Quando a intolerância é tão perigosa como o carro

Quando a intolerância é tão perigosa como o carro


Há umas semanas atrás, através dos meios de comunicação social e das redes sociais, tivemos conhecimento de mais um desentendimento entre um automobilista e um ciclista. Não fossem os contornos perigosos que a situação alegadamente envolveu e seria mais um desacato como tantos outros que ocorrem diariamente, em que uma bicicleta e um carro têm de partilhar o mesmo espaço. Na referida situação, o ciclista teria chamado a atenção ao condutor do veículo, acerca do perigo que provocava ao estar a falar ao telemóvel enquanto conduzia e, após uma troca de palavras acesas, este teria tentado três vezes atropelar o ciclista, tendo destruído a sua bicicleta.

Uma situação destas tem tanto de caricata como de perigosa. Mas, é apenas mais um exemplo daquilo que se passa diariamente na nossa sociedade, em que impera o desrespeito pela circulação de velocípedes na estrada.

Repetem-se os desacatos no trânsito e os acidentes graves e menos graves entre veículos a motor e velocípedes, sem que nenhuma medida preventiva seja efetivamente aplicada. O Código da Estrada sofreu alterações permitindo aos ciclistas ocuparem o seu espaço na via pública, mas, esta concessão numa comunidade em que o predomínio do carro está tão enraizado, não produz os efeitos que se pretendem, nem nunca o fará sem que medidas de coação e infraestruturas adequadas sejam implementadas.

Bicicletas e carros podem (e têm de) circular na mesma estrada, mas, quantos veículos respeitam 1,5m de distância dos velocípedes? Quantos veículos reduzem a velocidade ao aproximarem-se dos velocípedes? Muito poucos. Diria até que apenas os que também são ciclistas o fazem (sim, porque a maioria dos ciclistas, também anda de carro), simplesmente porque não há uma aplicação visível de coimas que faça os condutores dos veículos a motor adotarem outro tipo de comportamento, nem uma lei eficaz que lhes atribua de forma imediata a responsabilidade pelo risco que o veículo e a sua potencial velocidade acarretam. Não basta a existência de uma responsabilidade civil que diz que a responsabilidade é do veículo quando na prática é a parte mais fraca que tem de o provar. Pegando no exemplo da situação inicial, com grande probabilidade terá sido o ciclista quem mais danos sofreu – físicos e materiais, ainda mais a bicicleta sendo o seu instrumento de trabalho – mas, a quem caberá fazer a prova destes danos? Ao próprio lesado. Não é difícil calcular quem mais danos sofre, quando está em causa uma colisão entre um veículo a motor e uma bicicleta, face às características de cada um destes veículos. É até ridículo que lhes queiram atribuir deveres semelhantes como o imposto de selo e o seguro. É, com certeza, o velocípede quem sofre mais danos, pelo que, deveria beneficiar de uma presunção legal de responsabilidade do veículo a motor, como tantas outras presunções que a lei confere. Apenas através da introdução na lei de uma presunção legal que atribua a responsabilidade imediata ao veículo a motor, será aberto o caminho a uma proteção efetiva dos utilizadores vulneráveis (peões e ciclistas). Até lá, e até que os dirigentes decidam definitivamente olhar para esta questão com a seriedade que ela merece implementando as estruturas há muito necessárias, os ciclistas terão de continuar a arriscar a sua vida diariamente para poderem utilizar um veículo cujos benefícios ultrapassam largamente a sua esfera pessoal.

Guerra civil nas estradas de Braga: uma análise dos acidentes entre 2010 e 2012

Guerra civil nas estradas de Braga: uma análise dos acidentes entre 2010 e 2012


Tenho tido algumas conversas sobre acidentes rodoviários e venho notando que, estranhamente, muitas pessoas acham que a bicicleta tem um poder destrutivo semelhante ao do carro e que, desse modo, representa um perigo comparável para os outros utentes da via pública. Tendo sido eu recentemente vítima de um acidente na qualidade de ciclista, poderia argumentar que sou a prova viva do contrário. Mas, como um exemplo vale apenas o que vale, a melhor maneira de verificar se esses dois meios de transporte (automóvel e bicicleta) são mesmo equivalentes, em termos da sua perigosidade, consiste em analisar o número de acidentes entre velocípedes, peões e automóveis.
Para conseguir estes números contactei a PSP e a ANSR-Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária em busca de dados relativos a acidentes entre velocípedes e peões, velocípedes e automóveis e automóveis e peões relativos aos últimos três anos (2010,2011,2012). A ANSR respondeu hoje com estes dados:

Existe 1 ferido ligeiro em 2010 e outro em 2012 no campo velocípede-peão. Questionamos a ANSR relativamente ao local onde estes acidentes tinham ocorridos, no sentido de obter alguma informação adicional que nos permitisse melhor compreender o contexto desses acidentes. A resposta foi que estes dois acidentes se inserem nas Ações do Peão e que assim, o acidente de 2010 não tem ação definida e o de 2011 tem como ação a saída/entrada num veículo.

Houve um aumento de mortos e feridos graves em 2012, mas não parece ter havido nesse período um aumento significativo do número de acidentes envolvendo ciclistas.

Totais relativos aos 3 anos

Conseguimos ver que o que se destaca mesmo é a quantidade brutal de acidentes em que um automóvel vitima um utilizador vulnerável (peão ou ciclista).

Portanto nos últimos 3 anos em Braga não morreu ninguém atropelado por uma bicicleta e apenas existiram 2 feridos ligeiros (e estes dois acidentes estão inseridos nas ações do peão).
Em acidentes nos quais esteve envolvido o automóvel morreram, infelizmente, 8 pessoas, 62 ficaram feridas com gravidade e 336 ficaram feridas de forma ligeira.
Afinal, ao contrário da bicicleta, o carro pode ser uma arma letal, implicando por isso a necessidade de um maior cuidado e uma maior responsabilização por parte do seu condutor. Conduzir uma bicicleta também implica um certo grau de responsabilidade e algumas medidas de segurança, como usar luzes e refletores e conduzir na via de forma previsível, mas a verdade é que este continua a ser um meio de transporte muito mais seguro e bem mais amigo dos peões.