uma requalificação de ruas, rotundas e avenidas, que apenas leva em consideração o tráfego automóvel, sem considerar os utilizadores vulneráveis. Ou quando se instalam novos bicicletários do tipo “empena-rodas”, em vez do tipo Sheffield (em forma de U invertido) ou equivalente.

Ou ainda a criação de pseudo-ciclovias ou ecovias mal desenhadas e ou mal construídas, muitas vezes cometendo o erro também grave de roubar espaço aos peões, em vez de simplesmente redistribuir o espaço (muito maior) da faixa de rodagem, como mandam as boas práticas e as recomendações nacionais e internacionais.

Outro erro que infelizmente tem sido comum em Portugal, e que seria conveniente evitar, é a criação de ciclovias em zonas onde a solução mais indicada é de outra natureza. Em muitos casos, que corresponderão afinal à maioria das ruas urbanas, é preferível implementar medidas de acalmia de tráfego, zonas de coexistência. Que é como quem diz, medidas muito menos onerosas para o erário público, e com vantagens para todos. Porque quando a segurança e a fluidez de trânsito aumentam todos saímos beneficiados, independente do modo de transporte que utilizemos, e porque passamos a poder escolher outras opções que muitas vezes são bem mais vantajosas, como é o caso da bicicleta.

 

O sedentarismo e a, necessária, envolvência multidisciplinar, no seu combate.

O sedentarismo e a, necessária, envolvência multidisciplinar, no seu combate.


Não há dúvida que a evolução tecnológica presenteou o Homem, com variados aspetos benéficos no seu dia a dia. O trabalho pesado e lesivo, para a saúde e bem estar, sobretudo a nível osteoarticular, passou a ser desempenhado por máquinas. Contudo, se tal é verdade, também o é que a evolução tecnológica tem tornado o Homo sapiens num ser sedentário.

Para a Organização Mundial de Saúde, o sedentarismo é um determinante na qualidade de vida do ser humano, durante todo o ciclo de vida. 

Em 2004, o Eurobarómetro revelou que 66% dos portugueses, com mais de 15 anos, nunca faziam atividade física e que 22% o faziam apenas 1 vez por semana. Uma das razões apontadas foi o ordenamento do território, já que apenas metade dos portugueses reconhece ter oportunidades de prática desportiva, na zona onde reside.

Não há dúvida que a evolução tecnológica presenteou o Homem, com variados aspetos benéficos no seu dia a dia. O trabalho pesado e lesivo, para a saúde e bem estar, sobretudo a nível osteoarticular, passou a ser desempenhado por máquinas. Contudo, se tal é verdade, também o é que a evolução tecnológica tem tornado o Homo sapiens num ser sedentário.

Para a Organização Mundial de Saúde, o sedentarismo é um determinante na qualidade de vida do ser humano, durante todo o ciclo de vida. 

Em 2004, o Eurobarómetro revelou que 66% dos portugueses, com mais de 15 anos, nunca faziam atividade física e que 22% o faziam apenas 1 vez por semana. Uma das razões apontadas foi o ordenamento do território, já que apenas metade dos portugueses reconhece ter oportunidades de prática desportiva, na zona onde reside.

Perante o fácil acesso à comida; melhoria da capacidade de armazenamento, no domicílio; e a existência de tecnologia, para resolução da maioria dos problemas diários, a população  diminuiu o gasto calórico diário e, inversamente, aumentou o aporte calórico, condicionando o surgimento da epidemia de obesidade. 

Na década de 60, o Dr. Jeremy Morris publicou estudos que documentaram que a atividade física é um importante coadjuvante na prevenção das doenças cardiovasculares. O Dr Jeremy constatou que os revisores de autocarros, de dois andares, apresentavam 50% menos enfartes do miocárdio que os condutores, desses mesmos autocarros. A diferença residia no facto de os motoristas passarem o seu horário de trabalho sentados, a conduzir, e os revisores subirem cerca de 600 degraus, por dia. O mesmo autor também publicou artigos que comparavam os carteiros, que se deslocavam a pé ou de bicicleta, com telefonistas, e os resultados foram idênticos ao estudo anterior. O tipo de profissão pode influenciar os resultados clínicos dos doentes. O mesmo autor constatou que, independentemente da composição corporal dos trabalhadores, obesos ou magros, a atividade física era um fator independente de risco cardiovascular, sendo que, quem era mais ativo tinha menor probabilidade de vir a padecer de patologia cardiovascular. Um outro estudo, que envolveu 18000 homens, com trabalho sedentário, e se prolongou 8 anos, mostrou que pessoas com atividade física regular, com exercícios aeróbios (não só porque praticavam desporto, mas porque andavam, nadavam, e se deslocavam de bicicleta) eram 50% menos propensos a ter um enfarte do miocárdio, do que os sedentários.

Claro que é importante a comunidade médica combater o sedentarismo. Contudo, as sociedades também têm, no geral, de ser mais facilitadoras. Evitar horários laborais exagerados; garantir a escolha democrática de meio de transporte, proporcionando condições para os peões e utilizadores de bicicletas; privilegiando e beneficiando quem, ativamente, se desloca.

O combate ao sedentarismo pode ser induzido pelas alterações urbanas. As evidências são várias: cidades que se transformam, para reduzir os atropelamentos e colisões, entre velocípedes, ou peões, e automóveis, atraem mais pessoas para a mobilidade ativa, e, consequentemente, combatem o sedentarismo.

A foto, que ilustra o artigo, foi obtida junto da Universidade de Bona, um local com ótimas condições de acessibilidade, para quem se desloca de bicicleta. Um local que exemplifica bem como a população adere à mobilidade ativa (de bicicleta ou a pé), ou com o interface de transporte público, quando lhe são garantidas condições.

A Direcção Geral de Saúde enfatizou, há uns anos, no livro “Saúde um compromisso” que seriam necessárias  estratégias de cooperação, que envolvessem a comunicação social; programas educativos; autarquias; o associativismo desportivo; professores; divulgações regulares dos benefícios da vida ativa; para que, com as várias entidades envolvidas, se obtenha a desejada redução do risco comunitário, de morte, ou complicação médica, associado ao sedentarismo.

Meu querido mês de agosto

Meu querido mês de agosto


Durante este último mês de agosto, grande parte dos bracarenses apreciou seguramente mais a cidade. As condições não podiam ser melhores: sol, calor, mais gente a passear no centro e mais atividades recreativas e culturais como concertos, exposições, feiras etc. No fundo, a cidade em agosto e nos meses de verão ganha outra vida. Ao mesmo tempo, as estradas estão desimpedidas. Agosto significa também menos condutores na estrada, menos filas, menos trânsito, menos stress e mais tempo para aproveitar com amigos e família.

Porém, depois de um quase idílico agosto, chega o mês de setembro e o regresso ao trabalho, às aulas e de mais carros na estrada. Milhares de automóveis voltam a encher a cidade de fumo e de poluição que não é só atmosférica mas também visual e sonora.

Muitos de nós em algum momento nos questionamos: Porque não pode ser sempre Agosto? Porque não podemos ter sempre estradas livres para podermos circular e demorar menos tempo nos nossos percursos diários?

Infelizmente, sabemos que isso não é possível.

Braga tem cada vez mais carros que trazem mais congestionamentos, mais acidentes, mais ruído e mais poluição. São mais de 180 mil habitantes no concelho a deslocarem-se praticamente todos os dias. As contas podem não ser precisas mas a conclusão é visível para todos nós: há carros a mais na cidade! Tentamos alargar estradas, ter mais vias para abrir espaço para o automóvel mas isso apenas significa ainda mais veículos e mais filas. Da mesma maneira que muitas vezes sentimos que uma casa maior é a necessidade para os nossos problemas de arrumação para no fim chegarmos à conclusão que o que precisamos mesmo é de nos livrar das coisas que não precisamos e que vamos acumulando, as cidades não precisam de estradas mais largas, precisam é de menos carros.

Mas esta conclusão não é assim tão óbvia para os decisores políticos. Enquanto continuamos com verdadeiras autoestradas a cortar a cidades podemos tomar nós o primeiro passo.

Neste mês de setembro e início de outono, enquanto o sol ainda não se esconde por trás da nuvens aproveite para deixar o carro em casa e tire a bicicleta do canto da garagem para dar umas pedaladas nas pequenas deslocações. Sem filas, sem buzinadelas, sem stresses. Um bem para a alma e para o corpo. Apenas 30 minutos de bicicleta são o suficiente para estar de acordo com as recomendações de exercício físico diário segundo a OMS. Acredite que 15 minutos são, na maior parte dos casos, suficientes para se chegar ao centro da cidade.

Existem muitas desculpas para não começar a pedalar. Calor a mais, subidas a mais, chuva a mais, esforço a mais… Mas no meio disso tudo há um “a mais” que nós teimamos em esquecer. Há carros a mais em Braga. Milhares todos os dias a entrar e a sair da cidade. Vamos cada um de nós a tirar um carro da cidade de Braga. Evite horas de ponta, vá de bicicleta. Verá que pelo menos para si, o calmo e querido mês de agosto na estrada não chegou ao fim.

Boas pedaladas

Livros com pedal – Books by bike

Livros com pedal – Books by bike


Nos dias 6 e 7 de setembro, duas bicicletas iluminadas com leds vão circular nas ruas do centro histórico e oferecer livros, sugestões de leitura e um flyer desenvolvido pela Braga Ciclável.

A organização está ao cargo da BLCS – Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em parceria com a Associação Braga Ciclável e o Grupo de Teatro Malad’arte.

Quanto mais pedalo mais gosto de ti

Quanto mais pedalo mais gosto de ti


Não é fácil ser-se ciclista em Portugal e, pela minha experiência, é muito difícil ser-se ciclista em Braga. Descrever o que é um ciclista é algo que não é simples, pois pode ser o mero utilizador ocasional da bicicleta, um desportista que vai ou para o monte com a sua btt ou para a estrada com a sua bicicleta de estrada, ou mesmo aquele cidadão que utiliza a bicicleta no seu dia-a-dia, que pode incluir a ida para o trabalho, às compras ou uma mera voltinha urbana. Sim, é um dia-a-dia real para cada vez mais cidadãos, que aumenta exponencialmente quando as infra-estruturas surgem. Urge combater a carrocefalia e promover mais e melhores transportes públicos, mais e melhores áreas pedonais e os modos suaves, onde a bicicleta tem um papel preponderante. E menos veículos na cidade, pois o caminho é este!
Também não é fácil lidar com tanto preconceito e, diga-se, ódio para com os ciclistas, por parte de alguns automobilistas, que veem as bicicletas como uma ameaça ao seu feudo automóvel. Ou então lidar com as ainda frequentes razias ou “chega para lá” por parte de alguns. Eu já fui alvo de razias por parte de camiões, autocarros e automóveis. Já tive de me mandar para a berma para não ser atropelado. E não, não passo os vermelhos ou as passadeiras de bicicleta.
Assusta ler as caixas de comentários das redes sociais sempre que a PSP ou a GNR sensibilizam para a necessidade de dar 1,5 metros aos ciclistas. Tanta intolerância e ódio para quem opta pelas bicicletas e tanta tolerância e passividade perante centenas de mortes nas estradas. Preocupante!
Contudo, e mesmo apesar disto tudo, quanto mais pedalo mais gosto das bicicletas. É um meio de transporte barato e tremendamente eficaz nas pequenas e médias distâncias, não paga estacionamento, não polui, não congestiona, promove a saúde e o bem-estar. E a sensação de alegria é uma verdadeira maravilha que não desaparece com os anos. Chega-se ao trabalho mais contente e é-se mais produtivo. Claro que há que utilizar o vestuário indicado para a ocasião, algo esquecido por muitos.
Para quem, como eu, sempre andou de bicicleta e nunca parou de o fazer, as coisas são mais fáceis, mas para quem anda pouco de bicicleta, as coisas são mais difíceis. Há toda uma forma de condução defensiva que é necessário promover, algo que faz com que muitos andem de bicicleta em alguns passeios, algo que compreendo e, diga-se, defendo em casos específicos, onde é possível a coabitação de peões e ciclistas. Urge reflectir!

Uma viagem até ao mundo das bicicletas

Uma viagem até ao mundo das bicicletas


Olá, eu sou a Sandra tenho 24 anos e sou Engenheira Informática e, portanto, tenho pela frente uma vida propícia a muita movimentação, atividade física e energia. Só que não!

Comecei a trabalhar há cerca de dois anos no Porto e, como tal, o uso de transportes públicos e o uso do carro faziam parte do meu dia-a-dia. Todos os dias fazia a viagem Braga-Porto, Porto-Braga. Eram duas horas do meu dia despendidas a andar de autocarro, que somadas às oito horas de trabalho me tiravam qualquer energia existente para praticar qualquer tipo de exercício físico.

Enquanto isso, via as pessoas à minha volta a começarem o dia a caminhar, a correr e a deslocarem-se de bicicleta para o trabalho. Também eu queria fazer parte deste grupo de pessoas.

Quando surgiu a oportunidade de me mudar para Braga uma das coisas que tive em conta na minha decisão foi a possibilidade de poder transformar a aborrecida viagem casa-trabalho em algo agradável.

Tinha já em mente mil e um planos, mas como qualquer grande parte das boas intenções que temos não passa disso mesmo…uma boa intenção. Optei pelo caminho mais fácil: deslocar-me de carro e a mudança de uma hora para oito minutos de viagem parecia fantástica e até me dava a ilusão de ganhar tempo para fazer o tão necessário exercício. Isto até me deparar com o tão desagradável trânsito da Universidade. Aí já não eram 8 minutos, mas sim tempos infinitos no pára-arranca que me deixavam frustrada e maldisposta.

Com a chegada dos dias de sol todo o propósito da mudança da vida sedentária voltou a ganhar força, de tal forma que reparei numa alternativa mesmo em frente dos meus olhos: tinha perto de mim e ao meu dispor uma ciclovia que ligava a Universidade ao Polo de Negócios, o meu atual local de trabalho. Era a altura certa para a mudança!

Juntei o gosto que sempre tive por andar de bicicleta ao encorajamento, que o meu namorado e amigos me davam, para tirar o pó à bicicleta que estava parada em casa e a trazer até as ruas da cidade de Braga.

Fiz a minha primeira viagem a medo, não vou mentir. O trânsito infernal, a velocidade a que os carros circulam na zona das rotundas da Universidade e do INL, aliadas à falta de respeito que os condutores tinham e têm para com os ciclistas assustavam-me. Ainda hoje me sinto insegura até chegar à zona em que realmente existe a ciclovia, mas a verdade é que sinto que isso é um mal menor comparado com a energia e boa disposição que a bicicleta repôs nas minhas manhãs e finais de tarde. A vontade de pedalar deu lugar ao cansaço e stress que acabam por ficar pelo caminho.

Deixei o carro, poupei no combustível, passei a contribuir para o bem do planeta e, sem perceber, cumpri o desejo de voltar a introduzir o exercício físico e, desse modo, melhorar a minha qualidade de vida.