Nos últimos tempos, as notícias de atropelamentos muitos deles envolvendo crianças, são alarmantes. Cada ocorrência tem circunstâncias próprias, mas há fatores que se repetem: excesso de velocidade dentro das localidades, desrespeito pelos utilizadores mais vulneráveis da via pública e infraestruturas que continuam longe de garantir condições adequadas de segurança.
Escrevo como enfermeira, utilizadora de bicicleta como modo de transporte e mãe de uma criança. São três perspetivas diferentes que me levam à mesma conclusão: precisamos de olhar para as nossas ruas com mais responsabilidade e empatia.
Os limites de velocidade existem para proteger vidas. Dentro das localidades, onde coexistem peões, crianças, idosos, ciclistas e automobilistas, cada quilómetro por hora conta. A pressa de alguns pode significar consequências irreversíveis para outros.

Mas a segurança não depende apenas do comportamento individual. Depende também da forma como organizamos o espaço público. Continuamos a ter passadeiras pouco seguras, percursos pedonais descontínuos e uma rede ciclável parca e que não oferece as condições necessárias para que mais pessoas optem por modos de transporte sustentáveis.
Em Braga, durante os preparativos para as festas de São João, assistimos à ocupação de troços da ciclovia por estruturas temporárias. Não está em causa a importância da celebração, que é parte da nossa identidade coletiva. O que importa questionar é a ausência de alternativas seguras para quem utiliza diariamente aquela infraestrutura.
Também durante o “São João da Pequenada” foi inspirador observar milhares de crianças a viverem a tradição, a ocuparem o centro histórico e a participarem ativamente numa festa que também lhes pertence, mas impossível não reparar na presença de veículos motorizados a circular em zonas onde se concentravam centenas de crianças. Talvez este seja um daqueles casos em que vale a pena parar para pensar no tipo de cidade que queremos construir. Se criamos eventos dedicados às crianças, não deveremos garantir que estas possam usufruir desses espaços com a máxima segurança possível? A presença de trânsito motorizado em momentos e áreas fortemente ocupadas por crianças não deve ser encarada como uma inevitabilidade, mas sim como um desafio organizativo que merece ser repensado.
Uma cidade que protege as crianças é uma cidade melhor para todos.
Enquanto profissional de saúde, sei que a prevenção é sempre mais eficaz do que a resposta ao problema. Nos serviços de saúde vemos frequentemente as consequências dos acidentes, mas raramente se fala o suficiente sobre aquilo que poderia ter sido feito para os evitar. A prevenção começa muito antes da ambulância chegar. Começa na educação, no respeito pelas regras, no planeamento urbano e nas decisões que tomamos diariamente ao volante, no guiador ou a pé.
Não se trata de apontar culpados nem de criar divisões entre automobilistas, ciclistas e peões. Trata-se, sim, de promover uma cultura de respeito mútuo, onde cada utilizador do espaço público reconhece a vulnerabilidade do outro.
As nossas ruas devem ser locais de encontro, convivência e segurança. Devem ser espaços onde as crianças possam crescer com autonomia, onde os idosos possam circular com confiança e onde a escolha de modos de transporte mais sustentáveis seja incentivada e protegida.
Os recentes acidentes devem servir-nos como um alerta. Não apenas para reforçar a fiscalização ou exigir mais infraestruturas, mas para refletirmos coletivamente sobre a responsabilidade que todos partilhamos. Porque uma cidade verdadeiramente moderna não é a que permite circular mais depressa. É a que garante que todos chegam ao destino em segurança.
E talvez seja precisamente por aí que devamos começar.

