A cidade em redor

A cidade em redor


Há já vários anos que vivo e trabalho no centro da cidade de Braga, onde a mobilidade por bicicleta não é fácil, mas também não é impossível. Embora não haja vias cicláveis e a grande maioria do condutores de automóveis não vejam o ciclista com bons olhos (há em todos os condutores de automovel portugueses uma pressa que eu nunca hei-de entender!), o facto de Braga ser relativamente plana e de a maioria das vias do centro histórico não permitirem uma velocidade excessiva, sempre me deixou reservar o meu automóvel para reais saídas da cidade.

Desde o início deste mês estou a trabalhar a uns míseros 4km do centro histórico e embora gostasse muito de me deslocar de bicicleta, tal não é possivel. Dizia a Comissão Europeia, já em 2000, que “quando as cidades combinam medidas a favor da bicicleta e dos transportes públicos atingem uma redução da taxa de utilização do transporte individual motorizado. Dependendo do nível de congestionamento do meio urbano, a bicicleta é mais rápida dos que o transporte individual motorizado em trajectos de, pelo menos, 5km”. A Avenida do Cávado, que ironicamente foi o ponto de partida para a 6a etapa da Volta a Portugal deste ano, é uma estrada estreita, sem bermas e onde a velocidade automobilística abunda, ignorando as casas, o comércio e os serviços que a ladeiam.

Na mesma zona onde eu trabalho agora, trabalham diariamente centenas de pessoas numa grande superficie comercial. É também a estrada que une os pequenos 7km entre Braga e as margens do magnífico rio Cávado.

Quem pensa a mobilidade das cidades têm de incluir os municipios limitrofes, as zonas residenciais, os suburbios, os pontos de interesse ao redor do centro e não apenas as praças históricas. Circundar a cidade de pistas de velocidade, vias rápidas ou autoestradas, sem criar alternativas para quem se quer deslocar sem poluir e evitando o stress e as pressas, é isolar as populações e continuar a promover a ditadura do carro

Foi bom ver a Avenida do Cávado cheia de bicicletas a semana passada para a Volta a Portugal, só tenho pena que nos restantes dias do ano se vejam tão poucas.


(Artigo originalmente publicado na edição de 19/08/2017 do Diário do Minho)

Ciclistas Urbanos em Braga #29 e #30


Ciclistas Urbanos em Braga

Francisco Fernandes (à esquerda), da freguesia de Real, já foi ciclista profissional e esta sua bicicleta chegou a correr consigo na Volta a Portugal. Atualmente, para além de ainda servir para a prática ocasional de desporto, contribuindo para melhorar a saúde e manter a forma física, é sobretudo o seu veículo principal para as deslocações na cidade de Braga. Tal como muitos outros ciclistas, refere a falta de estacionamentos adequados como uma das principais lacunas desta cidade.

Como já vimos observando noutras ocasiões, a Avenida Central funciona como um ponto de encontro para muitos bracarenses, sejam peões ou os ciclistas. A bicicleta tem aqui uma enorme vantagem face ao automóvel, dado que nos permite parar para conversar (com outros ciclistas ou com peões), sem que isso implique ficar a interromper o trânsito, sem ter de procurar um lugar para estacionar, sem receber buzinadelas e olhares reprovadores de automobilistas…

O sr. António Casais (à direita) vem de Santa Tecla e também usa diariamente a bicicleta para as suas deslocações na cidade. A ocasião serviu para trocar algumas impressões sobre estas duas bicicletas clássicas, ambas com mais de 30 anos, mas perfeitamente restauradas e cuidadas. Ora digam lá se elas não são uma beleza!