Mobilidade limpa integrada no cuidado da Casa Comum

Mobilidade limpa integrada no cuidado da Casa Comum


Como membro desta fantástica Casa Comum, partilho a experiência de mobilidade, com o intuito de impelir a uma maior sustentabilidade das vias e de oferecer a minha pequenez de colaboração em prol da mudança que urge, e cuja finalidade é o cuidado da Casa, limpa e fresca, para nela vivermos.

A mobilidade que mais aprecio e que é inata ao ser humano, é o caminhar, no qual sinto o chão, o calor, o frio, o vento, os cheiros, os espaços, as casas, as pessoas, a liberdade, o rasto limpo que deixa e a saúde que oferece. Logo de seguida, é o andar de bicicleta, por razões semelhantes. Ambas as que mais recomendo em consulta, como nutricionista, em prol de um estilo de vida salutar e humano. Promover estes meios limpos tem sido proposto pela União Europeia, pelas Nações Unidas, enfim, pela Humanidade que quer cuidar da sua Casa Comum.

Lembro-me de em criança apreciar os ciclistas mais antigos nas zonas de veraneio, em Viana do Castelo, Apúlia, Vila do Conde, Espinho, Nazaré, Vieira de Leiria, Tavira, em parte das férias de Verão. Perguntava-me porque em Braga e no Porto não via tantas bicicletas, talvez pelos declives territoriais. A outra parte das férias era na aldeia serrana, protótipo de uma comunidade sustentável, onde com os avós aprendi o respeito pela Casa Comum: aproveitar a luz natural, semear para colher, cuidar dos caminhos, orientar o circuito das águas para a rega e para não inundar as vias de mobilidade. E com o tio de Lisboa que estudava a Geira Romana, os princípios desta via de mobilidade por excelência, nomeadamente as cotas mais constantes para facilitar o trajeto e otimizar o gasto energético. Já maior andei de bicicleta noutras cidades: Amesterdão, em vias organizadíssimas; Londres; Milton Keynes, em vias ótimas de natureza, de terra, afastadas sempre que possível das vias motorizadas, apreciando a beleza da fauna e da flora. Eram cuidadas por associações de cidadãos e pela autarquia. Mais tarde, em Taiwan observei as vias cicláveis e conclui da sua universalidade e corresponsabilização dos povos.

Assim, determinada a perseguir o objetivo de uma Casa Comum limpa e fresca, perseverei na mudança, com avanços e recuos. Procurei uma clínica mais próxima de casa. Deixei uma outra afastada, passando-a para uma colega que mora perto. Desloco-me a pé, com a consciência mais tranquila. Para outros locais da cidade, sinto que necessito da colaboração coletiva, das autoridades, para me sentir segura no trajeto ciclável.

A solução brotará provavelmente da junção dos saberes e das pessoas no mesmo objetivo global e local. Universidades, autarquias, escolas, espaços de saúde, segurança, economia, cultura, espiritualidade, famílias, amigos, colegas, encontrarão a melhor e a mais simples. Muitas pessoas querem mudar, só precisam das alavancas facilitadoras.

A decisão pessoal de mobilidade tem um impacto na vida de todos, no ar que respiram, nos alimentos que comem, na saúde que usufruem. Em conjunto construiremos soluções viáveis!

A Arrogância do Espaço

A Arrogância do Espaço


As cidades foram originalmente construídas para as pessoas, tendo sido reorganizadas ao longo do século XX para poderem receber os carros. Em Braga, essa reorganização começou nos anos 60, quando Santos da Cunha criou a “Rodovia” com estacionamento e com 4 vias de trânsito, numa época em que ainda se contavam pelos dedos das mãos os carros existentes na cidade.

A estratégia pareceu resultar: a criação de grandes avenidas atraiu mais carros para a cidade, algo que naquela altura ainda se pensava ser sinal de prosperidade. Mas nada de mais errado. Apenas se criou mobilidade induzida, isto é, induziu-se a população a utilizar um determinado modo de transporte, criando grandes vias dedicadas a esse modo e que o privilegiam em detrimento de todos os outros.

A pergunta que nessa altura se fazia era sempre a mesma: “Quantos carros conseguimos transportar nesta rua?”. O carro estava no topo da pirâmide da mobilidade. Era tudo para o carro, numa clara arrogância do espaço, em que as pessoas a pé, de bicicleta, de skate, de mota, ou de transporte público eram simplesmente excluídas. Infelizmente, é assim que pensam alguns (pseudo)engenheiros de tráfego ainda presos aos livros dos anos 50.

Hoje sabemos que é preciso inverter a pirâmide da mobilidade, colocar o peão no topo, seguindo-se a bicicleta e o transporte público. Se queremos corrigir esta velha (e fracassada) tradição de planeamento de tráfego e adotar um planeamento eficiente da mobilidade, então está na altura de mudar a pergunta para “Quantas pessoas conseguimos transportar nesta rua?”. Vamos, desse modo, conseguir transportar quase 3 vezes mais pessoas, no mesmo espaço que antes estaria dedicado apenas ao carro.

Se o número de vias de trânsito motorizado deixa de ter tanta importância, o estacionamento gratuito para automóveis dentro da cidade deixa de fazer sentido. O número de lugares de estacionamento (sempre pago) à superfície deve ser bem gerido, fixando limites máximos, para atrair menos carros.

Mas o que importa mesmo é a criação de uma rede ciclável segregada e segura, acompanhada de uma rede de transportes que funcione em canais próprios, por forma a garantir a sua fiabilidade e pontualidade. A bicicleta e o transporte público aliados, com bons passeios, boas passadeiras, percursos pedonais francos, diretos e livres de obstáculos, a funcionarem como a espinha dorsal da cidade.

O mundo mudou! As cidades atuais já não se preparam para o futuro construindo ainda mais viadutos, mais túneis e mais circulares, para um carro arrogante que não se preocupa com mais nada à sua volta. Isso não é “mobilidade sustentável”, ao contrário do que se afirma em Braga. Isso é trânsito, é apenas dizer “usem mais o carro”. Mas isso não se coaduna com o mundo atual e muito menos com o futuro. As cidades precisam de induzir o uso da bicicleta e do transporte público como alternativa ao automóvel. Braga não é diferente. É de lamentar que não seja agora que se induza verdadeiramente o uso da bicicleta e do transporte público como alternativa ao automóvel. Isto porque se não formos muito rápidos a mudar já hoje vamos falhar. Precisamos de uma revolução no espaço dedicado ao carro, porque no tempo da cidade, 2025 é já amanhã, e não podemos falhar às gerações futuras!

@Diário do Minho, 4 de maio de 2019

Moral Urbana

Moral Urbana

Muitas vezes os discursos de quem procura a rotura e a mudança de um paradigma instalado estão agarrados a emoções e a argumentos pouco racionais. É fácil voltar de Amesterdão e querer transformar a nossa cidade em algo similar, o problema reside no facto de estarmos a falar de casos completamente distintos. Braga apresenta percursos com algum declive, não tem infraestruturas interessantes a ligar os principais pontos da cidade para o uso do ciclismo urbano, nem tem tradição ciclável na cidade, se consideramos os últimos 30 anos. É possível depreender também que a maioria das pessoas se desloca de carro para o local de trabalho, considerando este como o melhor meio para a sua deslocação. 

 As emoções de uma experiência de mobilidade alternativa, relativamente mais adequada, provocam um discurso moralista sobre aquilo que seria melhor para todos os habitantes da cidade. A promoção de meios culturalmente alternativos é mostrada muitas vezes como a solução perfeita e absoluta, colocando-se os promotores no lugar dos justiceiros da mobilidade. Tais discursos motivacionais, que enumeram todas as vantagens de usar a bicicleta como solução de mobilidade, são uma constante por parte de quem usa a bicicleta, porém falar sobre o que corre mal pode antecipar muitos problemas aos potenciais ciclistas urbanos. 

Relativamente à minha experiência pessoal posso enumerar tudo o que correu mal: a primeira bicicleta que comprei não se mostrou suficiente para o meu percurso, comprei uma segunda bicicleta para resolver o problema de algumas subidas; as primeiras experiências no meio do trânsito correram muito mal, muitas delas com discussões pouco civilizadas com automobilistas que teimam em desconsiderar a bicicleta enquanto veículo; também a roupa, muitas vezes inadequada, foi um dos problemas – quando se anda 6/7 km de bicicleta seguidos a roupa tem que ser ajustada; utilizar uma mochila com alguma carga tornou-se igualmente problemático do ponto de vista ergonómico, torna-se, por isso, necessário escolher um sistema de carga que se adeque; em quase todas as viagens que fiz até ao momento fui ultrapassado inadequadamente comprometendo a minha segurança. 

Apesar de todas estas questões negativas, que hoje se encontram quase todas resolvidas, o balanço continua a ser positivo: a sustentabilidade económica e a promoção de uma vida menos sedentária, que a utilização da bicicleta me proporciona, determinam a minha escolha por este meio. 

Para concluir, considero que não invertemos o paradigma atual com moralismos e com falsas expectativas. Ser ciclista urbano em Braga ainda acarreta algumas condicionantes e para muitas pessoas ainda é uma solução pouco viável. A mudança vai ser feita quando todos nós formos cidadãos mais informados e sensíveis relativamente a esta temática que provocará ações políticas congruentes.