Diálogo precisa-se

Diálogo precisa-se


No passado dia 27 de Novembro de 2019, decorreu a apresentação do documento-síntese da Fase II do Estudo de Mobilidade e Gestão de Tráfego do Município de Braga, numa sessão pública, agendada para as 16h desse mesmo dia. Esse documento deveria, de forma imediata, ter sido sujeito a um período de discussão pública que se prolongaria até 31 de Dezembro. “Deveria”, mas não aconteceu. Só viria a ser disponibilizado a 6 de dezembro, restando três semanas para a sua apreciação e reflexão. (mais…)

A Pertinência dos Eventos

A Pertinência dos Eventos


Aconteceu em Braga, no passado dia 29 de Junho, o “V Braga Cycle Chic”. Um evento anual que, através de um passeio de bicicleta pela zona envolvente ao centro histórico da cidade, pretende promover a utilização da bicicleta em contexto urbano, no dia-a-dia. Cerca de duas semanas antes, no dia 16 de Junho, acontecia o “Ciclo Passeio Solidário de São João”. Um passeio de bicicleta, desta feita de cariz solidário e com um percurso mais alargado, dotado de uma componente informativa e histórica sobre aquela que é a maior festividade da cidade. De uma forma periódica, acontecem também os “Encontros Com Pedal”, encontros informais onde os amantes das bicicletas se reúnem para passeios temáticos ou para pedalar juntos e conhecer parceiros que a estes eventos se associam.

Muitos se questionarão da pertinência de juntar um grupo de pessoas a pedalar pela cidade. Se vale a pena todo o trabalho de coordenação e logística envolvido, para colocar um número, nem sempre previsível, mas sempre significativo, de ciclistas a circular pela cidade. Na Braga Ciclável, acreditamos que sim! É pela presença nas ruas, seja ela conjunta ou individual, que nos fazemos sentir.

Todos os dias vemos aumentar o número de pessoas que utilizam a bicicleta nos seus percursos. Nuns mais do que em outros. Basta que tiremos um par de horas, durante um dia da semana, e nos sentemos numa esplanada do eixo Rua D. Diogo de Sousa/Rua do Souto, sobretudo nas horas pré e pós horário de expediente, para perceber a enorme quantidade de pessoas que se arrisca por este percurso em bicicleta. “Arrisca” porque se trata de uma zona pedonal que, quiçá, pela presença continua de ciclistas, poderá ver o seu estatuto e condições infraestruturais revistas pelas autoridades competentes.

Mas não são apenas as instituições, como o Município ou as forças de segurança, que pretendemos sensibilizar. Queremos também fazer-nos notar junto dos automobilistas, queremos familiarizá-los com a circulação de bicicletas nas estradas para que se possa construir um respeito mútuo. Existem regras de trânsito a respeitar, nomeadamente no que diz respeito a distâncias de segurança, mas acima de tudo, existem princípios morais e humanos a preservar.

É preciso insistir, estranhar, para depois entranhar e aceitar.

Vontade

Vontade


Verde, sustentável, ecológico, biológico, orgânico, eco-friendly,… um conjunto de adjetivos cada vez mais presentes no nosso vocabulário e que, frequentemente associados a substantivos, parecem tornar a nossa vida melhor… cidade verde, mobilidade sustentável, transporte ecológico, produto biológico, alimento orgânico, consumo eco-friendly.

Mas o que é que estas palavras, que andam agora nas bocas do Mundo, trouxeram efetivamente de novo? Consumos mais conscientes? Deslocações mais ambientalmente responsáveis? Para uma muito pequena percentagem da população, sim. Para outra muito grande percentagem da população, nem por isso. O “verde” tornou-se moda e, não raras vezes, um “verde” que se fica apenas pelas aparências.

E as cidades são uma das vítimas destas (apenas) tendências. Cidades cujos responsáveis pelo seu planeamento estratégico se dizem empenhados no desenvolvimento de planos de mobilidade sustentável que muitas das vezes não passam do papel ou, quando postos em prática, se revelam ineficazes e, portanto, pouco úteis à função para a qual foram concebidos e executados. Redes inter-modais de transportes cujas partes se encontram desarticuladas entre si, ciclovias mal executadas que apresentam riscos para os seus utilizadores, bicicletários com dimensão e implantação disfuncionais, manutenção da prioridade dada ao automóvel, iluminação do espaço público insuficiente, são alguns dos problemas que persistem, apesar da imagem cumpridora que divulgam.

Mas quero acreditar que não o fazem propositadamente com o objetivo de defraudar o cidadão. Quero acreditar que se trata de desinformação e essa, apesar dos fundos e esforços investidos no que já está feito, pode muito bem ser gradualmente corrigida.

A desinformação exigirá vontade dos técnicos e autoridades responsáveis em procurar a informação correta onde ela existe, exigirá vontade em estudar exemplos bem sucedidos um pouco por todo o Mundo e aproveitar aquilo que pode ser aplicado ao nosso contexto, exigirá vontade de sair das suas secretárias e ir ao terreno para perceber como as pessoas vivem a rua e fazem uso do espaço que é delas e que deve ser construído com elas e para elas. É preciso vontade.

Sem alternativas

Sem alternativas


São vários os argumentos apresentados por muitas pessoas para a utilização diária do automóvel nas suas deslocações em detrimento de meios de transporte mais suaves, como a bicicleta ou os transportes públicos. Insegurança das infraestruturas, mentalidade e falta de respeito pelo próximo e pelo código da estrada por parte dos condutores, condições atmosféricas, longas distâncias, abrangência insuficiente da área de afetação dos transportes públicos ineficácia e incumprimento de horários de circulação dos transportes públicos, entre outros.

E sabem que mais? Desde que, por motivos profissionais, comecei a trabalhar fora do centro da cidade, me apercebi que por maior que seja a boa vontade em utilizar a bicicleta ou o autocarro, o facto é que isso se demonstrou rapidamente inviável. Desde autocarros que não cumprem horários e, por várias vezes, nem aparecem, até às altas velocidades atingidas pelos carros no trajeto que faço diariamente, já para não falar na total ausência de vias cicláveis, o facto é que não me sinto segura nem assegurada pelo sistema alternativo de transportes. Tudo isto me leva a concordar que, efetivamente, aqueles argumentos não são desculpas, mas sim factos. (mais…)

A primeira

A primeira


Tinha oito anos e já não acreditava no Pai Natal. Ou nunca acreditei.

Defensores do reconhecimento do trabalho árduo, os meus pais nunca permitiram que um velho gordo, vestido de vermelho e com barbas brancas, ficasse com o mérito de meses de esforço a amealhar o possível para, no dia 24 de dezembro, orgulhosamente entregarem à filha aquele embrulho especial.

Tinha oito anos e não havia embrulho. Estava à vista. Era azul e branca, mais branca do que azul. Era a minha primeira bicicleta. Uma BMX. “Bicicleta de rapaz”, ouvi alguém dizer. Mas eu não queria saber de que cor era ou se um rapaz a queria. Tinha rodas, estava ali e era minha! “Só podes tocar-lhe à meia-noite”, disseram, numa espécie de teste de tortura, e a ansiedade crescia.

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Braga Ciclável reuniu com CDU

Braga Ciclável reuniu com CDU


A Associação Braga Ciclável reuniu este sábado, dia 3 de junho, com o candidato da CDU às próximas eleições autárquicas, Carlos Almeida, para apresentação de uma proposta relacionada com a mobilidade urbana sustentável para Braga. Trata-se da segunda de uma série de reuniões que a Braga Ciclável pretende realizar, com cada uma das forças políticas que concorrem este ano para a eleição do próximo executivo municipal.

A associação esteve representada por Mário Meireles e Marta Sofia Silva (membros da Direção), e Luís Tarroso Gomes (membro do Conselho Fiscal), que entregaram pessoalmente ao candidato Carlos Almeida e à sua equipa um breve dossiê com algumas medidas de promoção da utilização da bicicleta e de melhoria da segurança para todos os utentes da via pública. Os utilizadores da bicicleta esperam assim que estas e outras medidas venham a ser incluídas no programa eleitoral deste ano.

As medidas propostas são diversas e vão desde a implementação dos 80 km de rede ciclável, já anteriormente prometidos pela CMB, até à colocação de bicicletários, a sobreelevação de todas as passadeiras para proteção dos peões, a criação de um sistema de bicicletas partilhadas, o aumento da frota de bicicletas das forças policiais da cidade, a implementação de programas municipais de incentivo do uso da bicicleta, entre outras.

Uma vez que o dossiê não havia sido entregue previamente, esperamos ainda receber uma resposta oficial da candidatura da CDU após a sua análise da proposta agora apresentada.

Entretanto, estão ainda a ser agendadas as reuniões com os candidatos da coligação PSD/CDS/PPM, bem como do PS.

Rua Nova de Santa Cruz

À margem deste tema foi ainda discutida a obra em execução na Rua Nova de Santa Cruz, local escolhido pela CDU para reunir com a Braga Ciclável. Relativamente a este assunto a Braga Ciclável mantém a opinião de que uma via ciclável segregada, neste caso, é uma armadilha e um erro técnico, uma vez que a obra que está a ser executada não pretende ter volumes e velocidades de tráfego automóvel que justifique essa segregação. Para além disso não existe, claramente, espaço físico para tal. Para além disso foi dito, na apresentação pública, que toda a rua, desde a rotunda da UM até perto da Fábrica Confiança, seria à mesma cota. Tal não se está a verificar. A Braga Ciclável mostra-se assim apreensiva e preocupada com a solução que está a ser implementada nesta rua.

Carlos Almeida, candidato da CDU ao Município de Braga, deu nota da sua preocupação com a execução desta obra que claramente não irá resolver os problemas de constrangimento causados ao transporte público pelo transporte individual, possivelmente irá agravar este problema, porque não é possível os autocarros se cruzarem naquilo que estamos a ver a ser implementado. Para além disso neste momento estamos a ver os automóveis a apoderarem-se do espaço destinado a paragens de autocarro, zonas de circulação de bicicletas e passeios, impedindo inclusive a circulação de pessoas no mesmo. Deixou ainda nota da preocupação sobre a solução encontrada para a bicicleta, que não lhe parece a correta.

Audácia

Audácia


No que a mim me toca, os meus sinceros parabéns à Câmara de Braga, pelo arrojo em trazer até à cidade a Braga Street Stage, uma prova urbana do desporto automóvel, inserida na passagem por Portugal do WRC – World Rally Championship. Polémicas, inconvenientes e discussões à parte, há que admitir que alterar o normal decorrer da vida do centro de uma cidade com a dimensão de Braga, com alteração/proibição da circulação em algumas artérias principais e pontos nevrálgicos de distribuição automóvel e pedonal, em nome da projeção internacional da cidade e da paixão pelo desporto automóvel, requer uma certa dose de atrevimento. Se por um lado, confesso não ser a maior apreciadora do desporto automóvel, por outro aprecio uma certa dose de audácia.

E se é da audácia do executivo que falamos, mantenho a esperança de que ela não seja sol de pouca dura e apenas focalizada em certos assuntos e interesses de alguns. Que a audácia se mantenha, entre outras matérias, na questão da mobilidade. Se houve coragem por parte da CMB ao afirmar as intenções (realistas ou não) de, até 2025, reduzir em 25% a taxa de utilização automóvel e construir 76 kms de pistas cicláveis ao serviço daqueles que preveem ser 18 mil utilizadores de bicicleta, que haja audácia na prossecução desta mesma intenção.

Se efetivamente o executivo camarário pretende cumprir o objetivo de redução da taxa de motorização, são necessárias medidas eficazes e urgentes. É premente formar e sensibilizar os cidadãos para os benefícios da mobilidade sustentável, para a existência de meios de deslocação alternativos em trajetos rápidos e para a sua contribuição na rentabilização da relação tempo-custo.

A proposta-teste da CMB em desacelerar o centro pela sobreelevação das passagens para peões e pelo estreitamento do espaço de circulação automóvel começou recentemente numa artéria de grande tráfego de Braga. Se é precisa audácia para dar esse passo? Diria que sim, mas é necessária uma dose bem maior para o estender ao restante centro da cidade.

E que ela não lhes falte… porque a sorte protege os audazes!

Humanidade (In)Sustentável

Humanidade (In)Sustentável


Em 1966, no livro A Dimensão Oculta, Edward T. Hall afirmava já que “o automóvel é o maior consumidor de espaço pessoal e público que o homem jamais inventou”. Perceber que, há cerca de 70 anos, várias vozes se levantavam já no sentido de precaver a extensão da relação de dependência entre o homem e o automóvel, faz-me pensar no quanto andamos a negligenciar estas questões durante todo este tempo.

O surgimento do automóvel modificou a forma de vida das pessoas. Se, por um lado, tornou mais fácil percorrer curtas e longas distâncias, por outro foi o motor para o crescimento das malhas urbanas em extensões tais que inviabilizou que estas pudessem ser percorridas a pé, de bicicleta ou mesmo por uma rede de transportes públicos eficaz.

Resultado desta trajetória, existe, hoje em dia, um verdadeiro síndrome do automóvel. Em Portugal, esta patologia é gritante. A possibilidade de não ser possível deixar o filho à porta da escola com o seu próprio carro, deixa a maioria dos pais em sobressalto. A ideia sequer de ir às compras sem que o carro esteja à porta do supermercado aterroriza qualquer consumidor. A hipótese de se ir ao ginásio e de seguida prolongar o exercício voltando para casa a pé, de bicicleta ou de autocarro, não passa sequer pela cabeça dos nossos ‘atletas’. Alternativas há sempre, ou quase sempre.

Enquanto isso vamos permitindo que os nossos centros urbanos se vão estrangulando pela presença excessiva de automóveis que aumentam cada vez mais o tempo investido em movimentos pendulares, impossibilitam a coexistência com outros modos de transporte e diminuam o contacto social. Não queremos andar a pé ou de bicicleta, não percorremos as ruas das nossas cidades, não conhecemos as pessoas que frequentam os mesmos caminhos ou lugares que nós. Diz Hall que “quando passeamos, aprendemos a conhecer-nos entre nós, que mais não seja de vista”, permitindo o fortalecimento das relações humanas.

Não temos que nos incompatibilizar com o uso do automóvel em meio urbano, mas antes aprender a gerir a sua utilização de forma a que, não apenas a mobilidade se torne sustentável, mas também a humanidade das relações.


Dicas de Sustentabilidade

  1. O filho do seu vizinho frequenta a mesma escola que o seu filho? Que tal combinarem levar alternadamente os miúdos à escola e aproveitar para melhorar as relações de vizinhança?!

2. Se a distância lho permitir, que tal começar a ir de bicicleta para o trabalho duas a três vezes por semana? Se calhar evitar-lhe-ia aquela aula dolorosa de cycling ao final do dia. E quem sabe mesmo uma mensalidade
poupada…

3. Vai às compras? Alforges, cestos, atrelados, são todos boas opções para o seu transporte!

(Artigo originalmente publicado na edição de março de 2017 da Revista Rua)