A mobilidade dos bits

A mobilidade dos bits


Desde que, no dia 18 de março, foi decretado o estado de emergência em Portugal, que todos nós passamos a viver de forma diferente. De repente, muitas tarefas que fazíamos de uma dada maneira passaram a ser feitas de outra. Em alguns casos, essa mudança foi muito brusca e obrigou-nos a uma grande capacidade de adaptação.

Um lado positivo desta crise provocada pelo corona vírus assenta na possibilidade de passarmos a viver segundo um novo paradigma. Coisas que dantes eram pouco adequadas, proibidas ou mesmo ilegais, passaram, num ápice, a ser normais, boas ou permitidas. Todos teremos certamente exemplos de situações em que isto nos aconteceu recentemente. Vou dar aqui dois exemplos de coisas que passei a fazer, enquanto professor universitário, e que não eram permitidas dantes.

Subitamente, passei a ter que dar as minhas aulas em casa, com os meus alunos também em casa. A universidade onde lecciono já tinha uma plataforma para ensino à distância, mas era muito pouco usada. Mas agora, eu e muitos dos meus colegas estamos a usar essas funcionalidades que estavam como que adormecidas. Não é obviamente a mesma coisa, mas a experiência tem mostrado várias vantagens.

No âmbito de júris para preenchimento de vagas de professor, dantes eu era obrigado a deslocar-me ao Porto, a Vila Real, a Lisboa, para reunir com outros colegas. A minha participação nessas reuniões só era possível se eu comparecesse fisicamente nas instalações da universidade que abriu as vagas. Há dias, reuni com outros colegas de diferentes universidades, no âmbito dum destes concursos, por vídeo-conferência, cada um de nós em sua casa. Correu tudo bem e não vi nenhuma desvantagem em se ter recorrido às tecnologias de comunicação.

Estes dois exemplos mostram que passamos a fazer muitas coisas de forma diferente. E não mudámos antes, por resistência à mudança, por inércia, por acharmos que o modo como procedíamos era o melhor. Esta crise, quando passar, deve ser aproveitada para aumentar a utilização de tecnologias de informação e comunicação de uma forma ainda mais alargada.

Não advogo aqui que passemos a fazer tudo em casa. Isso não é possível em muitos casos, nem desejável noutros. Se o fizermos em todas as áreas da atividade humana, deixaremos de precisar de nos deslocar tantas vezes. Em vez de nos deslocarmos, mover-se-ão os bits pelas estradas da informação. Para que isso suceda, é preciso dotar o país com essas estradas de bits e a população com os respetivos meios de acesso. E as instituições/empresas têm que implementar mecanismos de suporte informático às suas atividades.

Poderá estar aqui uma excelente oportunidade para todos nós termos menos necessidade de nos deslocarmos para realizar tarefas que podem ser feitas em qualquer lado. No âmbito da mobilidade, poderíamos, com esta mudança de paradigma, dar origem a cidades mais amigas do peão e do ciclista. Havendo menos deslocações, há em média mais espaço para quem circula e é mais seguro circular em modos suaves. Há já várias cidades (Barcelona, Madrid, Londres, Milão, Paris, Berlim, Bogotá) a implementar medidas que, a propósito das novas condições de convivência, estão a alargar as ruas e as ciclovias para facilitar o trânsito de peões e ciclistas.

Será que, em Braga, se vai também aproveitar esta nova realidade para democratizar o espaço público?

Os problemas de mobilidade em Braga

Os problemas de mobilidade em Braga


Nos últimos seis anos, em Braga, as questões associadas à mobilidade têm sido negligenciadas, ignoradas, adiadas. Penso que a maioria dos bracarenses concorda que o trânsito está mais caótico e que urge intervir na resolução dos problemas de mobilidade que se vão agravando.

A cidade continua muito car-oriented, apesar dos discursos apontarem noutras direções (multi-modalidade, modos suaves, transportes públicos). Diz-se uma coisa, mas no terreno nada se faz de acordo com essa narrativa.

Vejo problemas a duas escalas: micro e macro. Ao nível macro, é necessário intervenções nos seguintes temas: combate às velocidades elevadas, desvio do trânsito de atravessamento, ligação rua Nova Santa Cruz – rua D. Pedro V, nó de Infias, construção de ciclovias, aumento do número de faixas bus, melhoria do transporte público, implementação do transporte BRT.

Ao nível micro, é necessário intervir mais naquelas pequenas coisinhas que, somadas, impedem que exista em Braga uma melhor mobilidade. Refiro-me, por exemplo, ao estacionamento em paragens de autocarro, em cima dos passeios, nas zonas de carga/descarga, em 2.ª ou mesmo 3.ª fila, em rotundas, nas zonas ajardinadas, etc. A inação das forças policiais perante estes casos torna este um problema sem resolução e que impede a implementação efetiva de outras medidas. Para que servirá construir uma ciclovia se depois os automóveis a podem usar para estacionar? (como sucede na rua Nova de Santa Cruz); para que serve colocar pilaretes numa rotunda se depois os carros lá estacionam na mesma? (como sucede na rotunda junto ao colégio D. Diogo de Sousa).

Não se vê também o executivo camarário a aprender com os casos de sucesso ao nível micro. Vejamos dois exemplos: (1) foi implementada a circulação de bicicletas em contra-fluxo nas ruas D. Pedro V e São Vítor; (2) junto à escola André Soares, uma paragem de autocarro foi circundada por pilaretes, dificultando os carros de ocupar essa paragem para estacionamento. Se estas duas experiências parecem ter-se revelado positivas, por que razão não são replicadas? Aliás, esta abordagem de implementar coisas de forma ágil e iterativa e sem grandes investimentos, deveria ser experimentada noutros contextos. A ideia genérica consiste em experimentar uma dada alternativa com recurso a soluções provisórias (e de baixo custo). Se a mesma se revelar positiva, passa-se à solução definitiva. Se não, reverte-se a experiência e retoma-se a configuração inicial.

Devo dizer que não tenho qualquer esperança em ver alterações significativas nesta matéria. Se ao fim de quase seis anos, nada de relevante se fez, é muito provável que nos próximos dois/três anos nada se fará. O executivo de Ricardo Rio não revelou capacidade/competência para avançar com medidas que há muito fazem todo o sentido. Em alguns casos, anunciou obras que depois não saíram do papel (e.g., 80 km de ciclovias, atravessamento Nv. Sta. Cruz – D. Pedro V).

Verdadeiramente que foi feito de relevante em Braga neste período na mobilidade? Pouco, muito pouco, quase nada. A péssima intervenção na rua Nova de Santa Cruz, a obra mais impactante feita pela CMBraga na mobilidade, foi um acumulado de erros. A obra foi mal planeada, foi mal executada e está já muito degradada. Tanto assim é, que não houve sequer coragem para a inaugurar. Este exemplo talvez nos aponte a razão para a CMBraga não fazer nada (de significativo) no domínio da mobilidade. Se for para mudar para pior, talvez seja mais prudente não fazer nada!

Experimentar andar de bicicleta

Experimentar andar de bicicleta


Sou utilizador regular de bicicleta, para locomoção diária em Braga, há mais de 25 anos. Comecei a fazê-lo depois de ter estado a estudar/trabalhar durante 6 meses em Bristol (Inglaterra). A casa onde morava estava mal servida de transportes públicos e ficava longe do local de trabalho, pelo que não tive outra solução a não ser recorrer à bicicleta.

A experiência desta utilização, mais ou menos forçada, da bicicleta revelou-se muito gratificante. Percebi muito rapidamente as diversas vantagens que o seu uso encerra. (mais…)