Transformar a cidade para promover a saúde mental

Transformar a cidade para promover a saúde mental


Há uns dias perguntaram-me como é que podemos melhorar a nossa saúde mental. É possível que se pense que o fazemos com mais psiquiatras e psicólogos, mas a verdade é que uma grande parte daquilo que nos faz sofrer e, consequentemente, adoecer do ponto de vista psiquiátrico está relacionada com as condições de vida e, inevitavelmente, com os espaços que frequentamos quotidianamente.

A forma como se organizam os espaços em que vivemos – habitações, locais de trabalho e, de uma forma mais abrangente, as cidades – tem um impacto profundo na nossa saúde mental. A pandemia tornou ainda mais evidente a importância das condições de habitabilidade e da organização das cidades para o risco de desenvolvimento de uma doença psiquiátrica, mas a evidência acumula-se há décadas.

A escassez de espaços verdes; a poluição atmosférica, sonora ou visual; o tempo consumido em filas de trânsito; as dificuldades na mobilidade pedonal, de bicicleta ou trotinete por desadequado planeamento urbano: a falta de limpeza das ruas e passeios; a excessiva proliferação de objetos no espaço urbano; a falta de segurança no atravessamento de peões; as velocidades excessivas na circulação automóvel dentro do perímetro urbano; e a insuficiente e ineficiente cobertura dos meios de transporte coletivo são problemas que comprovadamente contribuem para deteriorar a saúde das pessoas e que se correlacionam com o risco de virem a sofrer de uma doença psiquiátrica. São, infelizmente, problemas que todos reconhecemos nas nossas cidades e que, lamentavelmente, tardamos em resolver.

Por toda a Europa, têm sido implementadas mudanças com impacto muito positivo na saúde mental: nas zonas residenciais, algumas estradas foram transformadas em jardins; a circulação e as velocidades dos automóveis foram efetivamente limitadas no interior das cidades; foram criadas redes de ciclovias, algumas muito baratas pela simples divisão de corredores exclusivos; foram disponibilizados novos espaços verdes; e foi limitado o estacionamento no centro das cidades.

A mudança depende de todos. Precisamos de cidades que sejam espaços de saúde e conforto em vez de locais de poluição, desorganização, agressividade e doença. No início pode estranhar-se, mas a verdade é que não há vida mais saudável e feliz do que aquela se faz a pé ou de bicicleta em cidades de média dimensão como Braga.