A Ciclorrevolução

A Ciclorrevolução


Há dias a revista francesa L’Obs apresentava, na capa, Léonore Moncond’huy, líder dos Verdes, deslocando-se de bicicleta, vestindo roupa casual. O título da revista era “Vive la Vélorution!”. Segundo a revista, durante a pandemia, na França, deu-se um crescimento, tremendo, de utilização de bicicleta, como modo de transporte. As pessoas passaram a recear a falta de garantia de distanciamento físico e de higiene, dentro das carruagens de metro e dentro de autocarros.

Para além da vontade popular é de destacar que vários executivos municipais, incluindo o de Paris, também, contribuíram, e muito, para esta mudança na forma de vida e de estar. Com a criação de 50Km de pistas cicláveis, suplementares, fizeram Paris parecer Amesterdão, de um dia para o outro.

A ideia governativa é cativar a população, que apenas “usava a bicicleta em 3% das suas deslocações, para valores próximos dos 28% do Países Baixos e 18% dos Dinamarqueses”, criando ”pistes cyclabes sécurisées, bien séparées des voitures”.

Desde 1970 que os franceses foram estimulados a olhar para a bicicleta como um objeto de lazer ou de desporto, não como modo de deslocação diária, passando o automóvel a ocupar o lugar de destaque nas cidades. Em Portugal, foi igual.

Na mesma altura, em Amesterdão, perante o crescente número de atropelamentos a população revoltou-se e impôs restrições aos automóveis. Na altura ficou famoso o texto de um jornalista, cujo filho foi atropelado por um carro, que se intitulava “Halte aux meurtres d’enfants?”. Esta forma de descrever os atropelamentos, associada à pressão popular foram fundamentais, para impulsionar a restrição automóvel, porventura ainda o são.

Será esta a altura certa para que se dê em Portugal a nossa ciclorrevolução. É altura de deixarmos de ver o automóvel como símbolo de afirmação social. O automóvel deve deixar, rapidamente, de ser o centro das nossas cidades e deve passar a ser um modo de deslocação que excepcionalmente e justificadamente é usado.

As poucas cidades que já iniciaram esta revolução verde beneficiaram de uma maior qualidade de vida: as crianças ganharam espaço para brincar/exercitar; os idosos maior tranquilidade nas deslocações, sobretudo nos atravessamentos; e a sinistralidade caíu radicalmente.

Braga apresenta um atropelamento a cada 3 dias! Números inaceitáveis!
Pouco tem sido feito ao longo das últimas 2 décadas, pelo que os números se mantêm indecorosos.

Façamos como os Holandeses da década de 80, e os franceses atuais, e impulsionemos, para bem de todos, uma ciclorrevolução nacional!