TINA na mobilidade

Uma das experiências mais tenebrosas que se pode ter em Braga é andar a pé ou de bicicleta nas principais avenidas da cidade. Com passeios estreitos e de difícil acesso e escassas, desconectas e perigosas ciclovias; a cidade está desenhada para que os bracarenses usem apenas e só o seu carro. Mesmo o transporte público, só compete pelo preço. O autocarro não tem vias dedicadas e por isso não chega a tempo e horas a lado nenhum. Em termos de mobilidade, estamos condenados à sigla TINA: There Is No Alternative (Não há alternativa).

Um exemplo prático: desde as piscinas da Rodovia até ao Braga Parque são cerca de 1,5km. A caminhar, 15 minutos. De bicicleta nem 5. Mas a maior parte faz de carro. Porquê? Porque entre túneis ultrapassados até para os padrões da antiga URSS, passeios em que mal cabe uma pessoa, atravessamentos aéreos dos jogos sem fronteiras e numa avenida ao estilo da recta da meta de um Grande Prémio, todo o percurso é desconfortável e perigoso para a bicicleta e para o peão.

Todos os dias. O mais pequeno percurso, a mais simples rotina que implique sairmos de casa exige pegar no carro. Uma cidade completamente entupida, sem espaço para os carros de quase 200 mil habitantes. Basta pensar que cada família tem hoje pelo menos 2 automóveis.

Rasgamos variantes e auto estradas pelo meio da cidade para no fim, ficarmos na mesma. Convidamos cada vez mais automóveis. O caminho que nos levou até aqui foi o mesmo que outras cidades trilharam no século passado e um bom exemplo desses erros é a ponte Triborough em Nova Iorque.

Essa ponte liga 3 distritos da cidade: Manhattan, Bronx e Queens. Foi inaugurada em Julho de 1936 e tinha como objectivo reduzir o tráfego entre 40 a 50% em todas as restantes avenidas e ruas da cidade. Em Agosto de 1936, um mês depois, a ponte estava completamente entupida de carros.

Surpreendidos com o aumento de tráfego, os responsáveis nova-iorquinos optaram por fazer uma outra ponte. Em 29 de Abril de 1939, a ponte Bronx-Whitestone é inaugurada ligando Bronx e Queens. Durante o ano de 1940, mais de 6 de milhões de veículos passaram nessa ponte, congestionando completamente as suas 4 vias. O trânsito na ponte Triborough foi reduzido 122 mil veículos para aumentar pouco tempo depois para mais do que tinha anteriormente. Nas restantes avenidas e pontes, as filas de carros permaneceram como antes.

Ajustado à inflação, 3 mil milhões de dólares foram gastos para ter mais 2 pontes e outros viadutos com enormes filas. O que é mais impressionante nesta história não são os números, é 80 anos depois, ainda se propor resolver os problemas de trânsito com novas variantes.

Seguramente o automóvel irá existir no futuro mais próximo, mas à medida que o tempo vai passando vamos precisando cada vez mais de alternativas de transporte. As pequenas viagens que são feitas e demoram minutos, podem perfeitamente ser substituídas pela bicicleta. Convidar outro tipo de transporte, dar alternativas aos bracarenses para que possam abandonar o carro. Hoje a bicicleta parece um meio de transporte para os mais aventureiros, mas bastante uma pequena rede ciclável para desonerar a cidade de imensos carros. Seguramente, os bracarenses estão tão dispostos a reduzir o uso e despesa com o seu carro como os nova-iorquinos de hoje. Mas primeiro, é preciso criar alternativas.

Rafael Remondes
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