Há dias que basta estar de bicicleta para notar que estou a mais. Simplesmente noto nos olhares, nas buzinas curtas, nas acelerações impacientes que a minha presença incomoda. Como se a própria ideia de estar ali, sobre duas rodas, num ritmo diferente, com o corpo ao ar livre, perturbasse algo no ambiente. Estar de bicicleta parece, muitas vezes e para algumas pessoas, uma intrusão.
Pedalar na estrada é, quase sempre sentir que se está a mais. Como se o espaço não tivesse sido feito para mim. Como se, por estar ali estivesse a desafiar uma ordem invisível que me quer noutro lugar. Essa sensação vai-se colando ao corpo. Primeiro em pequenos gestos: no travar constante, no olhar que vigia todos os ângulos, no encolher dos ombros quando um carro se aproxima demasiado. Depois torna-se uma tensão permanente. Uma espécie de estado de alerta que se aprende com a prática e que não deveria ser necessário para simplesmente ir de A a B.
O problema não é eu estar ali, na estrada. O problema está naquilo que nos rodeia. Está nas estradas que foram desenhadas exclusivamente para carros, sabemos bem que a nossa cidade convida ao carro. Nas ciclovias que começam do nada e acabam no nada. Nos passeios cortados por postes e carros mal estacionados. Está nas rotundas que obrigam o ciclista a negociar a própria vida com gestos rápidos, sinais improvisados e muita fé.
A cidade não diz que não posso andar de bicicleta. Mas também pouco faz para que eu possa. É uma exclusão silenciosa mas constante.
Por isso, quando alguém me diz “é preciso coragem para andar de bicicleta aqui”, eu percebo. No entanto, eu não quero ser corajosa, só queria poder pedalar sem medo. Não acordo de manhã à procura de adrenalina. Não me entusiasma medir a distância entre o meu guiador e o espelho retrovisor de um carro mal estacionado. Ando de bicicleta porque faz sentido, porque me faz bem. Porque é rápido. Porque é prático. Porque me deixa ver a cidade com outros olhos. Porque estou cansada de estar parada no trânsito, de depender de transportes que não chegam.
Respirar sem medo de não ouvir o som de um motor atrás de mim.
Porque o que devia ser banal ainda parece uma ousadia. Como se devêssemos aceitar o risco como parte do “pacote” de andar de bicicleta. Como se tivéssemos de agradecer quando alguém simplesmente cumpre o código da estrada e mantém 1,5 metros de distância.
Há sempre uma tensão no corpo, uma expectativa de que algo pode correr mal. Não por ser negativa, mas porque o mundo à volta parece desenhado para me testar a cada cruzamento.
Mas o que me faz pedalar não é coragem. É cansaço do trânsito, do tempo perdido, do barulho, da dependência. Mas também cansaço de viver numa cidade onde andar de bicicleta ainda é um desafio e não apenas uma escolha.
Não devíamos precisar de coragem para pedalar. Devíamos precisar apenas de vontade. E de ruas que não nos testem como prova de sobrevivência.

