Um outro tipo de contágio

Um outro tipo de contágio


Comecei a andar de bicicleta porque me deixei contagiar por alguém que acorda a pensar em bicicletas, desde os seus parafusos às suas rodas. Não consegui ficar indiferente a esse fascinante interesse. Gostei do sabor que essa vontade me deixou e não parei de pensar em arranjar uma coisa dessas para me deixar levar.

Foi então que senti os primeiros sintomas: adquirir uma bicicleta à minha medida e que permitisse chegar onde precisava sem perder o ar nos cabelos; querer arranjar uma maneira de levar tudo o que me fazia falta; olhar para todas as bicicletas que passassem por mim e começar a achar que tudo é demasiado longe para ir a pé e demasiado perto para precisar de outro transporte e, por fim, sentir e valorizar o sabor de uma outra liberdade.

Quem tem reparado e observado o movimento da cidade e das pessoas nota claramente que há mais gente a andar de bicicleta. Gosto de olhar para elas e pensar de onde vêm, para onde vão e como foram contagiadas por esta vontade. Com certeza ouviria muitas belas histórias, porque quem anda de bicicleta, geralmente, tem sempre uma história para contar. Se calhar ouvir essas histórias seria importante para perceber o que motiva as pessoas a andarem de bicicleta, em cidades como Braga, sem as mínimas condições para a utilização deste meio.

Que pessoas são estas que arriscam, mas que não desistem e seguem caminho nas suas bicicletas? Somos nós, são outros tantos e, na verdade, pode ser qualquer um.

O melhor incentivo e, provavelmente o mais eficaz, é contagiar com a nossa vontade em andar de bicicleta e revelar o quão simples e prático essa mudança pode ser. Assim, quanto mais pessoas utilizarem a bicicleta nas suas deslocações mais evidente e imperativo será a necessidade de agir em prol da segurança de todos nas estradas.
Trata-se de um contágio que só traz saúde.

Desde 1920 que existe uma rede de coexistência entre Bicicletas e Carros em Braga

Desde 1920 que existe uma rede de coexistência entre Bicicletas e Carros em Braga


Desde a chegada do automóvel às cidades que a bicicleta coexiste com este na rede viária. Em Braga, desde os anos 20 até hoje, existem cerca de 1200 quilómetros de rede viária de coexistência entre bicicleta e o automóvel.

Estes 100 anos de investimento numa rede de ruas em coexistência já nos fez perceber que não basta ter ruas onde o espaço é partilhado. Dizer que se vai apostar numa rede de coexistência entre bicicletas e automóveis é irrelevante, porque ela já existe. O resultado dessa política para a adoção do uso da bicicleta está à vista: 0,5%.

Há ruas onde tem que haver segregação. A espinha dorsal do sistema, o esqueleto, o pilar que fará toda a rede funcionar, as “aortas” da rede ciclável, tem que ser uma infraestrutura segregada, que permita uma circulação em segurança, sem sobressaltos, o mais direta e rápida possível.

Podemos reduzir o complexo exercício de planeamento e desenho da rede ciclável a uma simples pergunta, quando temos o desenho da rua pronto: “uma criança de bicicleta circularia e chegaria em segurança, de uma forma rápida, confortável e direta, até ao seu destino nesta rua?” Se a resposta for sim, então a rede estará desenhada para todos poderem usufruir dela. Mas falta coragem para resgatar o espaço público e devolver parte dele às pessoas, garantindo a segurança das mesmas.

E lá porque hoje temos uma avenida com 6 vias de trânsito, com algumas filas em hora de ponta, isso não significa que essa avenida não possa ser reprogramada para outros usos que transformem a sensação que temos a andar na rua e a sua função em algo mais humano. Falta o sentimento de vizinhança, de convívio e de fruição da rua, nas principais avenidas de Braga.

Não, ninguém quer banir os carros. É necessário reorganizar e distribuir melhor o espaço público que, neste momento, é praticamente todo dedicado ao carro. E essa redistribuição reduzirá o espaço ao carro, espaço esse que deixa de ser necessário, porque algumas pessoas vão passar a utilizar a bicicleta nas suas deslocações. E como assim é, então já não é preciso tantas vias, nem é preciso tanto estacionamento.

Folgo em ouvir, por parte do Município, que a promoção da segurança rodoviária é a prioridade das prioridades, mas, quando olhamos para os números, vemos que continua a morrer gente (muita gente) todos os anos e a tendência não está a diminuir. Se essa é a prioridade das prioridades, então é tempo do Município adotar uma #VisãoZero e implementar verdadeiras medidas de redução das velocidades e dos volumes de tráfego na cidade. Medidas que funcionem por uma #BragaZeroAtropelamentos! Precisamos de mais semáforos, mais cruzamentos de nível, mais ciclovias, mais passadeiras. Nada fazer é irresponsável.

Hoje posso dizer com toda a certeza que há 14% dos bracarenses que nunca vão utilizar a bicicleta como modo de transporte. Mas, se existissem condições infraestruturais e segregação das vias, 29% utilizariam de certeza absoluta e 31% com muita certeza que utilizariam a bicicleta. Os restantes 26% são indecisos (em breve falarei mais sobre estes números).

Para podermos ter uma Braga amiga das pessoas, inclusive das que andam e querem andar a pé e de bicicleta, é fundamental que se crie a rede ciclável estruturante. Só assim a cidade terá mais pessoas a utilizar a bicicleta no seu dia-a-dia. Só assim a cidade evolui para uma cidade sustentável!

Pedalar mentalidades

Pedalar mentalidades


Escrever estas linhas é duplamente gratificante, primeiro porque partilho a minha experiência e segundo porque a minha escrita acaba por produzir reacções, umas positivas outras nem por isso. Interpretar estas mesmas reacções é fundamental para trazer à tona aquilo que é realmente mais importante e que deve ser trabalhado por aqueles que, como eu, fazem da bicicleta um dos seus meios de transporte e pugnam por uma mobilidade racional, longe da carrocefalia crónica da qual o país e Braga padecem. A mobilidade é plural, ao contrário do que nos impingem há demasiados anos. (mais…)

Braga Ciclável reuniu com PSD

Braga Ciclável reuniu com PSD


Na sequência do recente lançamento do Movimento Cívico #BragaZeroAtropelamentos e das diversas reuniões que vem realizando nesse âmbito, a associação Braga Ciclável reuniu esta segunda-feira, dia 15 de julho, com a concelhia de Braga do Partido Social Democrata (PSD). O encontro serviu para apresentar o movimento #BragaZeroAtropelamentos e também para discutir diversos assuntos relacionados com a mobilidade pedonal e em bicicleta.

Na reunião estiveram presentes Hugo Soares, João Granja e Joaquim Barbosa, do PSD, e Arnaldo Pires, Mário Meireles, Victor Domingos, Manuela Sá Fernandes e Rafael Remondes, da associação Braga Ciclável. O presidente da Braga Ciclável, Mário Meireles, começou por traçar uma retrospetiva acerca da história, dos objetivos e do trabalho desenvolvido pela associação, referindo alguns dos seus projetos, iniciativas e reivindicações mais marcantes. Deu ainda nota do longo historial de estreita colaboração com o Município de Braga, tanto com o executivo PS como com o executivo da Coligação Juntos Por Braga.

Por sua vez, Arnaldo Pires explanou as razões que motivaram a constituição do Movimento Cívico #BragaZeroAtropelamentos, com um grupo multidiciplinar a dar suporte ao movimento que tem como ponto comum a falta de segurança ao circular a pé ou de bicicleta em Braga. Isso é comprovado com o elevado número de atropelamentos no concelho que, ao longo dos últimos anos, têm causado a morte a dezenas de pessoas, entre outros danos. Destacou, por isso, a necessidade de “focar a mobilidade nas pessoas, tornando-a mais humana e menos máquina, levando assim a uma melhoria da qualidade de vida para os Bracarenses que hoje se deparam com 1 atropelamento a cada 3 dias”.

O movimento #BragaZeroAtropelamentos tem como base a iniciativa sueca Visão Zero, que se iniciou na década de 90 do século passado, e que fez com que todo um país conseguisse em poucos anos implementar medidas concretas que levaram a uma redução drástica no número e gravidade dos atropelamentos.

Arnaldo Pires deu ainda o exemplo de outras cidades, como Bogotá ou Pontevedra e explicou que o objetivo deste movimento criado pela Braga Ciclável é levar o Município a implementar medidas que reduzam efetivamente as velocidades de circulação em meio urbano e a criar infraestruturas, incluindo vias segregadas, por forma a permitir que as deslocações a pé ou de bicicleta sejam feitas em segurança, intervindo para tal em eixos estruturantes, mas, também, junto das escolas. Sugeriu ainda que sempre que esteja prevista uma intervenção numa determinada rua da cidade, seja ela de que jurisdição for, o projeto contemple medidas que melhorem as condições para quem pretende deslocar-se a pé ou de bicicleta. Por fim deixou algumas medidas concretas a título de sugestão, como sendo fechar ao trânsito motorizado certas zonas junto das escolas, impedir fisicamente os estacionamentos junto a cruzamentos ou passadeiras, retirar contentores do lixo junto às passadeiras, segregar todos os intervenientes das ruas e intervir nos pontos críticos onde são registados atropelamentos de forma recorrente: Avenida Imaculada Conceição, Avenida João XXI, Rua Cidade do Porto, N101 – Nogueiró, e outros que estão a ser mapeados pelo movimento #BragaZeroAtropelamentos, em conjunto com as forças de segurança da cidade.

Por sua vez, o presidente da Braga Ciclável, Mário Meireles, sugeriu ainda que se reduza o número de vias de circulação na Avenida 31 de Janeiro. “Uma avenida que em 40% da sua extensão já só tem duas vias e funciona, levando inclusive a velocidades mais reduzidas”, lembrou. Recomendou também a alteração da Avenida da Liberdade, que “hoje em dia tem duas das suas cinco vias de trânsito com estacionamento em segunda fila, ou seja, a avenida funciona com 3 vias de trânsito automóvel”, e da Avenida Imaculada Conceição, que desde os “Pelames” até à Avenida da Liberdade apenas tem duas vias de circulação automóvel e também funciona. “Ao reduzir as vias vai-se conseguir reduzir o volume de automóveis e, também, uma redução da velocidade”, refere.

Avenida Imaculada Conceição – desde os “Pelames” até à Avenida da Liberdade apenas tem duas vias de circulação automóvel e funciona.

Mário Meireles reitera que as pessoas em Braga só vão passar a utilizar modos ativos se o puderem fazer em segurança, deixando ainda números sobre a realidade de cidades centradas no automóvel: no máximo, apenas 3% da população pedala em cidades sem infraestrutura segura. Assim, defende que se avance com medidas pontuais e mais rápidas de implementar, com menos custos, e que se vá avaliando o impacto das mesmas. Deixou ainda a nota para que ao se construirem as ciclovias se evite a todo o custo os erros técnicos que cidades como Guimarães e Vila Verde cometeram. “Pintar passeios de vermelho, ou com uns pictogramas, não é construir uma rede ciclável, é potenciar conflitos entre pessoas que andam a pé e de bicicleta, provocando um efeito contrário aos que se pretende, despromovendo assim a utilização destes dois modos”, alerta o presidente da Braga Ciclável.

Hugo Soares afirmou que entendia as reivindicações da Braga Ciclável, agradecendo a apresentação das propostas. Relembrou que quem decide precisa de ter uma visão mais holística que vai mais além do que as bicicletas, sendo que cabe aos eleitos tomar essas decisões, podendo estes ouvir a sociedade civil, e salientou que “esta é também uma imagem de marca deste executivo: envolver as pessoas”. Deu nota que a concelhia do PSD tentaria sensibilizar para a problemática, acreditando que o Plano de Mobilidade que o Município contratou irá solucionar as questões.

João Granja deu nota que foi aprovada por unanimidade, em sede de Assembleia de Freguesia de São Victor, uma proposta levada pela CDU, relativamente à sinistralidade rodoviária e aos atropelamentos, demonstrando assim algo que a Braga Ciclável tem vindo a defender, ou seja, que a mobilidade ativa e a segurança rodoviária é um tema transversal e que pode, e deve, gerar consensos entre todas as forças partidárias e associativas da cidade. Ao mesmo tempo, questionou qual a opinião da Braga Ciclável sobre o projeto da Requalificação da Variante da Encosta. A associação mostrou-se agradada com a requalificação, mas apreensiva com o tipo de implementação previsto para a sua expansão até à Universidade do Minho. João Granja relembrou ainda que a cidade é muito conservadora, dizendo que tem consciência que “ainda somos uma cidade que valoriza muito o automóvel, a individualidade e que ainda há algum status associado à posse do mesmo”. No entanto defendeu que é necessário dar passos sólidos, criar espaços para circulação, haver uma consciencialização das pessoas, campanhas e trabalho integrado para o uso dos modos ativos, numa lógica de progressão em várias frentes.

Rafael Remondes deu conta que a falta de rede é um problema gritante na cidade de Braga e que a requalificação e expansão não vão resolver este problema. Deu como exemplo a falta de ligação entre a Rua D.Pedro V e Rua Nova de Santa Cruz, cada vez mais utilizadas por estudantes universitários que recorrem à bicicleta para se deslocarem nesta rua, bem como a falta de ligação desde o Rio Este até à zona pedonal, frisando que hoje é nesta zona que as pessoas mais se sentem seguras a andar de bicicleta.

Joaquim Barbosa questionou a viabilidade da utilização da bicicleta na cidade de Braga devido à sua orografia e níveis de pluviosidade. Mário Meireles respondeu que em Braga existem 195 dias sem chuva, ao passo que em Utrecht apenas não chove em 130 dias e há gelo em 64 dias. Na vizinha Espanha, em San Sebastian, uma cidade que se assemelha a Braga, há 176 dias sem chuva, há mais pluviosidade total do que em Braga, e há ainda assim mais gente a pedalar do que em Braga. Quanto à orografia, frisou que em Braga 55% da população vive numa zona densa e plana, mais densa do que Amesterdão, e que 73% dessa população faz deslocações dentro da cidade. Deu ainda nota que não se pretendem extremismos ao ponto de ter toda a gente a andar de bicicleta, mas sim que possa haver a hipótese de escolher o modo mais adequando à deslocação, sem que seja necessário correr risco de vida.

Para rematar, Manuela Sá Fernandes disse que espera não ter que aguardar mais 6 anos para ver, efetivamente, alguma mudança. Os representantes do PSD garantiram que não seria o caso.

As reuniões levadas a cabo pela Braga Ciclável foram no sentido de unir esforços para acabar com os atropelamentos. A Visão Zero (isto é, o fim dos atropelamentos) é um objetivo que algumas cidades europeias já abraçaram, e a Braga Ciclável defende que Braga deve seguir esse exemplo e ambicionar uma cidade sem atropelamentos, porque todas as vidas contam.

Como estão as luzes da sua bicicleta?

Como estão as luzes da sua bicicleta?


Com a chegada do Outono e a recente mudança para a hora de Inverno, deparamo-nos novamente com os dias mais curtos e a noite a chegar cada vez mais cedo. O que nos leva a reiterar o nosso conselho já habitual: por favor, usem sempre luzes e refletores nas vossas bicicletas, para vossa segurança e para segurança de todos!

A lei obriga a usar luzes à noite e em condições de pouca visibilidade, mas nestas coisas não é por obrigação legal que precisamos de agir – é mesmo para salvar a nossa pele. Andar de bicicleta sem luzes à noite ou de madrugada é um comportamento de risco, cujas consequências podem ser gravíssimas. As luzes da bicicleta, mesmo que não sirvam para iluminar o caminho, servem para sermos vistos no trânsito pelos outros condutores e, deste modo, prevenir acidentes.
E vale a pena lembrar que, mesmo que não tencione circular de noite, poderá surgir um imprevisto que obrigue a viajar a uma hora mais tardia ou com céu encoberto. As luzes e os refletores, juntamente com uma condução sempre atenta e defensiva, serão as suas melhores medidas de segurança.

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Nova campanha contra atropelamentos parece esquecer aqueles que efetivamente atropelam

Nova campanha contra atropelamentos parece esquecer aqueles que efetivamente atropelam


Foi esta semana lançada em Braga, com certa pompa, uma nova campanha de sensibilização contra os atropelamentos. A iniciativa insere-se na abertura oficial da Capital Jovem da Segurança Rodoviária e contou com a presença do ministro da Administração, Miguel Macedo, um certo senhor do ACP, etc. Mas será que o alvo da campanha foi bem escolhido?…

A face mais visível da campanha, ou pelo menos aquela que foi hoje noticiada nos jornais, é a pintura de um alerta junto às passadeiras:

Campanha contra atropelamentos - pintura em passadeira à porta de escola em Braga

“266 feridos em Braga por mês”, recorda o letreiro, acrescentando ainda o slogan “Atenção, todos somos peões!”.

Assim de repente, uma coisa que me faz uma certa “espécie”, são os locais onde os avisos foram pintados: à entrada de passadeiras – local onde os peões devem passar sempre que possível e onde têm prioridade face a veículos. Ora, não faria tanto ou mais sentido dirigir essa mensagem a quem se desloca num veículo que tem efetivamente o poder de atropelar pessoas?…

Em vez de dizer aos peões, por outras palavras, qualquer coisa como “vocês parecem um bando de maluquinhos com tendências suicidas, vejam lá se vestem uma armadura com capacete e se desviam dos carros quando forem a atravessar nestas passadeiras!”, não faria mais sentido apelar ao bom senso dos condutores e tornar mais visíveis as passadeiras em questão, com lombas, sinalização horizontal e vertical, luzes, etc.? Porque não lembrar os condutores que os seus veículos – quaisquer que eles sejam – são na verdade uma arma em potência e que por isso mesmo é sua responsabilidade usá-los de forma cautelosa, moderando velocidades, mantendo distâncias de segurança e parando para deixar passar peões e/ou ciclistas, conforme cada caso, e nos termos em que a isso obriga o Código da Estrada?

Parece que continuamos a praticar Prevenção Rodoviária pela velha escola, a da triste remediação, a do “desviem-se todos para deixar passar os carros, se não querem ser atropelados”. A filosofia (e a prática daí decorrente) deveria ser outra, deveria ser de cariz efetivamente preventivo: moderação de velocidade, distâncias de segurança, condução atenta minimizando fatores de distração (telemóveis, anúncios publicitários excessivos, etc.), respeito pelas passadeiras e locais de atravessamento de ciclistas, respeito pelas regras de prioridade, condução sem álcool ou outras drogas no sangue, etc.

Só que essas mensagens, não adianta serem escritas nos locais onde se encontram as vítimas dos atropelamentos. Elas precisam de chegar a quem atropela, a quem corre o risco ou tem o poder de atropelar. Só assim se contribuirá para evitar que continuem a acontecer em Braga acidentes como um que eu presenciei há algum tempo, em que um automóvel com condutor distraído atropelou 3 pessoas de uma vez só, quando iam a passar numa passadeira. Ou como aquele que há uns meses feriu com alguma gravidade o Mário Meireles quando regressava a casa de bicicleta, devidamente posicionado na via e com a bicicleta devidamente iluminada. Ou como um outro acidente absurdo (os atropelametos são sempre absurdos, não são?) que no ano passado matou em Sta. Lucrécia de Algeriz o Sr. António Vieira quando se deslocava em bicicleta para os lados da Póvoa de Lanhoso cumprindo as regras de trânsito…

Não faltam exemplos tristes que nem gostamos de recordar. Há comportamentos de risco de parte a parte, mas o maior perigo, pelas leis da física, está no objeto mais pesado e que se desloque a uma maior velocidade. Logo, é aí que é preciso incidir em primeiro lugar. De outro modo, estaremos a ver o mundo ao contrário.

P.S. – A título de sugestão, deixamos aqui alguns slogans alternativos, usados numa manifestação recente, e que porventura resultarão em lemas talvez mais apropriados para futuras campanhas de Prevenção Rodoviária.

Basta de atropelamentos - Braga

Acalmar o tráfego é proteger as pessoas

Queremos cidades para as pessoas

Via Pedonal Ciclável do Rio Este – Visita com o executivo da CMB

Via Pedonal Ciclável do Rio Este – Visita com o executivo da CMB


O Braga Ciclável aceitou o convite da Vereadora da Juventude e do Desporto para se juntar à visita do novo executivo camarário à via pedonal ciclável do Rio Este efetuada na passada Terça-Feira durante a tarde.

Na visita estiveram presentes o Presidente da Câmara de Braga, Dr. Ricardo Rio, os Vereadores Dr. Firmino Marques, Eng. Altino Bessa e a Drª. Sameiro Araújo. Para além do Braga Ciclável, foram convidados e participaram os presidentes da Associação de Cicloturismo do Minho, Amadeu Alves, e do Clube de Cicloturismo de Braga, José Alves.

In loco demos o nosso parecer sobre algumas questões técnicas que podem ser melhoradas nesta via.

O acesso pela zona Este faz-se de uma forma abrupta e algo deselegante. Para além dos acessos e terra batida, criados há muito pelas passadas e pedaladas das pessoas, temos um cano de esgoto que torna a entrada no “túnel” por baixo da Av. Padre Júlio Fragata ainda mais baixa (2,00m).Um ciclista que tenha 1,90m (poderá ser por exemplo um cicloturista do centro da Europa, ou algum bracarense mais alto) em cima de uma bicicleta vai ganhar uma cabeça rachada ao passar aqui.

Começamos por explanar as medidas mínimas para este tipo de vias recorrendo à brochura de técnicas / temáticas com o título “Rede Ciclável – Princípios de Planeamento e Desenho” do IMTT.

Para uma pista ciclável partilhada com peões – mista, a largura mínima da via deve ser de 2,5m (mínimo) ou 3 m(aconselhado) – É o que atualmente existe.

Para o caso de uma pista ciclável partilhada com peões – separada a largura mínima deverá ser de 3,7m (pista ciclável bidirecional com 2,20m + 1,5m de passeio.)

A nosso ver o ideal seria termos uma pista ciclável partilhada com peões – separada para evitar os conflitos entre peões e velocípedes e possíveis acidentes. No entanto podemos ver que em alguns sítios esta via tem 2,88 metros de largura e noutros sítios 1,5 metros de largura.

A necessidade de sinalização horizontal e vertical ao longo da via é, a nosso ver, fundamental. Com a sinalização horizontal passamos a ter uma pista ciclável partilhada com peões – separada. Como vimos anteriormente é então imperativo que a mesma possua 3,7m nas zonas partilhadas. Nas zonas onde a via é mais estreita sugerimos que aí sejam criadas vias exclusivas separadas, uma para bicicletas e outra para peões, para evitar situações como estas:

Por exemplo na Rua Bernardo Sequeira a via partilhada passa de forma desnivelada, perto do rio, e existe uma passagem exclusiva para peões ao nível da Rua. Faria então todo o sentido que a passagem desnivelada se tornasse exclusiva para ciclistas.

No entanto esta via desnivelada já ficou submersa na semana passada e as chuvas ainda agora começaram.

Um outro problema encontrado ao longo de toda a via é a colocação dos bancos junto da via, acabando por tirar algum espaço à mesma quando as pessoas se encontram sentadas nos mesmos. Esta questão resolver-se-ia com a colocação dos bancos afastada 0,50m da via, por exemplo.

Antes de chegarmos à Rua Bernardo Sequeira existe um problema, a ponte que leva a via pedonal ciclável para a outra margem está colocada de modo a fazer um ângulo de 90º com a via. Estes ângulos aumentam o conflito entre peões e ciclistas numa pista ciclável partilhada com peões – mista, que, por ter esta designação, já possui muitos conflitos.

Na zona de Santa Tecla temos um mau aproveitamento do espaço existente junto do ringue desportivo de santa tecla, com a existência da via pedoanal ciclável paralela a um passeio de 1m de largura separado por 0,80m de terra. Este é um dos troços que revela problemas de iluminação. Temos também uma ponte mal colocada que cria mais um ângulo de 90º problemático.

No sítio onde a via pedonal ciclável encontra o passeio da Rua Professor Machado Vilela encontramos duas situações, uma é a manutenção do passeio. Ora se esta é uma via pedonal ciclável porque não aproveitaram e alargaram esta via integrando o passeio nela? O passeio ficava com o mesmo (bom) piso da via pedonal ciclável e a largura seria mais que suficiente para tornar a mesma separada, em detrimento de mista. A segunda situação é o cruzamento com um passeio que vem da ponte. Este cruzamento devia ser bem assinalado e bem iluminado. Não é o que acontece. No caso de um ciclista vir na via pedonal ciclável não encontra nenhuma indicação de que ali existe um passeio a cruzar a mesma.

Quando a via pedonal ciclável encontra a 31 de Janeiro tem uma solução que, segundo o Engenheiro da obra presente na visita, foi desenhada e decidida pela divisão de trânsito do anterior executivo da Câmara Municipal de Braga.

Uma solução muito pouco elegante quando o projeto inicial contemplava a única solução possível e imaginária para esta zona, vejamos:



A vermelho encontra-se o atual percurso da via pedonal ciclável, pintado a amarelo no passeio e passadeira da Av. 31 de Janeiro.

A travessia da Av. 31 de Janeiro deve ser revista pois um velocípede e um peão pretendem o caminho mais curto, mais rápido e mais agradável e nunca o caminho mais longo e sinuoso. Posto isto achamos que deve ser criada uma passagem direta com marcação de passadeira e de passagem para bicicletas, tal como o projeto inicial previa. Algo como se fez aqui tão perto, no Porto:

Após a 31 de Janeiro encontramos os Galos. Ficamos a saber que a obra ainda contempla um piso betuminoso para esta zona que melhorará consideravelmente a deslocação na mesma.

Para além do piso existe ainda a questão do sinal de proibido que impede a circulação entre a zona dos galos e a Av. 31 de Janeiro. É necessário colocar ali a exceção para velocípedes e no sentido contrário colocar um sinal a avisar sobre a possibilidade de circulação de velocípedes e/ou peões no sentido contrário.

Passada a zona dos galos entramos novamente na designada via pedonal ciclável. Esta entrada é feita com dois ângulos de 90º e numa entrada bastante estreita.

Logo a seguir encontramos mais uma ponte a fazer dois ângulos de 90º com a via, aumentando assim os pontos de conflito entre peões e ciclistas.

Passando a Rua dos Barbosas – onde durante a noite verificamos mais um problema de iluminação – encontramos a passagem inferior à ponte de São João. Esta ponte pode ser considerado como o ponto mais negro da via pedonal ciclável pois a entrada e saída da mesma é feita numa curva fechada e sem visibilidade o que faz com que não se percecione se vem alguém a entrar ou dentro da ponte. Este problema poderia ser resolvido com a marcação da via, tornando-a separada.

Passada a ponte chegamos à melhor parte da via pedonal ciclável. Larga e com espaço para alargar mais se necessário. Até à Rua do Couteiro -traseiras do Parque de Exposições de Braga (PEB)- a via pedonal ciclável é bastante agradável.

Chegados à Rua do Couteiro temos… uma passadeira. Um ciclista tem que desmontar para passar a estrada e continuar a pedalar (poucos o fazem). Isto seria resolvido com mais uma passagem para ciclistas, tal como a imagem anterior do exemplo do Porto.

De um dos lados a passadeira é resguardada por uma lomba, do outro lado não temos qualquer tipo de medida de acalmia de tráfego.

Ao passarmos a passadeira (que possui um bueiro perigoso para algum tipo de ciclistas) encontramos uma via pedonal ciclável com pouco mais de 2m. Mais uma vez poderia ser encontrada uma solução criando uma zona apenas para ciclistas e outra apenas para peões.

Chegando ao cruzamento que dá acesso ao armazém da FOC deparamo-nos com mais uma passadeira, onde o ciclista deverá desmontar. A solução já foi aqui apresentada.

Outra particularidade desta zona é que entre o antigo moinho aqui presente e o Jardim de Infância e Escola do 1º Ciclo da Ponte Pedrinha temos a via pedonal ciclável com cerca de 2m, com o Rio Este de um dos seus lados, e do outro lado temos uma zona de 0,80m relvada e um passeio mais ou menos com a mesma largura… Não faria sentido aproveitar todo este espaço para a via pedonal ciclável?

No Jardim de Infância e Escola do 1º Ciclo da Ponte Pedrinha teria que ser desenhada uma alternativa pela outra margem do Rio para as bicicletas, aproveitando a ponte já existente, uma vez que do lado onde está a via pedonal ciclável a largura não é suficiente para albergar peões e ciclistas.

Aliás, o projeto inicial previa que a via ciclável circulasse exatamente pelo lado onde agora sugerimos que seja criada a alternativa (e que é bem mais largo do que o atual local da via). Vejamos como era o desenho do projeto nesta zona:



A roxo encontra-se o atual percurso da via pedonal ciclável.

Ultrapassando as traseiras do campo do Maximinense encontramos mais uma ponte com o problema que tem vindo a ser apontado, foi colocada a fazer um ângulo de 90º com a via.

Passamos então para a outra margem e notamos que aqui a via poderia ser alargada de modo a ser também marcada e passar a sua designação a separada em detrimento de mista.

Acaba sem um lancil que permita o transbordo do ciclista da via pedonal ciclável para a estrada.

Achamos fundamental prolongar esta via para Este, não só até aos campos da rodovia, mas até ao Meliã (pelo interior do INL), fazendo depois a ligação ao Campus Universitário de Gualtar permitindo assim que os estudantes se desloquem em segurança entre o Campus e as residências universitárias.

Iluminação

A manutenção das luzes, que têm estado em grande parte apagadas e a colocação de iluminação nos túneis (contemplado no projeto inicial) também é fundamental para a segurança de quem transita nesta via.

Segurança

Colocar a Polícia Municipal e/ou a Polícia de Segurança Pública e efectuarem rondas em bicicleta por esta via parece-nos também ser uma solução para possíveis problemas de segurança, já existem ciclopatrulhas em Lisboa,Porto, Coimbra, Vila Franca de Xira, Oeiras, Açores. Braga acolheria, certamente, muito bem esta ideia.


© Foto:Bike17ECO

Numa altura em que muito se pergunta qual o papel da Polícia Municipal parece-me que esta seria uma ótima resposta. É sempre bom relembrar que a 2ª Esquadra da PSP de Braga se mostrou recetiva à ciclopatrulha, mas faltavam as bicicletas.

Estacionamentos

Esta via ciclável ainda não possui nenhuma infraestrutura de estacionamento para bicicletas, no entanto a mesma é contemplada no projeto:


Aconselhamos que a escolha destas infraestruturas tenha em consideração as 3 tipologias adequadas possíveis, e esperemos não ter mais “empena rodas”.

Rede Ciclável

Achamos ainda imperativo existir uma aposta nas ligações entre esta via ciclável e a cidade, servindo quem vai da Universidade para o centro e vice-versa, possível com o recurso a alguns sinais de trânsito e a algumas marcações indicativas. Esta via não serve este propósito, por exemplo.

É necessária uma rede ciclável que sirva a cidade e os ciclistas.

É necessário permitir a circulação de bicicletas na zona pedonal (com limite de velocidade de 15 km/h – tal como em Barcelona).

É necessário que a CMB permita a circulação de bicicletas nos corredores BUS – o código da estrada que entra em vigor em Janeiro de 2014 deixa esta decisão nas mãos dos executivos camarários.

É necessário colocar mais estacionamentos pela cidade e sinalizar devidamente aqueles que já existem.

Ricardo Rio promete corrigir e aumentar ciclovias

No final da visita, o executivo, pela voz do Presidente da Câmara Ricardo Rio, anunciou que, durante o próximo ano, a via pedonal ciclável se vai prolongar no mínimo até ao parque desportivo da rodovia e corrigir problemas ao nível da iluminação, da clarificação da circulação respeitando os preceitos do IMTT sempre que possível. Para além disto anunciou ainda a intenção de reforçar as vias cicláveis na malha urbana aproveitando o estudo do professor António Babo (que mereceu a análise do Braga Ciclável) e refletir sobre as ciclovias nele propostas e ainda concretizar neste mandato toda a ecopista que vai atravessar a margem do Cávado – um projeto existente no quadro da CIMCavado.

Podem ver as palavras do Presidente da Câmara no final da visita neste video: