O exemplo de Donostia (San Sebastian)

O exemplo de Donostia (San Sebastian)


Há vários anos a cidade basca de Donostia (San Sebastian em castelhano) é apontada como um dos bons exemplos ibéricos em políticas de mobilidade. Donostia é uma cidade com 185 mil habitantes, sensivelmente a mesma população do que Braga, e é o centro de uma área metropolitana com cerca de 400 mil. No final dos anos 80 do século passado, depois de trinta anos de forte incremento no transporte automóvel, a cidade iniciou uma nova estratégia agregada de mobilidade e qualidade urbana, cujos objetivos foram não só a promoção dos modos de transporte mais sustentáveis como a devolução do espaço público aos peões.

Para tal o estacionamento foi fortemente regrado, havendo poucos lugares nos bairros centrais da cidade, onde reside a maior parte da população. Os que há são pagos, e com tempo de permanência limitado. Em alternativa existem parques subterrâneos pagos e, principalmente, os parques dissuasores gratuitos na periferia, servidos por transportes públicos. Os proveitos das taxas de estacionamento são investidos em transportes públicos, que são rápidos, frequentes, cómodos e de simples utilização.

O espaço libertado pela redução de lugares de estacionamento na via pública foi utilizado na criação de condições para que os cidadãos se pudessem deslocar de formas mais sustentáveis. Andar a pé é simples e seguro, passeios largos, muitas passadeiras e sem passagens desniveladas. Para utilizar a bicicleta, Donostia é hoje servida por cerca de 50km de ciclovias percorridas dia e noite por homens, mulheres e crianças, faça chuva ou faça sol. Aliás, a quantidade de bicicletas estacionadas na rua é enorme, parecendo que o sucesso da utilização deste meio de transporte criou necessidades que os cerca de 2000 lugares disponíveis em bicicletários não são capazes de satisfazer.

Hoje em dia, em Donostia, estima-se que cerca de 70% das deslocações são feitas a pé, de bicicleta ou de transportes públicos, em Braga este valor andará na ordem dos 45%. Este facto não piora em nada a qualidade de vida dos seus cidadãos, antes pelo contrário, menos atropelamentos, menos tempo perdido em deslocações e uma cidade mais amiga do ambiente. É isto que Donostia tem para oferecer e inspirar a quem a visita.

Um exemplo aqui ao lado

Um exemplo aqui ao lado


Aqui bem perto de nós, na vizinha Galiza, situa-se Pontevedra, uma cidade com cerca de 82.000 habitantes, pouco menos que Viana do Castelo. Ao longo das últimas duas décadas, Pontevedra tem levado a cabo, em estreita colaboração com diversas instituições da sociedade civil, políticas de mobilidade que visam conciliar o automóvel com o respeito pelos peões e pelo espaço comum.

Uma das medidas mais emblemáticas foi a limitação da velocidade dos automóveis a 30km/h em toda a área urbana e estabelecer zonas onde o limite de velocidade é 20 km/h. A esta juntaram-se outras medidas, como por exemplo: acabar com o estacionamento pago no centro da cidade, substituindo-o por estacionamento gratuito mas limitado a 15 minutos e parques gratuitos na periferia, a cerca de 10 minutos a pé do centro; favorecer a atividade comercial e serviços dentro da cidade, sem o deslocalizar para grandes superfícies em zonas periféricas; programas para conferir segurança e incentivar as deslocações de crianças a pé para as escolas; colocação de passadeiras ao nível do passeio e conferir-lhes segurança através de iluminação própria.

Com este plano, entre 1996 e 2014, Pontevedra aumentou em 35% a velocidade média de circulação, reduziu 78% o tempo perdido em engarrafamentos, diminuiu em 65% o consumo de combustível dentro da cidade e reduziu muito significativamente o ruído e a concentração de gases poluentes. Paralelamente, neste período, não houve mortos em acidentes rodoviários, estando neste aspeto entre as cidades mais seguras do mundo. Tudo isto valeu-lhe, em 2014, o prémio “ONU-Hábitat” atribuído pelas Nações Unidas.

Certamente com as suas especificidades, o exemplo de Pontevedra faz acreditar que não é só no norte e no centro da Europa que são possíveis cidades onde os diferentes meios de transporte convivem harmoniosamente e onde a qualidade de vida dos cidadãos é o aspeto central na definição das políticas de mobilidade.