Uma casa para viver, uma bicicleta para ir trabalhar

Nas últimas semanas, têm-se multiplicado as manifestações pela habitação, de Braga ao Algarve, de Coimbra ao Funchal, com acampamentos de protesto no Porto e em Lisboa, de pessoas que sentem já não conseguir pagar uma casa para viver com a família. No Porto, a polícia desmontou um desses acampamentos de forma violenta, à bastonada – uma intervenção manifestamente desproporcionada face a um protesto pacífico. Essa resposta, e as reações de vários responsáveis políticos, marcadas por uma aparente arrogância e falta de empatia para com quem os elegeu, só vieram aumentar a revolta: a de quem se manifesta e a de quem, mesmo sem sair à rua, vive no dia a dia a mesma angústia de não encontrar casa que possa pagar.

No debate público, a habitação costuma resumir-se à renda ou à prestação. Mas todos sabemos que há outra parte da fatura, paga todos os dias no caminho para o trabalho, para a escola ou para o centro de saúde.

Ora, façamos as contas. Um casal com um ou dois filhos que procure casa para arrendar em Braga encontra rendas perto dos 900 euros. A União Europeia considera sobrecarregada uma família que gasta mais de 40% do rendimento líquido em habitação, contando com energia e água. Com esta renda, mesmo um casal com dois salários medianos ultrapassa esse limiar. E essa é só a primeira parte da fatura: se o carro for preciso para trabalhar, somam-se uns 300 euros por mês. Só a renda e o carro chegam a cerca de 1200 euros: perto de dois terços do rendimento de um casal com dois salários mínimos, e mais de metade do de um casal com dois salários medianos.

Durante décadas, sair do centro foi a forma de encontrar casa a um preço possível. Hoje, com as rendas sempre a subir e contratos que não são renovados, ou só o são com aumentos inesperados, mais famílias continuam a ser empurradas para fora da cidade, e até mesmo do concelho. O que se poupa na renda gasta-se em prestações do carro, em combustível – com o gasóleo e a gasolina bem mais caros do que no início do ano – e em horas de estrada.

O paradoxo é que Braga é uma cidade de distâncias curtas. Em hora de ponta, ir de carro de Gualtar ou de Ferreiros ao centro, três ou quatro quilómetros, pode levar mais de meia hora. De bicicleta, bastaria um quarto de hora. Só que as vias cicláveis são poucas, mal ligadas e pouco diretas, e tão estreitas que não deixam ultrapassar nem pedalar ao ritmo de quem tem horários a cumprir. E num território desordenado, evitar os perigos do trânsito e as suas velocidades excessivas obriga a desvios: seis quilómetros tornam-se facilmente sete ou oito, e mais de meia hora a pedalar. Ainda assim, há cada vez mais gente a fazê-lo no dia a dia.

E o carro não afeta só quem arrenda. Para quem compra casa, a mensalidade do automóvel pesa duas vezes: no que o banco aceita emprestar, que pode baixar dezenas de milhares de euros, e no esforço mensal para suportar as prestações. Sem esse peso, muitas famílias conseguiriam comprar casa na cidade, em vez de terem de ir viver para longe, onde ficam ainda mais dependentes do carro.

As decisões de mobilidade são, por isso, também decisões de habitação. Este ano, o Estado reservou para apoiar a compra de bicicletas menos de um terço do que destinou aos carros elétricos. Mas, em Braga, o que mais falta é por onde pedalar. Cabe ao Município, na cidade e em todo o concelho, construir uma rede ciclável contínua, direta e segura, que ligue as zonas habitacionais às escolas, à universidade e ao emprego. Essa rede não resolverá sozinha a crise da habitação, mas dará mais folga a quem já mal consegue pagar a casa.

Uma casa para viver e uma bicicleta para ir trabalhar não deviam ser um luxo. Em Braga, podiam ser a regra.

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