Ecovia do Cávado e do Homem: uma década e meia de retórica sem obra

A Ecovia do Cávado e do Homem foi concebida para ser a espinha dorsal da mobilidade suave no Minho. Este projeto estratégico da CIM Cávado propõe um corredor de 75 quilómetros de elevada biodiversidade, unindo a foz atlântica, em Esposende, às portas do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Contudo, o que deveria ser um eixo vital para o lazer, o bem-estar e a descarbonização, tornou-se um exemplo de como a fragmentação política e a burocracia podem travar o progresso.

É fundamental compreender que este projeto se divide em dois eixos principais que se deveriam alimentar mutuamente. A Ecovia do Cávado é o eixo principal (55 km) e atravessa Esposende, Barcelos e Braga. A Ecovia do Homem é uma ramificação norte (20 km), que parte da confluência em Soutelo (Vila Verde) rumo a Amares e Terras de Bouro. Ora, a interdependência destas duas vias é total. Sem a conclusão da Ecovia do Cávado, o acesso sustentável à Ecovia do Homem fica amputado. Sem esta última, o projeto perde a sua ligação à montanha e ao coração do Gerês.

Ecovia cavado.

A paralisia da obra não é apenas um problema de mobilidade; é um atentado ao desenvolvimento económico da região. O cicloturismo e o turismo de natureza são dos segmentos que mais crescem na Europa, atraindo visitantes de elevado poder de compra que procuram experiências autênticas e sustentáveis. Com o projeto parado, a CIM Cávado está a abdicar de um produto turístico de excelência que permitiria atrair visitantes durante os 12 meses do ano.

O histórico desta obra é desolador. Em 2010, a CM Braga deu um passo que parecia pioneiro ao construir o troço em Merelim São Paio, ligando a praia fluvial à Central de Ruães. Parecia o despertar de uma revolução verde. Contudo, o arranque formal do projeto intermunicipal só aconteceu em 2016, com obras entre a Ponte de Fão e Fonte Boa.

Dez anos depois, a realidade é de uma estagnação assustadora, pois a execução é residual. No eixo do Cávado, o cenário em Braga é particularmente grave, com cerca de 90% do trajeto por construir. No eixo do Homem, os poucos quilómetros inaugurados em Terras de Bouro e Vila Verde são “ilhas isoladas”.

A falta de coordenação resultou num projeto fragmentado e que avança a uma “velocidade de caracol”, apesar de acesso facilitado a fundos comunitários destinados à descarbonização. Os troços das ecovias não se ligam e os percursos terminam abruptamente, retirando qualquer utilidade prática a quem pretenda usar a bicicleta como transporte ou laser. O maior ativo natural da região está a ser negligenciado por falta de visão de conjunto.

A valorização das margens dos nossos rios deveria ser uma prioridade absoluta, não um adereço em programas políticos. É absolutamente inaceitável que, quinze anos depois, a região ainda não disponha desta infraestrutura vital para a sua atratividade e sustentabilidade. Resta-nos a indignação perante uma oportunidade que continua, inexplicavelmente, na gaveta.

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