A bicicleta não é um brinquedo

A bicicleta não é um brinquedo

Muitos de nós guardamos recordações felizes de uma infância ou juventude marcada pela presença da bicicleta. Primeiro, como brinquedo, mas mais tarde como meio de emancipação, um modo de transporte de baixo custo, acessível e sem requisitos complicados. Hoje em dia, demasiadas vezes esquecemos esse potencial libertador e utilitário da bicicleta, e apenas a consideramos, erradamente, como um mero brinquedo.

Pode parecer uma discussão fútil e despropositada, mas não é. A bicicleta tem algumas características que fazem dela a melhor opção de transporte para boa parte das nossas deslocações diárias, com vantagens impossíveis de igualar por outros modos de transporte.

Em trajetos curtos, por exemplo de 3 a 5 quilómetros, o tempo de viagem em bicicleta costuma ser até mais curto, quando comparado com a mesma viagem em automóvel. Além disso, os custos de aquisição e manutenção de uma bicicleta são 5 a 10 vezes mais baixos, ou seja, poupamos dinheiro.

Ao mesmo tempo que nos deslocamos para o trabalho, para a escola, para a universidade ou para as compras do dia-a-dia, indo de bicicleta estamos a aproveitar para fazer exercício físico, sem arcar com os custos de tempo e dinheiro associados aos ginásios.

Finalmente, quando há escassez de combustível nos postos de abastecimento, até isso já não nos afeta de forma tão direta, e podemos prosseguir a nossa viagem sem preocupações.

Encarar a bicicleta como mais uma das nossas opções de transporte pode facilmente traduzir-se numa transformação libertadora a nível pessoal. Menos despesa, menos tempo perdido, mais saúde, melhor disposição. Não é evidentemente solução para todas as necessidades de transporte, mas é sem dúvida o melhor transporte em muitas situações nas quais habitualmente ainda usamos o carro.

O desafio que vos lanço, agora que estamos em plena primavera, é que considerem experimentar utilizar a bicicleta no dia-a-dia. Uma ou várias vezes por semana, todos os dias, ou só às vezes.

Vai ser uma experiência inesquecível!

Logística nas cidades: A bicicleta como parte de uma solução participada

Logística nas cidades: A bicicleta como parte de uma solução participada

Quando se fala de mobilidade não se fala apenas de mobilidade de pessoas, mas também de mercadorias.
A Logística Urbana pode ser definida como o transporte de bens do ponto A para o ponto B dentro da zona urbana, independentemente do modo de transporte utilizado para o efeito.

Numa cidade média europeia, com cerca de 240 mil habitantes, existem cerca de 1 milhão de viagens por dia. Desse 1 milhão de viagens, cerca de 490 000 estão relacionadas com a distribuição de mercadorias utilizando veículos motorizados. Cerca de metade destas viagens (240 000) poderiam deixar de ser feitas em veículos motorizados e passar a ser realizadas de bicicleta ou de bicicleta de carga.

Com o crescimento das cidades há um aumento da procura pela distribuição de mercadorias e, por isso, é importante minimizar os impactes do uso dos veículos motorizados neste tipo de distribuição.

O transporte de mercadorias nas cidades, especialmente nos centros urbanos, é um desafio para muitos Municípios. A organização da entrega de mercadorias, com a criação de zonas abastecedoras estrategicamente colocadas que depois redistribuem a mercadoria, é fundamental para que uma cidade seja mais agradável.

Utilizar a bicicleta como uma parte da logística urbana pode mudar a “face” da cidade tornando-a num sítio mais agradável para as pessoas.

São variados os equipamentos existentes para se efetuar a distribuição de mercadorias de bicicleta, desde acessórios que se podem juntar a uma bicicleta normal (como um alforge, um cesto ou um atrelado), até à própria bicicleta, normalmente chamada cargo-bike que é construída de forma a transportar uma carga maior, podendo ter a capacidade de carregar até 250 kg. Existem também bicicletas com 3 rodas e uma caixa fechada atrás para cargas maiores. Até aos 7 km de distância, a bicicleta é o modo de transporte de mercadorias mais eficiente nas cidades europeias.

É por isso importante refletir e organizar a logística e micrologística urbana, contando também com a bicicleta como parte da solução para um problema que existe em todas as cidades: como fazer chegar a mercadoria produzida desde um “hub” regional até ao comércio local ou a prateleira do supermercado. E isto, tal como outras questões da mobilidade, não pode depender apenas de medidas avulsas, mas sim de uma estratégia holística de mobilidade que seja efetivamente executada a um ritmo visível e com a participação da população.

E aqui a participação da população nestas decisões é fundamental, porque a democracia não se esgota nas urnas, porque uma democracia participativa passa pelo envolvimento das pessoas ao longo dos processos, e não apenas na apresentação formal e final dos projetos. E até num processo de alteração do paradigma da logística urbana o envolvimento das pessoas é fundamental, porque serão as pessoas a efetuar a distribuição e terão que ser elas a querer estes projetos, sendo que cabe aos municípios criar as condições para que estas escolhas sejam feitas.

in CMCidades #5 – Correio do Minho – 14 de abril de 2019

Transporte Ativo e Áreas Pedonais

Transporte Ativo e Áreas Pedonais

A cidade de Braga possui uma excelente área pedonal, no seu centro histórico. Trata-se de uma área extensa, plana e globalmente bem pavimentada, onde afloram várias áreas de comércio e turismo, bem como de habitação.

As áreas pedonais incentivam a deslocação a pé e de bicicleta, promovendo atividade física. A deslocação ativa apresenta benefícios para a saúde dos cidadãos, bem como benefícios ambientais; otimiza, ainda, a atividade comercial e turística dos centros pedestres. Esta áreas são consideradas como zonas de conforto, onde as famílias se podem deslocar com descontração, sem a preocupação do confronto com o automóvel.

Vários estudos têm sido realizados, no sentido da obtenção do ideal de promoção da deslocação ativa, pelas cidades, de forma recreativa, ou em trabalho. Num ponto são unânimes: sem perceção de segurança, os esforços de promoção da deslocação ativa, são inglórios.

Os atropelamentos têm relação com a idade dos peões, volume de tráfego e velocidade automóvel e estação do ano. A população 65+ tem aumentado.

Este grupo populacional apresenta uma menor acuidade visual e auditiva; menor agilidade; por vezes, deterioração cognitiva, apresentando maior possibilidade de se envolver em atropelamentos. De igual modo, verifica-se uma probabilidade de morte 50% superior, aos peões mais novos, em caso de atropelamento. Os atropelamentos devem ser monitorizados, no sentido de estimularem o surgimento de medidas para sua redução efectiva.

Em Pontevedra, Galiza, os esforços dos executivos camarários, no sentido da promoção do deslocar ativo seguro, permitiu atingir a fabulosa meta de zero atropelamentos. Para isso, foi necessário fechar estradas, sobretudo no centro da cidade, ao trânsito automóvel, criando condições para que as pessoas deixassem os automóveis em parques gratuitos, fora do centro. Associaram, ainda, medidas educativas, no sentido da promoção dos benefícios dessas alterações.

Lentamente, e porque estes assuntos assim o exigem, as estradas foram sendo entregues aos peões e ciclistas. Agora, o ruído e fumo dos carros foram substituídos pelo prazeroso som dos pássaros e das crianças a brincarem.

A população, na sua maioria, relata maior índice individual de felicidade e os comerciantes garantem que o comércio melhorou, também.

Será de esperar que Braga evolua, ao afirmar-se como uma cidade ainda mais amiga do transporte ativo, com o aumento de áreas partilhadas, por peões e ciclistas, bem identificadas, e com zero atropelamentos.

Boas notícias

Boas notícias

O governo apresentou no passado dia 28 de Março a sua Estratégia Nacional para a Mobilidade Ativa e há claros objectivos, números até, de promoção da utilização da bicicleta como meio de transporte urbano em Portugal.

Os números são um embaraço. Em Portugal apenas 0,5% das deslocações são feitas em bicicletas, com um terrível impacto para o ambiente e para a qualidade de vida dos Portugueses. O objectivo é subir deste mísero número para 7,5% até 2030. Também até 2030 pretende-se aumentar os km de ciclovia de 2 mil (números de 2018) para 10 mil e reduzir a sinistralidade de peões e ciclistas para metade.

É claro que tudo isto são boas notícias, são excelentes notícias, mas as grandes alterações de paradigma começam nas cabeças das pessoas. Ciclovias para adornar os passeios das cidades, como temos tido em Braga, não vão mudar o planeta.

Uma das medidas que mais me encheu a alma, porque acredito que um dos maiores problemas de transito das cidades portuguesas, e de Braga em particular, se relaciona com as portas das escolas e o seu acumular de automóveis de pais em segunda e terceira fila, foi a do plano de intervenção juntos dos jovens em idade escolar, nomeadamente ao nível do ensino de como andar de bicicleta. Espero que esta medida tenha como objectivo criar aquilo que se vê pela europa fora – escolas com largos parques de estacionamento para bicicletas e pais à espera das suas crianças em casa, em vez de a entupirem as cidades às horas de saída.

Como provaram no passado dia 15 de Março, os jovens não estão dispostos a enterrar o seu futuro juntamente com o planeta pelo conforto de um sofá.

Espero sinceramente que esta Estratégia Nacional dê às novas gerações as armas para criarem um país mais ecológico, com cidades mais fluídas, seguras e mais confortáveis. Espero que a Câmara de Braga passe à acção, implementando já, por exemplo, os prometidos 22 km de rede ciclável estruturante e que as horas de saída e entrada das escolas passem a ser celebradas com campainhas de bicicletas, em vez de baforadas de tubos de escape.

Este Sábado há Cicloficina na Rua do Castelo

Este Sábado há Cicloficina na Rua do Castelo

Este sábado, dia 6 de abril às 17h00, realiza-se uma nova edição da Cicloficina na Rua do Castelo. Nestes encontros informais, as pessoas aparecem e fazem ou aprendem a fazer a manutenção da sua própria bicicleta, ou ajudam a arranjar a bicicleta de outros participantes.

As cicloficinas de Braga acontecem duas vezes em cada mês, e em dois locais distintos: no primeiro sábado de cada mês na Rua do Castelo, e na terceira terça-feira de cada mês nos Campos da Rodovia.

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Pedalar de Braga ao mar da Póvoa e mais além!

Pedalar de Braga ao mar da Póvoa e mais além!

A ecovia do rio Este deixa muito a desejar aos ciclistas. Além dos múltiplos conflitos com os peões – é uma via partilhada -, tem uns míseros 4 km de extensão o que a pedalar se faz em poucos minutos. E não é desinteressante apenas para os ciclistas adultos. Mesmo uma criança de 8 anos rapidamente se aborrece de ali pedalar. Em poucas viagens o passeio vira “seca”. Até porque é uma ecovia muito pouco estimulante: além da envolvente ser desinteressante, estabelece uma ligação entre dois não-lugares, começando no passeio da rodovia para o Bom Jesus e terminando, abruptamente, na estrada em Ponte Pedrinha. Soa demasiado a projeto sem rumo – pelo menos na vertente ciclável – e pouco mudou desde a inauguração em 2013.

E se não temos ciclovias para recreio, também não as temos para circulação na cidade pois, como temos vindo aqui a dizer, os 70km de vias prometidas não saíram do papel. Estranhamente não é difícil em países mais a norte – e até nas ex-repúblicas soviéticas – encontrarmos ciclovias com tramos de mais de 100km de extensão que servem várias cidades.

Uma boa resposta ao problema é gerar rede, interligando o pouco que vai existindo em Portugal e que resulta quase sempre da reconversão de antigas vias férreas. Assim, para os bracarenses a ciclovia mais perto com dimensão aceitável (30km) é a da antiga linha da Póvoa a Famalicão. De momento a solução é levarmos as bicicletas no comboio urbano até à Estação de Famalicão e de lá descobrirmos o início da tão mal sinalizada e conectada ciclovia. Algo que o Município de Famalicão devia urgentemente corrigir, até para a ligar ao excelente Parque da Devesa (a 1200m).

Mas Braga e Famalicão deviam pensar mais além! Aproveitando o vale do Rio Este podem estabelecer uma ligação fácil entre as duas ciclovias (assinalada na planta a pontilhado), ficando a cargo de cada município 10km. Em grande parte nem faria falta construir uma via de raiz. Poder-se-iam aproveitar os caminhos rurais já existentes próximos do rio, conectando-os e sinalizando-os. Esta ciclovia teria também a vantagem de ligar à Bosch, ao parque industrial de Celeirós, à estação de Nine, além de nos levar a Rates, à Póvoa, a Vila do Conde ou à Apúlia. E, claro, de igual forma, aproximando esses locais do centro de Braga. Quando pudermos ir ver o mar à Póvoa a pedalar em segurança então, sim, teremos algo a que poderemos chamar uma ecovia ciclável!