A face desconhecida de quem pedala

Quando vemos alguém a andar de bicicleta temos sempre a tendência de pensar logo que vai ali alguém simplesmente a passear de bicicleta, alguém que não tem muito que fazer ou alguém que não tem alternativa que não andar de bicicleta para as suas deslocações. É o que a maioria de nós pensa, esta é a realidade, sejamos honestos.

É mais difícil e, diga-se, contra natura, pensar que vai ali alguém para o trabalho. Mas que trabalho será esse? Há muitos e não será assim tão difícil pensar o que surge logo na cabeça de cada um de nós. Estamos formatados para pensar assim mesmo, da forma mais provável, embora menos racional e realista. Os tempos mudam, é certo, mas as mentalidades demoram um bocado mais a mudar. O paradigma ainda é o mesmo e assim será enquanto insistirmos em rótulos, em preconceitos, em supostos estatutos que colocam o carro num pedestal e a bicicleta num canto escuro.

Há poucos meses lembrei-me de fazer este registo fotográfico, pois só assim se mostra que a realidade é mais do que aquela que vemos além da janela do automóvel. Um parque de estacionamento de uma escola, com dezenas de automóveis. Apenas uma bicicleta, a qual atraia sempre comentários positivos, embora meramente de ocasião e inconsequentes. O extra era talvez o que mais chamava a atenção, pois era prova que havia ali um duplo intuito, devidamente enquadrado não tanto na lógica na mobilidade sustentável, mas sim na mobilidade racional. Para um trajecto de apenas 2 km, a bicicleta era o modo de transporte mais racional e eficaz para levar duas vidas, uma ainda curta, que ficava na primeira metade do trajecto, para mais um dia de escola, e outra já meia vivida, que ficava no destino final do trajecto, outra escola, para mais um dia a dar aulas.

Teimamos em achar que ir de bicicleta para o trabalho, de vez em quando ou diariamente, é algo de estranho e contra natura, já que afinal o carro também nos leva ao destino, mesmo que com atrasos, mesmo que sem um sorriso no final da viagem, mesmo com gasolina a dois euros o litro. Surgem sempre expressões como aquelas do “se eu fosse mais novo/a” ou “um dia vou tentar”, mesmo sem concretizarem. Ou está a chover. Ou está calor.

Para sermos parte da solução temos de ser consequentes, fazer um esforço e de parar para pensar. Não, não é normal o caos no trânsito. Não é normal tanta poluição. Não é normal escolas terem as suas entradas rodeadas por carros, tantas vezes em cima dos passeios. Não é normal aceitar sermos reféns dos automóveis. É normal podermos escolher a bicicleta como meio de transporte. É normal chover e podermos usar a bicicleta, com o vestuário adequado e mesmo com crianças na bicicleta. É normal ter dificuldades em alguns trajectos, tal como é normal podermos comprar uma bicicleta eléctrica para ajudar onde mais nos custa pedalar, especialmente quando levamos os pequenos atrás. E é perfeitamente normal e comum chegarmos ao trabalho com um enorme sorriso na cara, prontos para mais um dia de trabalho produtivo.

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