Políticas urbanas, existência de vias cicláveis, medidas de acalmia do trânsito, estacionamento de bicicletas na cidade, incentivos, integração com outros meios de transporte, utilização da bicicleta em contexto escolar, clima, topografia e mentalidades, estes são alguns dos fatores que diversos estudos apontam como influenciadores da utilização da bicicleta nas cidades.

Já todos sabemos e, penso que percebemos, que se focarmos e trabalharmos sobre estes fatores, muitas pessoas estariam mais disponíveis para utilizar a bicicleta como meio de transporte. Contudo, a meu ver, fatores psicológicos e culturais, como a mentalidade e determinadas crenças associadas à utilização da bicicleta merecem ser refletidas e discutidas. Vemos diariamente automobilistas que não respeitam o espaço do utilizador da bicicleta mas também, muitos de nós, já presenciaram comportamentos menos próprios por parte de utilizadores da bicicleta que através de revindicações desajustadas levam muitas vezes à criação de um certo “ódio” por parte dos automobilistas, gerando um clima de disputa nocivo e muito perigoso. Por isso é que o papel da educação na construção de cidades melhores em termos de mobilidade é tão importante. Muitas vezes a magia não está apenas nas infraestruturas mas sim na educação das pessoas e no respeito que têm ao próximo. Compreendermos que as ruas são espaços de convivência e interação e não de disputa mudaria bastante a vivência de ciclistas e não-ciclistas na cidade.

Algumas dessas atitudes de desrespeito e incompreensão estão relacionadas com uma conceção negativa da bicicleta que funciona também como barreira para o uso da mesma. Este fator, muitas vezes, está associado a práticas e valores culturais, perspetivas e imagens do uso de bicicleta e estereótipos produzidos a respeito dos ciclistas que realçam o peso da cultura no envolvimento ou não com o transporte sustentável. Por exemplo, se para uma pessoa deslocar-se de bicicleta é sinónimo de pobreza ou de um determinado estilo de vida com a qual não se identifica ou até mesmo se considerar que é algo apenas para uma determinada idade estas crenças constituirão uma barreira muito maior do que as questões de segurança ou fatores urbanísticos. Deste modo, para que o impacto na mobilidade ciclável seja efetivo é importante estarmos cientes de eventuais perceções erradas para depois sermos capazes de promover mudanças importantes na sociedade. E isso pode começar dentro de cada um, a partir de atitudes e decisões pessoais que sirvam de exemplo para familiares, amigos ou colegas de trabalhos apresentando assim uma nova perspetiva.

Sara da Costa

Psicóloga.
Entusiasta do movimento necessário para apreciar cada sítio, cada árvore e cada estrada.
Sara da Costa

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