Pedalar na cidade de Braga

Pedalar na cidade de Braga


Há pouco menos de uma década, por ocasião da fundação do então blog Braga Ciclável, publiquei um breve artigo que, apesar da sua simplicidade, faria despertar muitas vozes até então pouco ouvidas. Semente de uma consciência coletiva que aguardava a oportunidade certa para germinar, florir e dar fruto. Mas, infelizmente, muito pouco mudou entretanto, e praticamente nada se constrói nesta cidade a pensar em quem se desloca de bicicleta no dia-a-dia.

Fui reler esse artigo, num momento de tristeza, depois de ter recebido, há dias, a notícia de mais um atropelamento grave na cidade de Braga. Mais um atropelamento! Um de muitos, naquelas estatísticas de todos os anos. Números que de nada valem, se deles nada procede.

Mas todos conhecemos alguém que já foi atropelado nas ruas de Braga, às vezes mesmo ao nosso lado, não é mesmo? Pode ter sido um amigo, um familiar, um vizinho… ou até mesmo alguns de nós. E amanhã pode ser a pessoa que mais estimamos neste mundo. Isto tem de mudar!
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Desde 1920 que existe uma rede de coexistência entre Bicicletas e Carros em Braga

Desde 1920 que existe uma rede de coexistência entre Bicicletas e Carros em Braga


Desde a chegada do automóvel às cidades que a bicicleta coexiste com este na rede viária. Em Braga, desde os anos 20 até hoje, existem cerca de 1200 quilómetros de rede viária de coexistência entre bicicleta e o automóvel.

Estes 100 anos de investimento numa rede de ruas em coexistência já nos fez perceber que não basta ter ruas onde o espaço é partilhado. Dizer que se vai apostar numa rede de coexistência entre bicicletas e automóveis é irrelevante, porque ela já existe. O resultado dessa política para a adoção do uso da bicicleta está à vista: 0,5%.

Há ruas onde tem que haver segregação. A espinha dorsal do sistema, o esqueleto, o pilar que fará toda a rede funcionar, as “aortas” da rede ciclável, tem que ser uma infraestrutura segregada, que permita uma circulação em segurança, sem sobressaltos, o mais direta e rápida possível.

Podemos reduzir o complexo exercício de planeamento e desenho da rede ciclável a uma simples pergunta, quando temos o desenho da rua pronto: “uma criança de bicicleta circularia e chegaria em segurança, de uma forma rápida, confortável e direta, até ao seu destino nesta rua?” Se a resposta for sim, então a rede estará desenhada para todos poderem usufruir dela. Mas falta coragem para resgatar o espaço público e devolver parte dele às pessoas, garantindo a segurança das mesmas.

E lá porque hoje temos uma avenida com 6 vias de trânsito, com algumas filas em hora de ponta, isso não significa que essa avenida não possa ser reprogramada para outros usos que transformem a sensação que temos a andar na rua e a sua função em algo mais humano. Falta o sentimento de vizinhança, de convívio e de fruição da rua, nas principais avenidas de Braga.

Não, ninguém quer banir os carros. É necessário reorganizar e distribuir melhor o espaço público que, neste momento, é praticamente todo dedicado ao carro. E essa redistribuição reduzirá o espaço ao carro, espaço esse que deixa de ser necessário, porque algumas pessoas vão passar a utilizar a bicicleta nas suas deslocações. E como assim é, então já não é preciso tantas vias, nem é preciso tanto estacionamento.

Folgo em ouvir, por parte do Município, que a promoção da segurança rodoviária é a prioridade das prioridades, mas, quando olhamos para os números, vemos que continua a morrer gente (muita gente) todos os anos e a tendência não está a diminuir. Se essa é a prioridade das prioridades, então é tempo do Município adotar uma #VisãoZero e implementar verdadeiras medidas de redução das velocidades e dos volumes de tráfego na cidade. Medidas que funcionem por uma #BragaZeroAtropelamentos! Precisamos de mais semáforos, mais cruzamentos de nível, mais ciclovias, mais passadeiras. Nada fazer é irresponsável.

Hoje posso dizer com toda a certeza que há 14% dos bracarenses que nunca vão utilizar a bicicleta como modo de transporte. Mas, se existissem condições infraestruturais e segregação das vias, 29% utilizariam de certeza absoluta e 31% com muita certeza que utilizariam a bicicleta. Os restantes 26% são indecisos (em breve falarei mais sobre estes números).

Para podermos ter uma Braga amiga das pessoas, inclusive das que andam e querem andar a pé e de bicicleta, é fundamental que se crie a rede ciclável estruturante. Só assim a cidade terá mais pessoas a utilizar a bicicleta no seu dia-a-dia. Só assim a cidade evolui para uma cidade sustentável!

Bracarenses no mundo: a pedalar em Santiago de Compostela – O caminho faz-se pedalando

Bracarenses no mundo: a pedalar em Santiago de Compostela – O caminho faz-se pedalando


Sempre ouvi dizer que Braga é o “penico do céu”, mas foi em Santiago de Compostela que conheci o verdadeiro significado de “chover a potes”. Embora para os bracarenses isto pareça duvidoso, asseguro que na capital da vizinha Galiza chove mais do que na nossa cidade, e prova disso são os seus 1.325 mm de índice de pluviosidade média anual que superam os 1.252 de Braga. Como é que se torna uma terra chuvosa e com relevo acidentado como Compostela numa cidade ciclável? Pedalando aos poucos!

As minhas primeiras pedaladas em Compostela foram dadas numa bicicleta concedida pelo programa de empréstimo de bicicletas a estudantes da Universidade de Santiago de Compostela, no âmbito do seu Plan de Desenvolvemento Sostible. Numa cidade com cerca de 100.000 habitantes, que tem o seu dinamismo social e económico vinculado aos serviços administrativos, à universidade e ao turismo, este programa tem como objetivo incutir a utilização da bicicleta nos hábitos de mobilidade diários da comunidade universitária. No meu caso, este programa permitiu-me superar os “medos” associados à dificuldade de enfrentar as características físicas de Compostela em cima de uma bicicleta, e hoje em dia já pedalo no meu próprio velocípede.

Ainda que ver mantos de água a cobrir o granito das ruas de Compostela, algumas delas bastante inclinadas, não seja a imagem mais aliciante para sair de casa com uma bicicleta, o facto de nesta cidade se limitar o espaço do automóvel convida a formas de mobilidade alternativas. Nos últimos anos foram implementadas importantes medidas para facilitar o uso diário da bicicleta, tais como: a extensão da área que proíbe a passagem de veículos motorizados do centro histórico a importantes ruas na sua periferia; a limitação da velocidade a 30 km/h em vias centrais de trânsito; a criação de zonas avançadas de espera para bicicletas nos semáforos das ruas mais movimentadas; e o aumento do número de lugares para estacionarmos o nosso veículo de duas rodas.

As atuais diretrizes de mobilidade da autarquia de Compostela parecem ir ao encontro da vontade da cidadania: no Orçamento Participativo de 2017, a população decidiu canalizar 400.000 euros a dois projetos relacionados com a diminuição da dependência dos carros na cidade. Um dos projetos adaptará o trânsito à circulação da bicicleta, e o outro, criará uma via de acesso às praias fluviais do concelho sem que seja necessário utilizar o carro.
Em Compostela, a bicicleta não é apenas um meio de transporte entre a casa e o trabalho, mas é também uma agradável companhia para momentos de lazer numa cidade que conta com 26,28 m2 de área verde por habitante. Especialmente quando a chuva dá tréguas, não há nada melhor do que percorrer o passeio fluvial do rio Sarela, ou do rio Sar, de bicicleta, ou ainda pedalar até um dos 15 parques verdes que abraçam Santiago de Compostela.

Ainda que localizadas em Estados diferentes, Braga e Compostela partilham elementos físicos e sociais que aproximam os atuais cenários de gestão da mobilidade destas cidades. Para além da pluviosidade abundante, da dispersão da população e do relevo acidentado, estas duas cidades históricas foram adaptando nas últimas décadas o seu urbanismo às exigências dos veículos privados. Contudo, nem as opções urbanísticas passadas nem as condições físicas dos territórios podem decretar a impossibilidade de adequar as cidades a formas mais sustentáveis de mobilidade. Parece-me cada vez mais evidente que o estimulo à utilização de bicicletas passa por incidir nas decisões individuais dos habitantes através de escolhas coletivas à escala municipal que visibilizem os ciclistas e assinalem e protejam o seu espaço na cidade.

Bracarenses no mundo: a pedalar em Aarhus – Capital Europeia da Cultura 2018

Bracarenses no mundo: a pedalar em Aarhus – Capital Europeia da Cultura 2018


Recentemente viajei até à Dinamarca. Aarhus era destino desconhecido e agora admirado. Podia ter ido a Copenhaga, mas a Copenhaga é mais fácil de ir de avião do que a Aarhus. Podendo ir até lá de carro (estou temporariamente a trabalhar na Alemanha) e aproveitar a paisagem dinamarquesa é para aproveitar.
Coincidentemente Aarhus é Capital Europeia da Cultura 2017 e, portanto, mais um motivo para lá ir.

No caminho para Aarhus é fácil de perceber que a cultura da bicicleta é isso mesmo, cultura. Não é um incentivo governamental nem tão pouco um desporto, é algo intrínseco nos dinamarqueses.
Assim que chego a Aarhus, percebo que distância entre o uso de automóvel e da bicicleta é muito pequena. O espaço é partilhado de forma igual (com as devidas proporcionalidades) e a cidade respira mobilidade com espaço para peões, bicicletas, transportes públicos e automóveis a coexistirem harmoniosamente.

No caso específico da bicicleta, foi interessante notar que apesar de existirem bastantes infra-estruturas orientadas ao uso da mesma, as pessoas basicamente parecem utilizar o bom senso quando circulam de bicicleta. As regras existem, são de forma geral cumpridas, mas se tiverem que quebrar uma regra o bom senso impera e as pessoas são cautelosas e atentas a quem está à sua volta. Acho que Aarhus transparece um pragmatismo (já observado por mim na Alemanha) em que a primazia é dada ao sentido prático no uso da bicicleta e no não uso do automóvel. Um certo pragmatismo, quanto a mim, valiosíssimo. Que talvez merecesse uma importação para Portugal.

Observando o dia a dia em Aarhus, foi fácil reparar em como é surpreendente o resultado das políticas de mobilidade. Milhares de bicicletas por todo o lado, transportes públicos muito variados e muito frequentes e carros banidos do centro histórico da cidade. Gente a ir de grandes bairros na periferia para o centro de bicicleta através de grandes ciclovias. E qualquer pessoa anda em qualquer bicicleta, não só o atleta de bicicleta de montanha ou o miúdo em bicicleta “BMX”.

Nesta cidade vêem-se todos os “clichês” da mobilidade associada à bicicleta, os suportes em todos os pontos de aglomeração de pessoas, as zonas de 30, a permissão explicita de circulação de bicicletas e peões nas chamadas zonas de coexistência, ciclovias devidamente sinalizadas ao lado das principais artérias que ligam o centro e os bairros periféricos, semaforização e marcações no chão dedicadas às bicicletas nos cruzamentos mais complicados para facilitar o atravessamento e muito mais.

Vendo isto, não acredito que o facto de existirem ciclovias ou suportes para bicicletas, tenham feito algo mais por Aahrus do que o pragmatismo do povo Dinamarquês. É certo que hoje, olhando para uma ciclovia moderna que liga a periferia ao centro de Aahrus, parece que foi assim que a cidade evoluiu, ciclovia e depois ciclistas. Mas acho que foi precisamente ao contrário! Pragmaticamente o Dinamarquês olha para a bicicleta e vê uma solução para os seus problemas e os políticos acompanham com políticas de mobilidade e infra-estruturas adequadas.

Afinal de contas as estradas e o código da estrada também não apareceram antes dos carros, pois não?

Transpondo esta realidade para Braga, diria então que não precisamos só de infra-estruturas bonitas e modernas, precisamos sim de vontade e pragmatismo. Nada mais. Para resolver alguns problemas precisamos apenas que alguém amanhã, depois de ler este artigo pense, “se calhar hoje posso tentar usar a bicicleta para ir para o trabalho, porque não?”. Um de cada vez, pode ser que devagar, Braga se torne no futuro numa cidade mais adepta da mobilidade, numa cidade sem alguns problemas. Eu quero acreditar que pode.

Para mim, este pragmatismo é parte da cultura dinamarquesa. Cultura não é só teatro, cinema, ou música. Cultura é também perceber que vivemos em comunidade e o que nos afecta, também afecta, em última análise, aqueles que connosco convivem.

Em 2017, Aarhus é Capital Europeia da Cultura. A bicicleta é apenas mais uma maneira de a demonstrar.

E se o parque de estacionamento da Câmara deixasse de fazer falta?

E se o parque de estacionamento da Câmara deixasse de fazer falta?


Há dias um vereador anunciou a disponibilização para teste de uma bicicleta elétrica aos trabalhadores municipais. A iniciativa é muito interessante mas com a configuração atual é muito pouco eficaz. Basta fazermos as contas: se o empréstimo a cada trabalhador for pelo período de uma semana, sabendo que há mais de 2500 trabalhadores, demoraremos 5 décadas a contemplar todos!

É pena que mais uma medida de promoção do uso da bicicleta seja implementada de forma tão tímida. Faz infelizmente lembrar a disponibilização de estacionamentos temporários pelo centro da cidade através da colocação de vedações amovíveis. Tinha um bom propósito mas, além de inconsequente, foi mal executada ao ponto de a descredibilizar.

Numa cidade atulhada de veículos poluentes e com décadas de atraso nas políticas de mobilidade, numa altura em que começamos a sofrer seriamente os efeitos das alterações climáticas, são necessárias medidas mais energéticas, consistentes e em crescendo. O que está em causa, não tenhamos dúvidas, é a qualidade de vida que vamos deixar aos nossos filhos e aos deles. Não se trata de eliminar os carros, mas de reduzir o seu uso ao francamente indispensável.

As bicicletas elétricas são uma extraordinária oportunidade de reduzirmos a poluição sem grande esforço. Quem nunca utilizou uma, recomendo que experimente. De imediato vai perceber as inúmeras vantagens de combinar a versatilidade da bicicleta com um pequeno motor na roda que reduz substancialmente o esforço a pedalar. E, até distâncias de 5Km, qualquer bicicleta é o transporte que nos leva mais rápido de um ponto a outro.

Mas disponibilizar bicicleta(s), por si só, não vai resolver o problema. É preciso implementar diversas outras medidas simultâneas, seja promovendo o uso da bicicleta, seja dando incentivos claros aos trabalhadores que a utilizem, penalizando os que optam sem razão pelo carro. Ao mesmo tempo, os políticos têm de ser os primeiros dar o exemplo. Muitos dos atuais eleitos, assessores e gestores municipais vivem a menos de 5Km. Têm todas as condições para se deslocarem de bicicleta para o trabalho. Nem que para já fosse apenas às sextas-feiras, como se faz noutras cidades.

Assim, a meta da Câmara poderia ser a de reduzir todos os seus parques de estacionamento para metade, eliminando um lugar por cada trabalhador que passe a deslocar-se de bicicleta.


(Artigo originalmente publicado na edição de 24/06/2017 do Diário do Minho)

Ser ciclista…

Ser ciclista…


Ser ciclista nos tempos modernos é algo bem diferente do que os nossos pais e avós estavam habituados!

No passado: ir às compras, ao cinema, ao parque namorar, entregar encomendas, recados, correio…ir à praia, ao campo, à montanha, ao rio, ao mar…eram actividades normais para quem se deslocava de bicicleta. Normal era andar de bicicleta para qualquer lado, em qualquer circunstância! Apenas os elitistas olhavam para o ciclista como gente pobre, que não podia comprar um automóvel!

Hoje, relatos dessas épocas recriam algo mágico, algo que infelizmente os portugueses ignoraram durante décadas: a simples e prática locomoção dentro das localidades! As ruas tornaram-se sinónimo de stress, perigo, corrida contra-relógio, lugar interdito a peões! Pedalar ou caminhar na rua relaxado, em silêncio, respirando ar puro, tornou-se algo quase raro!

Os tempos mudam, algumas ruas mudaram, as leis mudaram e até as bicicletas mudaram! Tornou-se complicado andar nas ruas (devido ao excesso de automóveis), mais simples seguir as leis e ainda mais simples pedalar nas bicicletas! As bicicletas são mais leves, mais acessíveis, mais práticas e descomplicadas (não necessitam de seguro ou matrícula), as leis felizmente defendem o ciclista cumpridor e as ruas, apesar de lotadas de automóveis, tornam-se cada vez mais amigas do peão – esperemos que continuem a evoluir! Será uma evolução tipo: voltar ao passado, mas com um “upgrade”…

Ser ciclista é ser alguém que luta pelo bem da sociedade, pela natureza, pelo bem da saúde, pela simplicidade. – Admito que seja algo desafiante nos dias de hoje, mas…se não o fizermos, quem o fará? Sejam ciclistas: pedalem, sempre! Tirem as bicicletas “do armário” e sejam felizes!

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(Artigo originalmente publicado na edição de 23/04/2016 do Diário do Minho)