Orçamento Participativo e a democracia de escolhermos a cidade que queremos

Orçamento Participativo e a democracia de escolhermos a cidade que queremos

Nós, Braga Ciclável, somos uma associação sem fins lucrativos que promove a utilização da bicicleta como meio de transporte na cidade de Braga. Antes de sermos uma associação, éramos um movimento cívico e antes disso éramos apenas cidadãos de Braga que se preocupavam, individualmente, cada um em seu canto da cidade, com as condições para a utilização da bicicleta nas nossas vidas pessoais. Mas a democracia, que é uma coisa muito bonita, disse-nos que a união faz a força e que os nossos problemas eram os problemas de muitas outras pessoas e que talvez fosse boa ideia trabalharmos em conjunto para ajudar a construir uma cidade melhor para todos. A nossa missão é encorajar o uso quotidiano da bicicleta e facilitar a todos os cidadãos os benefícios individuais, sociais, económicos e ambientais desse uso. Somos estudantes, lojistas, administradores, engenheiros, arquitectos, vendedores, mulheres e homens e a única coisa que ganhamos com este projecto é um sorriso de cada vez que vemos mais um cidadão de bicicleta a circular em segurança em Braga. (mais…)

As bicicletas que nos levam de um lado para o outro

As bicicletas que nos levam de um lado para o outro

Os portugueses gostam de bicicletas. Os bracarenses garantidamente gostam de bicicletas. Nos dias de hoje não há ginásio, fitness center ou clube que não disponha de aulas em cima de bicicletas e chamem-lhe cycling, spinning ou rpm, estas são sempre as aulas com mais afluência. E se por um lado, as bicicletas são um exercício excelente para quem quer manter-se em forma, elas (as bicicletas) têm uma outra função que os ginásios ignoram. Elas levam-nos a sítios.

Hoje escrevo-vos a partir da Inglaterra, de uma cidade pequena a sul de Londres. Na Inglaterra, como todos bem sabemos, faz frio, chove, neva, há vento e céus cinzentos durante invernos muitos mais longos que o nosso. Hoje a mínima é de 3 negativos e ainda ontem de manhã nevou. Ainda assim, esta cidade de 65mil habitantes tem 7 trilhos para bicicleta, que unem todos os cantos da cidade, desenhados para quem quer ir trabalhar de bicicleta, ir buscar os filhos à escola, ir às compras, ir até ao lago ou só passear pelos bosques que rodeiam a cidade. Hoje peguei na bicicleta e fui ao lago e não me surpreendi por não ser a única a pegar na bicicleta. Desde 2008 que a cidade investe em trilhos que ligam as zonas residênciais com as áreas de lazer, o centro da cidade e os locais de trabalho e os resultados estão à vista – um crescimento de mais de 100% no número de ciclistas a circular na cidade. Ao todo, são mais de 40km de vias cicláveis – alguns dos trilhos são magníficos, na beira do canal ou a atravessar bosques, outros são apenas práticos e seguros, com aproveitamento de passeios e com sinalização adequada.

Conseguem imaginar trilhos a ligar o centro da cidade de Braga com, por exemplo, a praia de Adaúfe, ou o Mosteiro de Tibães? A Arcada com o Estádio ou o Bom Jesus ou tão só com o Picoto? Um trilho a ligar a Universidade ao centro histórico? Trilhos seguros para os ciclistas, mas também para os automobilistas e os peões? Trilhos desenhados para todos os que gostam de fazer exercício em cima de bicicletas mas que também gostam de respirar ar puro, ar frio à vezes, trilhos para quem quer ir a sítios e não se importa de chegar ligeiramente despenteado?

Não sei qual é a taxa de ocupação das aulas de cycling por aqui, mas quase aposto que é inferior aos 80% que o meu ginásio tem nas aulas do final do dia. Afinal de contas, quem prefere ficar parado quando pode, com segurança, por as rodas a andar?


(Artigo originalmente publicado na edição de 12/03/2015 do Diário do Minho)

Balanço da 14ª Semana Europeia da Mobilidade em Braga

Balanço da 14ª Semana Europeia da Mobilidade em Braga

Todos os anos, desde 2002, entre os dias 16 e 22 de Setembro a Europa desdobra-se em comemorações relativas à Semana Europeia da Mobilidade, com a realização de inúmeros eventos e a implementação de medidas permanentes relacionadas com a mobilidade. Este ano, Braga participou pela 3ª vez nesta grande celebração, e com um cartaz que fez inveja a outras cidades portuguesas. Mas como correu afinal? E que marcas ficaram deste evento para o futuro da cidade?

Como em qualquer evento desta envergadura, que obriga à colaboração de várias entidades num programa tão extenso quanto diversificado, houve aspetos positivos e aspetos negativos. Cumpre fazer uma reflexão sobre o que ganhou a cidade com este evento e o que poderia ter corrido melhor, para que futuras edições possam ser ainda mais inspiradoras para a sociedade bracarense.

O cartaz e os eventos

Goste-se ou não do desenho gráfico do cartaz, uma coisa é difícil negar: houve eventos para quase todos os gostos e também o propósito de implementar medidas permanentes muito positivas.

Cartaz Braga Semana Mobilidade 2015

Ficámos contudo com a sensação de que o cartaz foi tornado público demasiado tarde e que uma boa parte dos eventos pecaram por fraca divulgação. Foi pena também que não houvesse grande articulação entre alguns dos elementos do cartaz. Por exemplo, aproveitar os passeios de bicicleta, os workshops ou a estreia do documentário Bikes Vs Cars para dar a conhecer os novos estacionamentos para bicicletas e a nova via ciclável. Por outro lado, não se entende que, apesar de avançar com um programa tão ambicioso para esta Semana da Mobilidade e de ter vindo a sugerir metas interessantes em termos de mobilidade sustentável para os próximos anos, a CMB não se tenha feito representar na palestra/debate que se realizou a seguir à exibição do documentário Bikes Vs Cars.

As medidas permanentes

Ao nível da Mobilidade em Bicicleta, o cartaz prometia algumas novidades interessantes, onde se destacavam a instalação de novos suportes de estacionamento para bicicletas (bicicletários) pela cidade e a implementação de uma via ciclável entre a Universidade do Minho e o Centro Histórico através das ruas de São Victor, D. Pedro V e Nova de Santa Cruz. Duas medidas muito bem-vindas e plenamente alinhadas com o que desde há vários anos vimos defendendo.

Já em meados de 2012 na Proposta Para Uma Mobilidade Sustentável, apontávamos como medidas urgentes, precisamente, a instalação de estacionamentos para bicicletas e a implementação de um eixo ciclável entre o Campus de Gualtar, o Centro e a Estação. Mais recentemente, através do Mapa Braga Ciclável e de diversas contagens realizadas no terreno, pudemos comprovar que estas três ruas constituíam uma das principais vias de acesso ao centro e à universidade por parte dos utilizadores de bicicleta, a que não é alheio o facto de ser o percurso mais direto, além de ser quase plano e com tráfego automóvel reduzido.

Novos estacionamentos para bicicletas

A implementação dos bicicletários, apesar de realizada com um certo atraso, foi muito bem sucedida. A Câmara Municipal de Braga fez uma atualização em termos do design dos seus suportes do tipo Sheffield: são mais bonitos e agora já incluem barras horizontais de segurança para invisuais, que funcionam adicionalmente como sinalética integrada indicando visualmente a função a que se destinam. Além disso, a autarquia teve ainda o cuidado de colocar uma boa parte dos estacionamentos junto a infraestruturas e serviços públicos (centros de saúde, Mercado Municipal, Segurança Social, cemitério, museus, central de camionagem, Parque de Exposições), em localizações que, de um modo geral, nos parecem adequadas. Foram colocados mais de 50 suportes, repartidos por 13 novas localizações, algumas das quais com uma adesão imediata por parte dos ciclistas (por exemplo, no novo estacionamento junto à Livraria Centésima Página todos os dias vemos lá bicicletas).

Estacionamento para bicicletas em braga, na Avenida Central, junto á Livraria 100ª Página

É uma melhoria significativa, e provavelmente a marca mais visível que ficou da realização da Semana da Mobilidade. Ainda assim, continua a ser um número de lugares de estacionamento para bicicletas claramente insuficiente para uma cidade desta dimensão e com o número de habitantes que tem. Se o objetivo de Braga é alcançar a médio prazo uma melhor repartição modal, então precisa de investir em força neste tipo de infraestruturas de apoio ao uso dos meios de transporte alternativos. Ficou a faltar também a finalização do trabalho iniciado há cerca de 2 anos pelo anterior executivo: continua a estar em falta a sinalização de 6 locais de estacionamento para bicicletas (por exemplo, junto ao Banco de Portugal) – a colocação das placas de sinalização tarda em ser realizada, e não compreendemos o porquê deste atraso e do silêncio da CMB em relação a este assunto. Finalmente, ainda no que diz respeito a estacionamentos, foi pena a CMB não ter aproveitado para reparar ou substituir um dos suportes que há meses se encontra derrubado no Largo da Senhora-a-Branca…

Via Ciclável entre a Universidade do Minho e o Centro Histórico

A ideia era, finalmente, permitir legalmente a circulação de ciclistas em ambos os sentidos (a via tem dois sentidos mas proíbe, num deles, o trânsito automóvel privado e de velocípedes), sinalizando-o de forma adequada e bem visível para maior segurança de todos. Os ciclistas que diariamente usam a Rua Nova de Santa Cruz, a Rua D. Pedro V e a Rua de S. Vítor nas suas deslocações certamente ficaram tão entusiasmados como nós ao lerem a notícia de que iria ser implementada esta medida durante a Semana da Mobilidade! Só que… afinal não foi. O que se passou afinal?

Rua D. Pedro V

Passado mais de um mês da Semana da Mobilidade, fonte ligada à CMB dá-nos nota que esta medida continua “em estudo”.

A Braga Ciclável realizou nestas e noutras ruas várias contagens de trânsito, tendo concluído que todos os dias ali passam centenas de pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte, em ambos os sentidos. As pessoas escolhem este percurso por um motivo simples: é o melhor percurso para quem vai de bicicleta. É o percurso percurso mais direto entre toda a zona Este e o Centro, praticamente não tem inclinações e a velocidade média e a quantidade do tráfego automóvel são mais reduzidas. Resumindo: é o caminho mais direto, mais rápido e mais seguro. Mas é ilegal, em rigor, no sentido Este-Centro, até que a Câmara decida colocar sinalização que autorize a circulação de bicicletas nesse sentido, juntamente com os transportes públicos. Trata-se de legitimar (e dar proteção legal em caso de acidente ou litígio) um uso que a sociedade bracarense há muito tempo já legitimou de facto, pois na prática é algo que já acontece e sem haver até à data qualquer registo de acidentes envolvendo velocípedes neste eixo.

Poderá ser que o que esteja “em estudo” seja a questão da enorme barreira artificial que representa atualmente, para peões, ciclistas e transportes públicos, o atravessamento da Av. Pe. Júlio Fragata. Esse local também merece uma intervenção, sem dúvida, mas cremos que não será motivo para adiar outras medidas bem mais simples e menos onerosas, que podem ser implementadas facilmente e com benefício imediato.

Até quando é que vamos ter de esperar por esta importante medida que já em 2012 apontávamos como urgente?

Rua Azul – combate ao estacionamento abusivo

Uma outra medida permanente que poderá ter passado mais ou menos despercebida, mas que é também importante para a melhoria da mobilidade é o programa Rua Azul, que consiste numa parceria com as forças da autoridade para fiscalizarem com “tolerância zero” o estacionamento ilegal e abusivo em determinadas ruas. A ser bem sucedida esta medida, acabariam nesses locais as filas de trânsito, os carros parados em cima do passeio, viaturas abandonadas em segunda fila, com os consequentes atrasos para os restantes automobilistas e, sobretudo, para os clientes dos transportes públicos.

Não dispondo de dados abrangentes sobre a forma como este programa está a ser aplicado, é-nos difícil fazer uma avaliação do mesmo. Quantos agentes da Polícia Municipal e da PSP foram destacados diariamente para o patrulhamento das ruas abrangidas pelo programa Rua Azul? Qual a duração desse programa – é mesmo uma medida permanente, ou tem prazo de validade?

Estacionamento ilegal na Rua D. Pedro V

Notamos, contudo, que pelo menos numa das ruas abrangidas por esta medida permanente (Rua D. Pedro V), as placas de sinalização de “Rua Azul” foram entretanto vandalizadas ou mandadas retirar. E também desapareceram dos respetivos postes as placas que proibiam o estacionamento durante o dia (mesmo sem placas, continua a ser proibido estacionar na maior parte da Rua D. Pedro V, à luz do art.º 50 do Código da Estrada). O que aconteceu? Foi um ato de vandalismo e a CMB ainda não mandou colocar novas placas? Ou será que os responsáveis da autarquia acabaram por ceder a pressões desses 50 ou 60 automobilistas que voluntariamente costumavam optar por estacionar ilegalmente prejudicando as restantes centenas ou milhares de utentes daquela via pública?

A concluir…

A Semana da Mobilidade já lá vai e, mesmo com os reparos que aqui fazemos, consideramos que foi uma iniciativa positiva. Para o ano, esperamos que haja mais e melhor, tanto a nível de eventos e medidas permanentes, como nível da organização e divulgação.

A este propósito, acreditamos que é necessário elaborar um plano abrangente da cidade de Braga para a mobilidade e as bicicletas. A intervenção pontual com medidas avulsas é sem dúvida importante, e deve continuar, mas é desejável que passem a fazer parte de um plano, em cuja concepção certamente terão um papel fundamental parcerias entre a CMB, os TUB, a Braga Ciclável e a sociedade em geral. Da nossa parte estaremos disponíveis, como sempre, para colaborar. Só assim poderemos garantir que todas estas medidas contribuirão para um objetivo maior de tornar a cidade um melhor local para viver.

Ecologia e Educação

Ecologia e Educação

A bicicleta não é uma moda. Como a alimentação saudável não é uma moda, a preocupação com o meio ambiente não é uma moda, a reciclagem de residuos não é uma moda, os electrodomésticos com classes ecológicas não são uma moda. A ecologia não é uma moda! A verdade é que já não vivemos na era industrial, o conhecimento científico já provou que alterações climatéricas drásticas estão e irão ocorrer com mais e mais frequência se não abrandarmos o ritmo de poluição e a população portuguesa já não é indiferente a esta questão. Mas as mentalidades não mudaram de um dia para o outro e se é óbvio que o protocolo de Quioto, o compromisso quase mundial de reduzir as emissões de carbono, as crescentes leis nacionais e internacionais para a redução dos níveis de poluição, os incentivos comunitários ao desenvolvimento de energias limpas e renováveis, o controlo e fiscalização das emissões das industrias para muito contribuiram para esta mudança de paradigma, também é evidente que há um factor que vale mais do que a fiscalização, as multas, as leis, as polícias que é o factor educação.

Quem não se lembra do anúncio das crianças a ensinar aos pais que reciclar era tão fácil que até um macaco o conseguia fazer? As novas gerações são muito mais abertas a mudanças de paradigma e abraçam-no com muito mais facilidade.

Quem está atento ao trânsito na cidade de Braga concerteza já reparou que os principais pontos de engarrafamento da cidade são as saídas das escolas nos horários de entrada e saída das crianças – um carro, um pai, à espera de uma criança, estacionado na beira da estrada às 8, às 13 e às 18, multiplicado por milhares de alunos de cada escola.

Perante o óbvio, as minhas perguntas são:

  • para quando estacionamentos de bicicletas à porta das escolas?
  • para quando políticas de educação, prevenção rodoviária e incentivos escolares que permitam que as novas gerações adoptem formas ecológicas, responsáveis e saudáveis de locomoção dentro da cidade de forma a cimentar um futuro mais sustentável?

(Artigo originalmente publicado na edição de 24/10/2015 do Diário do Minho)

A ditadura do carro

A ditadura do carro

Acordar na última, tomar o pequeno-almoço no elevador, entrar no carro, o saber que se não chega à rotunda dentro de 5 minutos não vai chegar ao trabalho a horas e o carro de trás já está a buzinar. A rádio diz que a rotunda do Relógio tem 30 minutos de filas e por aqui pensamos: ai, ainda bem que não vivo em Lisboa. Estas são as primeiras horas do dia da maioria dos portugueses. Como se estas primeiras horas não fossem horas a sério, como se não contassem, o correr como se o dia apenas começasse quando uma pessoa se senta a trabalhar, tudo até aí é preparativo. O ritmo corrido dos nossos dias, a glorificação da pressa, apenas o destino interessa, nunca o caminho. (mais…)