Pedalar na cidade de Braga

Pedalar na cidade de Braga


Há pouco menos de uma década, por ocasião da fundação do então blog Braga Ciclável, publiquei um breve artigo que, apesar da sua simplicidade, faria despertar muitas vozes até então pouco ouvidas. Semente de uma consciência coletiva que aguardava a oportunidade certa para germinar, florir e dar fruto. Mas, infelizmente, muito pouco mudou entretanto, e praticamente nada se constrói nesta cidade a pensar em quem se desloca de bicicleta no dia-a-dia.

Fui reler esse artigo, num momento de tristeza, depois de ter recebido, há dias, a notícia de mais um atropelamento grave na cidade de Braga. Mais um atropelamento! Um de muitos, naquelas estatísticas de todos os anos. Números que de nada valem, se deles nada procede.

Mas todos conhecemos alguém que já foi atropelado nas ruas de Braga, às vezes mesmo ao nosso lado, não é mesmo? Pode ter sido um amigo, um familiar, um vizinho… ou até mesmo alguns de nós. E amanhã pode ser a pessoa que mais estimamos neste mundo. Isto tem de mudar!
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Se ficar o bicho come, se pedalar o bicho não pega

Se ficar o bicho come, se pedalar o bicho não pega


Seguramente, toda a gente sentirá que a pandemia alterou imenso as nossa vidas. Ficamos fechados, confinados, durante meses e só no início de Junho pudemos aos poucos deixar a quarentena. Ainda com receios e muitas precauções, vamos saindo e retomando a pouca normalidade que é possível. Sabemos que a nossa vida normal não voltará tão cedo. O actual estado exige muitas precauções.

De tudo de mau e disruptivo que o COVID trouxe às nossas vidas, há oportunidades que nasceram e aspectos menos maus que ocorreram durante este período. O ambiente agradeceu o nosso recolhimento: as emissões de CO2 diminuíram, a qualidade dos nossos rios e mares melhorou e a acalmia do trânsito contribuiu para a redução da poluição sonora. Neste novo quotidiano, alguns perguntaram-se se não seria possível manter aquilo que foi positivo, se seria possível alterar a nossa forma de consumir, produzir e de viver para diminuirmos a nossa pegada ecológica. Neste texto foco-me numa parte, na mobilidade, nomeadamente como esta pandemia pode ser uma oportunidade para massificar o uso da bicicleta. (mais…)

Pedalar em sentido contrário

Pedalar em sentido contrário


Não tenho a menor dúvida de que esta pandemia deixou e deixará marcas em todos nós. Entre as cicatrizes, umas mais profundas e outras menos, estou certa de que despertou também muitas vontades. Muito nos temos vindo a questionar sobre este ser o ponto de viragem, sobre ser a oportunidade para agarrar com todas as forças estas vontades.

Enquanto seres individuais, mas também enquanto grupo de pessoas tão diferentes, mas que tem como ponto de encontro a bicicleta, vimos esta vontade a alastrar e a contagiar ainda mais e mais as pessoas em nosso redor, neste contexto de pandemia. (mais…)

Os lobos em Yellowstone e a Mobilidade Sustentável

Os lobos em Yellowstone e a Mobilidade Sustentável


Comemoraram-se, no início deste ano, 25 anos que os lobos foram reintroduzidos no Parque Nacional de Yellowstone nos E.U.A. Na altura, quem estava contra a medida argumentava, que a reintrodução dos lobos iria ser dispendiosa, implicar riscos para a população e iria ter impactos económicos importantes pelos danos que causaria na pastorícia. Reconhece-se hoje que a presença dos lobos matou alguns alces e afastou-os das grandes áreas de pastagem. Isso permitiu que nesses locais crescessem árvores cujos rebentos antes eram anteriormente comidos pelos alces. As árvores trouxerem aves e também castores, que com as suas “barragens” deram habitats para peixes. A isto juntou-se um aumento de visitantes anuais no Parque. (mais…)

Ciclovias ou árvores? A escolha que não pode acontecer

Ciclovias ou árvores? A escolha que não pode acontecer


Uma das polémicas atuais da cidade é o abate de árvores no arranque da subida para o Bom Jesus. O motivo é a construção pela Câmara Municipal de um pequeno trecho de ciclovia que ligará a Universidade à zona de Lamaçães. Importa dizer que a Câmara Municipal ao anunciar a obra da “Variante da Encosta” nunca fez qualquer referência ao abate. Foram os cidadãos e as associações que, ao analisarem os escassos elementos gráficos que a Câmara disponibilizou, se aperceberam da intenção de abater árvores adultas (algumas das quais na fotografia). Em resposta às críticas, a Câmara emitiu um comunicado alegadamente esclarecedor mas que, através de eufemismos como “saldo de espécies arbóreas”, “replantar”, “removidas da atual localização”, não explica por que razão o Município quer abater mais árvores (ainda há pouco tempo a Câmara anunciou o abate de 130 árvores na cidade e a I.P. destruiu dezenas de árvores na Av. António Macedo).

A Câmara aproveita ainda o comunicado para, em abstracto, acusar os cidadãos e associações de não estarem informados. Mas uma Câmara que opta por manter sempre a informação e os projetos no segredo dos seus gabinetes, não os tornando públicos pelas inúmeras formas que atualmente existem e divulgando apenas o que lhe convém, pode apontar o dedos aos cidadãos acusando-os de não estarem informados? Não é óbvio que são os gestores da cidade que têm de pôr os projetos de intervenção em cima da mesa com tempo para serem apreciados e debatidos?

O que é claro é que em 2020 um abate a despropósito não pode mais acontecer. Todos sabemos que temos de mudar o nosso estilo de vida se queremos deixar um planeta habitável aos nossos filhos. Há um esforço que todos podemos fazer individualmente. Mas uma grande parte desse salto tem de ser induzido pelas Câmaras Municipais, designadamente na reconversão do imenso espaço público reservado ao automóvel em zonas agradáveis para os peões e os demais modos suaves. E, claro, a Câmara deve constituir o exemplo inspirador para todos. A pandemia que agora atravessamos tem desencadeado por todo o mundo – de Paris a Bogotá ou de Kampala a Lisboa – iniciativas rápidas e económicas do poder local de criação de corredores para bicicletas e afins, roubando espaço aos carros e dando resposta às preocupações dos cidadãos. E Braga? Nada.

Se há coisa que não falta na subida para o Bom Jesus, como, aliás, em toda a rodovia, é espaço para introduzir duas ciclovias (uma em cada sentido) sem qualquer necessidade de eliminar árvores cuja sombra é essencial aos peões e ciclistas. Em 2020 querer destruir árvores adultas para fazer uma ciclovia deveria dar lugar à perda automática de todos os fundos comunitários. Não se pode querer ser ecologista na Europa, e predador da natureza na terrinha.

Terá Braga a perspicácia, a vontade e a coragem para arriscar?

Terá Braga a perspicácia, a vontade e a coragem para arriscar?


Neste momento tão atípico e difícil que o mundo atravessa, algumas cidades identificaram já uma oportunidade para impulsionar o uso da bicicleta como forma de minimização do contágio (exemplos como Bogotá, Berlim, cidade do México, Budapeste, Pamplona, Milão, Barcelona, Dublin, entre outras).

A Organização Mundial de Saúde sugere que “sempre que possível, pondere andar a pé ou de bicicleta. Conseguirá manter a distância física enquanto cumpre a atividade física mínima recomendável, que hoje é mais difícil devido ao aumento do teletrabalho e à diminuição de alternativas para a prática desportiva”, permitindo, assim, o devido distanciamento físico e todos os cuidados essenciais às deslocações estritamente necessárias.

É certo que esta pandemia terá efeitos sobre o nosso estilo de vida e sobre a forma como nos deslocamos. O uso dos transportes coletivos reduzirá inevitavelmente, com vista a evitar aglomerados. Encontramos aqui uma oportunidade, um ponto de viragem para o incentivo ao uso de outros tipos de locomoção que sejam mais seguros e sustentáveis, mas, para tal, precisamos também de criar cidades onde todos circulem em segurança, independentemente do modo de transporte que utilizem.

Esta pandemia ajudou-nos a perceber ainda mais a importância de modos de transporte como a bicicleta. Temos aqui a oportunidade para priorizar esses mesmos modos e as cidades responderem a este desafio que estamos a viver, readaptando infraestruturas, repensando os espaços e a forma como estes são usados. Criar ciclovias protegidas e aumentar o espaço pedonal, por redução do espaço do automóvel nas atuais ruas e avenidas da cidade, deverá ser o primeiro passo desta transformação.

Há momentos que não podem ser apenas de passagem, e este é definitivamente um deles, um ponto de viragem, uma oportunidade para tornar Braga uma cidade vibrante, uma cidade das pessoas. Todas as crises e pandemias na história da humanidade levaram a grandes mudanças. Foram momentos de repensar e fazer diferente. Se, por um lado, este é um momento negro na nossa história, é também uma oportunidade. Terá Braga a perspicácia, a vontade e a coragem para arriscar?

Estar do lado certo

Estar do lado certo


Estocolmo, Oslo, Copenhaga ou Amesterdão são invariavelmente usadas como exemplos de cidades cicláveis. São locais com espaços amplos para peões, reduzidas estradas para o automóvel e muitos kms de ciclovias. Transformaram-se em sítios considerados por vários rankings como dos melhores do mundo para se viver e tudo graças a opções políticas centradas nos meios suaves de transporte como a bicicleta que foram sendo consistentemente tomadas ao longo de décadas. Graças ao seu sucesso, foram seguidas por outras cidades europeias como Paris, Londres, Barcelona, Madrid ou Sevilha que optaram pelo mesmo tipo de políticas e por cá, também Lisboa decidiu seguir o mesmo caminho.
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Análise do Estudo de Mobilidade e Gestão de Tráfego pela Braga Ciclável

Análise do Estudo de Mobilidade e Gestão de Tráfego pela Braga Ciclável


A Braga Ciclável fez chegar ao Município de Braga, ao abrigo do período de discussão pública do EMGTMB – Estudo de Mobilidade e Gestão de Tráfego do Município de Braga, um documento com 29 páginas contendo uma análise e algumas propostas relativas ao documento apresentado no passado mês no Museu Dom Diogo de Sousa.

O EMGTB foi contratualizado em 02 de fevereiro de 2018 por 69 mil euros à MPT – Mobilidade e Planeamento do Território e tinha como prazo de execução 365 dias.

Um primeiro reparo ao momento e ao tempo da discussão pública: o mês de dezembro. Um mês curto, com muitas atividades familiares, devido às festas e férias, o que leva a que a participação pública seja escassa e, a que existe, deixará de lado uma análise mais aprofundada que o tema merece.

Ainda assim foi possível apresentar alguma análise e contributos relativos a um documento com quase 500 páginas e que foi disponibilizado 8 dias após a sua apresentação.

Esta análise efetuada por parte da Associação levanta uma série de questões relativas ao conteúdo do documento apresentado. (mais…)

O exemplo de Donostia (San Sebastian)

O exemplo de Donostia (San Sebastian)


Há vários anos a cidade basca de Donostia (San Sebastian em castelhano) é apontada como um dos bons exemplos ibéricos em políticas de mobilidade. Donostia é uma cidade com 185 mil habitantes, sensivelmente a mesma população do que Braga, e é o centro de uma área metropolitana com cerca de 400 mil. No final dos anos 80 do século passado, depois de trinta anos de forte incremento no transporte automóvel, a cidade iniciou uma nova estratégia agregada de mobilidade e qualidade urbana, cujos objetivos foram não só a promoção dos modos de transporte mais sustentáveis como a devolução do espaço público aos peões.

Para tal o estacionamento foi fortemente regrado, havendo poucos lugares nos bairros centrais da cidade, onde reside a maior parte da população. Os que há são pagos, e com tempo de permanência limitado. Em alternativa existem parques subterrâneos pagos e, principalmente, os parques dissuasores gratuitos na periferia, servidos por transportes públicos. Os proveitos das taxas de estacionamento são investidos em transportes públicos, que são rápidos, frequentes, cómodos e de simples utilização.

O espaço libertado pela redução de lugares de estacionamento na via pública foi utilizado na criação de condições para que os cidadãos se pudessem deslocar de formas mais sustentáveis. Andar a pé é simples e seguro, passeios largos, muitas passadeiras e sem passagens desniveladas. Para utilizar a bicicleta, Donostia é hoje servida por cerca de 50km de ciclovias percorridas dia e noite por homens, mulheres e crianças, faça chuva ou faça sol. Aliás, a quantidade de bicicletas estacionadas na rua é enorme, parecendo que o sucesso da utilização deste meio de transporte criou necessidades que os cerca de 2000 lugares disponíveis em bicicletários não são capazes de satisfazer.

Hoje em dia, em Donostia, estima-se que cerca de 70% das deslocações são feitas a pé, de bicicleta ou de transportes públicos, em Braga este valor andará na ordem dos 45%. Este facto não piora em nada a qualidade de vida dos seus cidadãos, antes pelo contrário, menos atropelamentos, menos tempo perdido em deslocações e uma cidade mais amiga do ambiente. É isto que Donostia tem para oferecer e inspirar a quem a visita.