Depois da Pandemia

Depois da Pandemia


Subitamente vimo-nos todos no centro daquilo que sentimos como uma qualquer distopia de ficção científica filmada em Hollywood. Dizem os cientistas que ainda há muito para descobrir sobre este vírus. Questões como qual é a sua taxa de letalidade, a sua sensibilidade às condições ambientais, o grau de imunidade que tem alguém que tenha sido previamente infetado e a percentagem de pessoas infetadas que não apresentam sintomas, não têm ainda respostas estabelecidas. Das respostas que obtivermos, vai depender muito do nosso futuro próximo.

Sabemos, no entanto, que o vírus é especialmente perigoso para os mais velhos e por isso, aceitamos empenhadamente as medidas que as autoridades definiram como necessárias para o conter. Essas medidas têm um custo económico enorme, fala-se que poderá ser a maior recessão dos últimos cem anos, mas essa é uma fatura que aceitamos pagar, numa prova de grande solidariedade intergeracional.

Embora estejamos a percorrer um caminho ainda com mais dúvidas do que com certezas, sabemos que chegará o momento em que o problema de saúde pública estará controlado e teremos de começar a reconstruir as nossas economias. Estou tentado a adivinhar que por essa altura ouviremos muitas vezes o argumento de que deveremos pôr de lado preocupações ambientais para favorecer o crescimento económico. Não estarei a falhar por muito se imaginar que, entre outras coisas, serão postos em causa, por exemplo, os limites e taxas às emissões de carbono, a proteção da biodiversidade terrestre e marinha, o ordenamento urbano, bem como as limitações ao tráfego automóvel e a promoção dos transportes públicos e da mobilidade ciclável.

Não tenho grandes ilusões e sei que este argumentário terá muitos adeptos, mas fará realmente sentido? Não me parece. Independentemente da pandemia, os problemas ambientais não deixaram de existir. Se fomos capazes de, a uma escala global, parar para proteger os nossos mais velhos, não seremos capazes de nos mobilizar para estratégias de desenvolvimento que protejam os mais novos, nomeadamente aqueles que ainda não nasceram?

Será a mobilidade ciclável um bom investimento público?

Será a mobilidade ciclável um bom investimento público?


A análise do custo/benefício deve ser um aspeto fundamental de suporte às decisões de investimento público. No entanto, este tipo de análises nem sempre são um exercício simples: se por um lado, os custos não se restringem aos que estão diretamente associados a uma dada obra, por outro, a totalidade dos benefícios não se faz sentir no imediato.

Esta introdução vem a propósito de um estudo que se dedica a analisar o custo/benefício dos investimentos feitos em mobilidade ciclável na cidade espanhola de Sevilha.

A partir do ano de 2003, foi estabelecido um plano que transformou Sevilha numa improvável cidade modelo para a mobilidade ciclável. Do plano fizeram parte a construção de cerca de 140km de ciclovias urbanas, um sistema de bicicletas partilhadas com 260 pontos de partilha e “bicicletários” para o parqueamento de cerca de 5000 bicicletas. Com este plano, entre 2006 e 2011 houve um aumento, em números redondos, de 6.000 para 70.000 utilizadores regulares da bicicleta. No entanto, terá sido ele um bom investimento de dinheiros públicos?

Um estudo realizado por uma equipa liderada pelo professor de Economia da Universidade de Sevilha, José Ignacio Castillo Manzano, publicado em 2017 na revista Land Use Policy, assegura que sim. Nele foram considerados não só os custos diretos deste investimento como também os custos de manutenção e outro tipo de custos, como por exemplo o aumento do número de acidentes entre carros e bicicletas (que, naturalmente, aumentou em números absolutos devido ao aumento do número de bicicletas). Do lado dos benefícios pesaram na balança, por exemplo, a redução dos custos associada à diminuição da emissão de poluentes, a redução do tempo médio das deslocações, as poupanças relacionadas nos custos de manutenção dos veículos a motor, que passaram a fazer menos quilómetros, etc. Feitas as contas, e considerando um prazo de 25 anos, o investimento na mobilidade ciclável terá, em Sevilha, um retorno de cerca de 130% do valor investido, o que, de acordo com o autor, é um valor muito significativo quando comparado com outras infraestruturas urbanas e do setor dos transportes.

@Diário do Minho, 1 de junho de 2019