Andar de bicicleta em Braga continua a ser um exercício de paciência, atenção e, muitas vezes, coragem. Não por causa do clima, do relevo ou das distâncias, todos no essencial favoráveis, mas por causa de uma infraestrutura construída em retalhos, de forma avulsa, sem a coerência que se exige a uma verdadeira rede ciclável.
A bicicleta é, para a maioria das deslocações urbanas, o meio de transporte mais eficiente: rápida em distâncias curtas, barata, silenciosa e não poluente. Cada deslocação de bicicleta em vez de automóvel é menos um veículo na via, menos pressão no estacionamento, melhor qualidade do ar. E devolve à cidade algo que cada vez mais lhe falta: espaço público. Porque onde estaciona um carro cabem facilmente umas oito ou dez bicicletas.
O que se fez nas últimas décadas e nos últimos anos é manifestamente insuficiente. Quem pedala no dia-a-dia sabe que cada percurso “ciclável” em Braga é uma sucessão de surpresas: lancis elevados de aresta afiada, capazes de transformar uma queda banal num acidente grave; vias estreitas demais para ultrapassar outro ciclista; detritos acumulados durante semanas no inverno; viaturas estacionadas em cima da faixa de rodagem da ciclovia, com a habitual ausência de fiscalização.

Na Avenida do Fojo, o que se apresenta como ciclovia é, na prática, uma berma sem largura adequada nem proteção suficiente face ao trânsito motorizado, que ali circula a velocidades incompatíveis com a segurança de quem pedala a poucos centímetros. Improvisos desta natureza não geram novos utentes; antes o remetem para o papel de cidadão de segunda.
E depois, há o problema mais estrutural: continuamos sem uma rede. Os troços existentes não se ligam entre si, nem ligam o que importa – zonas habitacionais densas, a Universidade, as unidades de saúde, escolas, polos empresariais, centro histórico, superfícies comerciais. Sem interligação não há efeito de rede, e pouco incentivo para que quem hesita comece a pedalar.
Outras cidades perceberam isto há muito. Sevilha construiu em poucos anos uma rede extensa e multiplicou várias vezes o número de utilizadores diários. Pontevedra transformou em duas décadas o seu centro num espaço pacificado, com reduções significativas no tráfego, na poluição e na sinistralidade. Odense, cidade dinamarquesa com população comparável à de Braga, dispõe hoje de mais de 540 km de ciclovias e tornou-se referência europeia em mobilidade ciclável. Nos Países Baixos, na Bélgica e na Alemanha investe-se hoje em ciclovias rápidas intermunicipais, com largura generosa, bom pavimento e poucas interrupções, que viabilizam a deslocação pendular entre concelhos.
Braga precisa, com urgência, de duas coisas. Primeiro, tratar a sério o que existe: corrigir defeitos de construção, assegurar manutenção atempada, fiscalizar o estacionamento abusivo e implementar medidas efetivas de acalmia de tráfego. Segundo, planear o que falta: uma rede contínua e de boa qualidade na cidade densa, onde reside a maior parte dos potenciais utentes, e, a prazo, uma rede intermunicipal à altura de uma cidade europeia do século XXI.
Pedalar não pode continuar a ser visto como um ato de rebeldia ou de heroísmo. Tem de ser uma escolha sensata, cómoda e segura, ao alcance de todos.

