Bracarenses no mundo: a pedalar em Santiago de Compostela – O caminho faz-se pedalando

Bracarenses no mundo: a pedalar em Santiago de Compostela – O caminho faz-se pedalando


Sempre ouvi dizer que Braga é o “penico do céu”, mas foi em Santiago de Compostela que conheci o verdadeiro significado de “chover a potes”. Embora para os bracarenses isto pareça duvidoso, asseguro que na capital da vizinha Galiza chove mais do que na nossa cidade, e prova disso são os seus 1.325 mm de índice de pluviosidade média anual que superam os 1.252 de Braga. Como é que se torna uma terra chuvosa e com relevo acidentado como Compostela numa cidade ciclável? Pedalando aos poucos!

As minhas primeiras pedaladas em Compostela foram dadas numa bicicleta concedida pelo programa de empréstimo de bicicletas a estudantes da Universidade de Santiago de Compostela, no âmbito do seu Plan de Desenvolvemento Sostible. Numa cidade com cerca de 100.000 habitantes, que tem o seu dinamismo social e económico vinculado aos serviços administrativos, à universidade e ao turismo, este programa tem como objetivo incutir a utilização da bicicleta nos hábitos de mobilidade diários da comunidade universitária. No meu caso, este programa permitiu-me superar os “medos” associados à dificuldade de enfrentar as características físicas de Compostela em cima de uma bicicleta, e hoje em dia já pedalo no meu próprio velocípede.

Ainda que ver mantos de água a cobrir o granito das ruas de Compostela, algumas delas bastante inclinadas, não seja a imagem mais aliciante para sair de casa com uma bicicleta, o facto de nesta cidade se limitar o espaço do automóvel convida a formas de mobilidade alternativas. Nos últimos anos foram implementadas importantes medidas para facilitar o uso diário da bicicleta, tais como: a extensão da área que proíbe a passagem de veículos motorizados do centro histórico a importantes ruas na sua periferia; a limitação da velocidade a 30 km/h em vias centrais de trânsito; a criação de zonas avançadas de espera para bicicletas nos semáforos das ruas mais movimentadas; e o aumento do número de lugares para estacionarmos o nosso veículo de duas rodas.

As atuais diretrizes de mobilidade da autarquia de Compostela parecem ir ao encontro da vontade da cidadania: no Orçamento Participativo de 2017, a população decidiu canalizar 400.000 euros a dois projetos relacionados com a diminuição da dependência dos carros na cidade. Um dos projetos adaptará o trânsito à circulação da bicicleta, e o outro, criará uma via de acesso às praias fluviais do concelho sem que seja necessário utilizar o carro.
Em Compostela, a bicicleta não é apenas um meio de transporte entre a casa e o trabalho, mas é também uma agradável companhia para momentos de lazer numa cidade que conta com 26,28 m2 de área verde por habitante. Especialmente quando a chuva dá tréguas, não há nada melhor do que percorrer o passeio fluvial do rio Sarela, ou do rio Sar, de bicicleta, ou ainda pedalar até um dos 15 parques verdes que abraçam Santiago de Compostela.

Ainda que localizadas em Estados diferentes, Braga e Compostela partilham elementos físicos e sociais que aproximam os atuais cenários de gestão da mobilidade destas cidades. Para além da pluviosidade abundante, da dispersão da população e do relevo acidentado, estas duas cidades históricas foram adaptando nas últimas décadas o seu urbanismo às exigências dos veículos privados. Contudo, nem as opções urbanísticas passadas nem as condições físicas dos territórios podem decretar a impossibilidade de adequar as cidades a formas mais sustentáveis de mobilidade. Parece-me cada vez mais evidente que o estimulo à utilização de bicicletas passa por incidir nas decisões individuais dos habitantes através de escolhas coletivas à escala municipal que visibilizem os ciclistas e assinalem e protejam o seu espaço na cidade.

Bracarenses no mundo: a pedalar em Aarhus – Capital Europeia da Cultura 2018

Bracarenses no mundo: a pedalar em Aarhus – Capital Europeia da Cultura 2018


Recentemente viajei até à Dinamarca. Aarhus era destino desconhecido e agora admirado. Podia ter ido a Copenhaga, mas a Copenhaga é mais fácil de ir de avião do que a Aarhus. Podendo ir até lá de carro (estou temporariamente a trabalhar na Alemanha) e aproveitar a paisagem dinamarquesa é para aproveitar.
Coincidentemente Aarhus é Capital Europeia da Cultura 2017 e, portanto, mais um motivo para lá ir.

No caminho para Aarhus é fácil de perceber que a cultura da bicicleta é isso mesmo, cultura. Não é um incentivo governamental nem tão pouco um desporto, é algo intrínseco nos dinamarqueses.
Assim que chego a Aarhus, percebo que distância entre o uso de automóvel e da bicicleta é muito pequena. O espaço é partilhado de forma igual (com as devidas proporcionalidades) e a cidade respira mobilidade com espaço para peões, bicicletas, transportes públicos e automóveis a coexistirem harmoniosamente.

No caso específico da bicicleta, foi interessante notar que apesar de existirem bastantes infra-estruturas orientadas ao uso da mesma, as pessoas basicamente parecem utilizar o bom senso quando circulam de bicicleta. As regras existem, são de forma geral cumpridas, mas se tiverem que quebrar uma regra o bom senso impera e as pessoas são cautelosas e atentas a quem está à sua volta. Acho que Aarhus transparece um pragmatismo (já observado por mim na Alemanha) em que a primazia é dada ao sentido prático no uso da bicicleta e no não uso do automóvel. Um certo pragmatismo, quanto a mim, valiosíssimo. Que talvez merecesse uma importação para Portugal.

Observando o dia a dia em Aarhus, foi fácil reparar em como é surpreendente o resultado das políticas de mobilidade. Milhares de bicicletas por todo o lado, transportes públicos muito variados e muito frequentes e carros banidos do centro histórico da cidade. Gente a ir de grandes bairros na periferia para o centro de bicicleta através de grandes ciclovias. E qualquer pessoa anda em qualquer bicicleta, não só o atleta de bicicleta de montanha ou o miúdo em bicicleta “BMX”.

Nesta cidade vêem-se todos os “clichês” da mobilidade associada à bicicleta, os suportes em todos os pontos de aglomeração de pessoas, as zonas de 30, a permissão explicita de circulação de bicicletas e peões nas chamadas zonas de coexistência, ciclovias devidamente sinalizadas ao lado das principais artérias que ligam o centro e os bairros periféricos, semaforização e marcações no chão dedicadas às bicicletas nos cruzamentos mais complicados para facilitar o atravessamento e muito mais.

Vendo isto, não acredito que o facto de existirem ciclovias ou suportes para bicicletas, tenham feito algo mais por Aahrus do que o pragmatismo do povo Dinamarquês. É certo que hoje, olhando para uma ciclovia moderna que liga a periferia ao centro de Aahrus, parece que foi assim que a cidade evoluiu, ciclovia e depois ciclistas. Mas acho que foi precisamente ao contrário! Pragmaticamente o Dinamarquês olha para a bicicleta e vê uma solução para os seus problemas e os políticos acompanham com políticas de mobilidade e infra-estruturas adequadas.

Afinal de contas as estradas e o código da estrada também não apareceram antes dos carros, pois não?

Transpondo esta realidade para Braga, diria então que não precisamos só de infra-estruturas bonitas e modernas, precisamos sim de vontade e pragmatismo. Nada mais. Para resolver alguns problemas precisamos apenas que alguém amanhã, depois de ler este artigo pense, “se calhar hoje posso tentar usar a bicicleta para ir para o trabalho, porque não?”. Um de cada vez, pode ser que devagar, Braga se torne no futuro numa cidade mais adepta da mobilidade, numa cidade sem alguns problemas. Eu quero acreditar que pode.

Para mim, este pragmatismo é parte da cultura dinamarquesa. Cultura não é só teatro, cinema, ou música. Cultura é também perceber que vivemos em comunidade e o que nos afecta, também afecta, em última análise, aqueles que connosco convivem.

Em 2017, Aarhus é Capital Europeia da Cultura. A bicicleta é apenas mais uma maneira de a demonstrar.