Pedalar em sentido contrário

Pedalar em sentido contrário


Não tenho a menor dúvida de que esta pandemia deixou e deixará marcas em todos nós. Entre as cicatrizes, umas mais profundas e outras menos, estou certa de que despertou também muitas vontades. Muito nos temos vindo a questionar sobre este ser o ponto de viragem, sobre ser a oportunidade para agarrar com todas as forças estas vontades.

Enquanto seres individuais, mas também enquanto grupo de pessoas tão diferentes, mas que tem como ponto de encontro a bicicleta, vimos esta vontade a alastrar e a contagiar ainda mais e mais as pessoas em nosso redor, neste contexto de pandemia. (mais…)

A Arrogância do Espaço

A Arrogância do Espaço


As cidades foram originalmente construídas para as pessoas, tendo sido reorganizadas ao longo do século XX para poderem receber os carros. Em Braga, essa reorganização começou nos anos 60, quando Santos da Cunha criou a “Rodovia” com estacionamento e com 4 vias de trânsito, numa época em que ainda se contavam pelos dedos das mãos os carros existentes na cidade.

A estratégia pareceu resultar: a criação de grandes avenidas atraiu mais carros para a cidade, algo que naquela altura ainda se pensava ser sinal de prosperidade. Mas nada de mais errado. Apenas se criou mobilidade induzida, isto é, induziu-se a população a utilizar um determinado modo de transporte, criando grandes vias dedicadas a esse modo e que o privilegiam em detrimento de todos os outros.

A pergunta que nessa altura se fazia era sempre a mesma: “Quantos carros conseguimos transportar nesta rua?”. O carro estava no topo da pirâmide da mobilidade. Era tudo para o carro, numa clara arrogância do espaço, em que as pessoas a pé, de bicicleta, de skate, de mota, ou de transporte público eram simplesmente excluídas. Infelizmente, é assim que pensam alguns (pseudo)engenheiros de tráfego ainda presos aos livros dos anos 50.

Hoje sabemos que é preciso inverter a pirâmide da mobilidade, colocar o peão no topo, seguindo-se a bicicleta e o transporte público. Se queremos corrigir esta velha (e fracassada) tradição de planeamento de tráfego e adotar um planeamento eficiente da mobilidade, então está na altura de mudar a pergunta para “Quantas pessoas conseguimos transportar nesta rua?”. Vamos, desse modo, conseguir transportar quase 3 vezes mais pessoas, no mesmo espaço que antes estaria dedicado apenas ao carro.

Se o número de vias de trânsito motorizado deixa de ter tanta importância, o estacionamento gratuito para automóveis dentro da cidade deixa de fazer sentido. O número de lugares de estacionamento (sempre pago) à superfície deve ser bem gerido, fixando limites máximos, para atrair menos carros.

Mas o que importa mesmo é a criação de uma rede ciclável segregada e segura, acompanhada de uma rede de transportes que funcione em canais próprios, por forma a garantir a sua fiabilidade e pontualidade. A bicicleta e o transporte público aliados, com bons passeios, boas passadeiras, percursos pedonais francos, diretos e livres de obstáculos, a funcionarem como a espinha dorsal da cidade.

O mundo mudou! As cidades atuais já não se preparam para o futuro construindo ainda mais viadutos, mais túneis e mais circulares, para um carro arrogante que não se preocupa com mais nada à sua volta. Isso não é “mobilidade sustentável”, ao contrário do que se afirma em Braga. Isso é trânsito, é apenas dizer “usem mais o carro”. Mas isso não se coaduna com o mundo atual e muito menos com o futuro. As cidades precisam de induzir o uso da bicicleta e do transporte público como alternativa ao automóvel. Braga não é diferente. É de lamentar que não seja agora que se induza verdadeiramente o uso da bicicleta e do transporte público como alternativa ao automóvel. Isto porque se não formos muito rápidos a mudar já hoje vamos falhar. Precisamos de uma revolução no espaço dedicado ao carro, porque no tempo da cidade, 2025 é já amanhã, e não podemos falhar às gerações futuras!

@Diário do Minho, 4 de maio de 2019

Que falta fazia uma ciclovia a subir e outra a descer na 31 de janeiro?

Que falta fazia uma ciclovia a subir e outra a descer na 31 de janeiro?


Raros são os dias que não vejo uma publicação nas redes sociais sobre o termo “bicicleta”, no entanto continua a ser uma tarefa complicada utilizar a mesma para nos deslocarmos diariamente quando não temos uma faixa específica para circular: utilizar os passeios é desagradável, pois estamos a ocupar um espaço que é destinado aos peões, utilizar a faixa de rodagem – ainda que seja obrigatório – poderá ser deveras perigoso, principalmente quando nos deparamos com automobilistas com falta de sensibilidade e respeito. Pior ainda quando se junta o factor chuva. Aí o cenário rodoviário desta cidade chega a estar separado por uma linha muito ténue daquilo que é um cenário caótico.

Para quem vive aqui há alguns anos e utiliza o carro recorrentemente consegue confirmar que este problema se tem agravado ao longo dos tempos, consequência de um progresso significativo que esta metrópole tem sofrido. É, então, necessário pensar em estratégias de circulação mais sustentáveis que permitam o crescimento da cidade.
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Um pequeno passo rumo aos 18 mil

Um pequeno passo rumo aos 18 mil


Desde 2012 que a Braga Ciclável tem defendido a criação de um eixo ciclável entre a Universidade do Minho e a Estação de Comboios via centro histórico. O percurso foi custoso, mas depois de apresentar soluções, estudar os perfis, analisar as estatísticas de mobilidade no eixo e efetuar várias reuniões eis que chega uma solução.

Não, não é a solução ideal para o padrão da mobilidade ali existente (e os motivos já foram explanados no nosso blog e podemos dizer, sucintamente, que em 9,61 metros de perfil de via era imperativo que os passeios tivessem cerca de 1,5 metros de largura e que existissem duas vias de trânsito (6,61m), sendo que uma (sentido Este-Oeste) fosse reservada para transportes públicos (autocarros e táxis) e bicicletas.

Optou-se por legalizar o estacionamento criando mais pontos de estacionamento gratuito. É de ter em conta, segundo o relatório do quadrilátero de 2013, que a zona urbana de Braga tem 93% do seu estacionamento gratuito. Dizem os estudos que é praticamente impossível promover a mobilidade ativa e o transporte público com tanto estacionamento gratuito.

Na construção das vias cicláveis, sejam elas acalmias de tráfego, faixas cicláveis ou pistas cicláveis, é fundamental que estas cumpram os critérios funcionais, como por exemplo a legibilidade, segurança, conforto, continuidade, linearidade, entre outros.

Estes critérios são fáceis de respeitar em perfis contínuos. O grande desafio passa por encontrar soluções que os respeitem nos pontos críticos tais como as intersecções (cruzamentos, entroncamentos e rotundas) e as paragens de autocarros. A partilha de espaço entre o peão e o ciclista é algo que em Braga hoje já acontece sem incidentes e que com a maior convivência entre ambos os modos maior será a sã partilha do espaço público.

Pela primeira vez em Braga foi criada uma via ciclável em contrassentido e em partilha com o transporte público. É um pequeno (grande) passo para Braga.

Resta-nos melhorar no futuro, correr riscos, experimentar soluções, otimizar as existentes, manter as que correm bem, corrigir as que têm erros e continuar a promover o uso da bicicleta para atingir a meta de 18 000 utilizadores diários de bicicleta em 2025 definidos como Visão deste executivo para a cidade.

O número de pessoas a andar de bicicleta em Braga vai aumentar, mas mesmo sendo as infraestruturas (bem construídas) uma condição necessária, não são suficientes para a promoção do uso da bicicleta.


(Artigo originalmente publicado na edição de 25/06/2016 do Diário do Minho)