Se ficar o bicho come, se pedalar o bicho não pega

Se ficar o bicho come, se pedalar o bicho não pega


Seguramente, toda a gente sentirá que a pandemia alterou imenso as nossa vidas. Ficamos fechados, confinados, durante meses e só no início de Junho pudemos aos poucos deixar a quarentena. Ainda com receios e muitas precauções, vamos saindo e retomando a pouca normalidade que é possível. Sabemos que a nossa vida normal não voltará tão cedo. O actual estado exige muitas precauções.

De tudo de mau e disruptivo que o COVID trouxe às nossas vidas, há oportunidades que nasceram e aspectos menos maus que ocorreram durante este período. O ambiente agradeceu o nosso recolhimento: as emissões de CO2 diminuíram, a qualidade dos nossos rios e mares melhorou e a acalmia do trânsito contribuiu para a redução da poluição sonora. Neste novo quotidiano, alguns perguntaram-se se não seria possível manter aquilo que foi positivo, se seria possível alterar a nossa forma de consumir, produzir e de viver para diminuirmos a nossa pegada ecológica. Neste texto foco-me numa parte, na mobilidade, nomeadamente como esta pandemia pode ser uma oportunidade para massificar o uso da bicicleta. (mais…)

São Victor cria Banco de Doação de Bicicletas

São Victor cria Banco de Doação de Bicicletas


A Braga Ciclável e a Junta de Freguesia de São Victor iniciaram no dia 22 de Setembro um Banco de Doação de Bicicletas, celebrando, desta forma, o Dia Europeu sem Carros e o último dia da Semana Europeia da Mobilidade.

Esta iniciativa convida as pessoas que tenham bicicletas paradas em casa, sem utilização, a dar uma nova vida às mesmas, entregando-as ao Banco de Doação de Bicicletas, que fica situado no edifício da Junta de Freguesia de S. Victor.

As bicicletas entregues serão reparadas por voluntários da Braga Ciclável e, posteriormente, serão colocadas ao serviço da Junta de Freguesia de S. Victor como incentivo à mobilidade suave em recursos partilhados. Contudo, ao abrigo de uma política social, algumas bicicletas poderão vir a ser entregues a famílias em situação de baixos recursos financeiros, sobretudo se o agregado for constituído por menores de idade.

Desta forma, a Braga Ciclável e a Junta de Freguesia não só promoverão a utilização da bicicleta na cidade, como permitirão que crianças, jovens e adultos possam usar a bicicleta, incentivando à progressiva utilização desta como meio de transporte e motivando a educação e sensibilização para a sua correta utilização.

Segundo Mário Meireles, dirigente da Braga Ciclável, este é um projeto com potencial de crescimento e que assenta, sobretudo, em duas grandes premissas: o incentivo para o uso quotidiano da bicicleta e a vertente voluntária e altruísta de participação na comunidade, promovendo melhor qualidade ambiental.

Já Ricardo Silva, Presidente da Junta de Freguesia de S. Victor, deseja que este projeto seja a alavanca para uma educação rodoviária inclusiva e que estabeleça a cooperação entre instituições e a solidariedade entre cidadãos, funcionando em rede, num exemplar projeto social de cidadania.

Este projeto insere-se numa candidatura vencedora ao Fundo Ambiental, apresentada pela Braga Ciclável e pela Junta de Freguesia de S. Victor que alcançou a pontuação máxima, demonstrando a pertinência do conjunto de ações preconizadas pela uma mobilidade mais amiga do ambiente.

Pedalar em sentido contrário

Pedalar em sentido contrário


Não tenho a menor dúvida de que esta pandemia deixou e deixará marcas em todos nós. Entre as cicatrizes, umas mais profundas e outras menos, estou certa de que despertou também muitas vontades. Muito nos temos vindo a questionar sobre este ser o ponto de viragem, sobre ser a oportunidade para agarrar com todas as forças estas vontades.

Enquanto seres individuais, mas também enquanto grupo de pessoas tão diferentes, mas que tem como ponto de encontro a bicicleta, vimos esta vontade a alastrar e a contagiar ainda mais e mais as pessoas em nosso redor, neste contexto de pandemia. (mais…)

A Ciclorrevolução

A Ciclorrevolução


Há dias a revista francesa L’Obs apresentava, na capa, Léonore Moncond’huy, líder dos Verdes, deslocando-se de bicicleta, vestindo roupa casual. O título da revista era “Vive la Vélorution!”. Segundo a revista, durante a pandemia, na França, deu-se um crescimento, tremendo, de utilização de bicicleta, como modo de transporte. As pessoas passaram a recear a falta de garantia de distanciamento físico e de higiene, dentro das carruagens de metro e dentro de autocarros.

Para além da vontade popular é de destacar que vários executivos municipais, incluindo o de Paris, também, contribuíram, e muito, para esta mudança na forma de vida e de estar. Com a criação de 50Km de pistas cicláveis, suplementares, fizeram Paris parecer Amesterdão, de um dia para o outro.

A ideia governativa é cativar a população, que apenas “usava a bicicleta em 3% das suas deslocações, para valores próximos dos 28% do Países Baixos e 18% dos Dinamarqueses”, criando ”pistes cyclabes sécurisées, bien séparées des voitures”.

Desde 1970 que os franceses foram estimulados a olhar para a bicicleta como um objeto de lazer ou de desporto, não como modo de deslocação diária, passando o automóvel a ocupar o lugar de destaque nas cidades. Em Portugal, foi igual.

Na mesma altura, em Amesterdão, perante o crescente número de atropelamentos a população revoltou-se e impôs restrições aos automóveis. Na altura ficou famoso o texto de um jornalista, cujo filho foi atropelado por um carro, que se intitulava “Halte aux meurtres d’enfants?”. Esta forma de descrever os atropelamentos, associada à pressão popular foram fundamentais, para impulsionar a restrição automóvel, porventura ainda o são.

Será esta a altura certa para que se dê em Portugal a nossa ciclorrevolução. É altura de deixarmos de ver o automóvel como símbolo de afirmação social. O automóvel deve deixar, rapidamente, de ser o centro das nossas cidades e deve passar a ser um modo de deslocação que excepcionalmente e justificadamente é usado.

As poucas cidades que já iniciaram esta revolução verde beneficiaram de uma maior qualidade de vida: as crianças ganharam espaço para brincar/exercitar; os idosos maior tranquilidade nas deslocações, sobretudo nos atravessamentos; e a sinistralidade caíu radicalmente.

Braga apresenta um atropelamento a cada 3 dias! Números inaceitáveis!
Pouco tem sido feito ao longo das últimas 2 décadas, pelo que os números se mantêm indecorosos.

Façamos como os Holandeses da década de 80, e os franceses atuais, e impulsionemos, para bem de todos, uma ciclorrevolução nacional!

O uso da bicicleta, por miúdos e graúdos

O uso da bicicleta, por miúdos e graúdos


A bicicleta surgiu como um modo de transporte muito usado nos antepassados, tendo sido, por muitas pessoas colocado na garagem, com o surgimento do automóvel. Porém, com a quarentena, urgia a necessidade do exercício ao ar livre, do contato com a natureza, daí o maior investimento e gosto, por muitos, pelo uso de bicicleta, onde eu, pessoalmente, estou incluída.
Com o sedentarismo da população, os horários laborais prolongados e o aumento do stress a par das obrigações pessoais levam mais pessoas ao uso de bicicleta, em cidade, pelo favorecimento de exercício, utilizando momentos de deslocações, que de carro, favoreciam o sedentarismo.
Em Braga, uma cidade jovem, populacional, com pólos de interesse bem delimitados, nomeadamente, o Hospital de Braga, a Universidade do Minho, o Centro de Nanotecnologia, o Centro Histórico, o Santuário do Bom Jesus, é imperioso uma ciclovia segura, para que os cidadãos possam percorrer o ser percurso em segurança, e não obrigar ao uso de bicicleta em estrada, já que os elevados níveis de sinistralidade na região são assustadores, devido ao excesso de velocidade dos automóveis, nas variantes urbanas. Assistimos, ainda, a um centro histórico densamente populoso, com várias escolas públicas e privadas nas mediações, sobrelotado pelo trânsito, pelo que, a médio prazo, uma ciclovia segura, poderia potenciar o uso, também pelas crianças, à semelhança de outros países, como os nórdicos, permitindo a diminuição do sedentarismo, capacitando os mais pequenos (futuros adultos, amanhã!) para a educação rodoviária, melhorar a saúde mental, favorecendo maior capacidade atencional e equilíbrio e, consequente, diminuição da agitação corporal.
Nas cidades vizinhas, saliento, a ecopista de Guimarães-Fafe, fruto do reaproveitamento do antigo caminho ferroviário, com uma extensão de 6.980 metros, dividida em percursos, permitindo percorrer a cidade e apreciar vários locais. Se prefere apreciar a paisagem à beira-mar, direciono-o para a Ciclovia da Ribeirinha de Esposende, de dificuldade fácil, com cerca de dois quilómetros, onde marginal Norte da Foz do Rio Cávado é o ex-libris do percurso. Esta é uma parte do percurso da Ecovia do Litoral Norte, que liga Esposende a Caminha, garantindo condições de segurança para quem gosta de andar de bicicleta, além de permitir o maior conhecimento de fauna e flora da orla costeira, a par de deliciosas paisagens, muitas vezes, de carro impossíveis de apreciar.
Boas Pedaladas!
“Nada se compara ao simples prazer de pedalar.”
(John Kennedy)

Um outro tipo de contágio

Um outro tipo de contágio


Comecei a andar de bicicleta porque me deixei contagiar por alguém que acorda a pensar em bicicletas, desde os seus parafusos às suas rodas. Não consegui ficar indiferente a esse fascinante interesse. Gostei do sabor que essa vontade me deixou e não parei de pensar em arranjar uma coisa dessas para me deixar levar.

Foi então que senti os primeiros sintomas: adquirir uma bicicleta à minha medida e que permitisse chegar onde precisava sem perder o ar nos cabelos; querer arranjar uma maneira de levar tudo o que me fazia falta; olhar para todas as bicicletas que passassem por mim e começar a achar que tudo é demasiado longe para ir a pé e demasiado perto para precisar de outro transporte e, por fim, sentir e valorizar o sabor de uma outra liberdade.

Quem tem reparado e observado o movimento da cidade e das pessoas nota claramente que há mais gente a andar de bicicleta. Gosto de olhar para elas e pensar de onde vêm, para onde vão e como foram contagiadas por esta vontade. Com certeza ouviria muitas belas histórias, porque quem anda de bicicleta, geralmente, tem sempre uma história para contar. Se calhar ouvir essas histórias seria importante para perceber o que motiva as pessoas a andarem de bicicleta, em cidades como Braga, sem as mínimas condições para a utilização deste meio.

Que pessoas são estas que arriscam, mas que não desistem e seguem caminho nas suas bicicletas? Somos nós, são outros tantos e, na verdade, pode ser qualquer um.

O melhor incentivo e, provavelmente o mais eficaz, é contagiar com a nossa vontade em andar de bicicleta e revelar o quão simples e prático essa mudança pode ser. Assim, quanto mais pessoas utilizarem a bicicleta nas suas deslocações mais evidente e imperativo será a necessidade de agir em prol da segurança de todos nas estradas.
Trata-se de um contágio que só traz saúde.

Vivemos verdadeiros tempos de transformação!

Vivemos verdadeiros tempos de transformação!


Este chavão é dito e redito vezes sem conta, no entanto eu também me vejo forçado a usar no momento em que falo do mundo das duas rodas.

É inegável que após tudo que sucedeu nos últimos meses a nossa postura face o mundo teria de ser outra e os nossos comportamentos também, não só pela privação de muitos prazeres antigos mas porque nos levou à redescoberta de velhos hábitos que sem dúvida nos fazem saltar diretamente para a nossa infância. Por isso verificamos um crescimento fantástico no mundo do ciclismo. Os últimos dois anos já tinham sido um excelente reflexo disso, mas estes últimos meses… Surreal! (mais…)

Desde 1920 que existe uma rede de coexistência entre Bicicletas e Carros em Braga

Desde 1920 que existe uma rede de coexistência entre Bicicletas e Carros em Braga


Desde a chegada do automóvel às cidades que a bicicleta coexiste com este na rede viária. Em Braga, desde os anos 20 até hoje, existem cerca de 1200 quilómetros de rede viária de coexistência entre bicicleta e o automóvel.

Estes 100 anos de investimento numa rede de ruas em coexistência já nos fez perceber que não basta ter ruas onde o espaço é partilhado. Dizer que se vai apostar numa rede de coexistência entre bicicletas e automóveis é irrelevante, porque ela já existe. O resultado dessa política para a adoção do uso da bicicleta está à vista: 0,5%.

Há ruas onde tem que haver segregação. A espinha dorsal do sistema, o esqueleto, o pilar que fará toda a rede funcionar, as “aortas” da rede ciclável, tem que ser uma infraestrutura segregada, que permita uma circulação em segurança, sem sobressaltos, o mais direta e rápida possível.

Podemos reduzir o complexo exercício de planeamento e desenho da rede ciclável a uma simples pergunta, quando temos o desenho da rua pronto: “uma criança de bicicleta circularia e chegaria em segurança, de uma forma rápida, confortável e direta, até ao seu destino nesta rua?” Se a resposta for sim, então a rede estará desenhada para todos poderem usufruir dela. Mas falta coragem para resgatar o espaço público e devolver parte dele às pessoas, garantindo a segurança das mesmas.

E lá porque hoje temos uma avenida com 6 vias de trânsito, com algumas filas em hora de ponta, isso não significa que essa avenida não possa ser reprogramada para outros usos que transformem a sensação que temos a andar na rua e a sua função em algo mais humano. Falta o sentimento de vizinhança, de convívio e de fruição da rua, nas principais avenidas de Braga.

Não, ninguém quer banir os carros. É necessário reorganizar e distribuir melhor o espaço público que, neste momento, é praticamente todo dedicado ao carro. E essa redistribuição reduzirá o espaço ao carro, espaço esse que deixa de ser necessário, porque algumas pessoas vão passar a utilizar a bicicleta nas suas deslocações. E como assim é, então já não é preciso tantas vias, nem é preciso tanto estacionamento.

Folgo em ouvir, por parte do Município, que a promoção da segurança rodoviária é a prioridade das prioridades, mas, quando olhamos para os números, vemos que continua a morrer gente (muita gente) todos os anos e a tendência não está a diminuir. Se essa é a prioridade das prioridades, então é tempo do Município adotar uma #VisãoZero e implementar verdadeiras medidas de redução das velocidades e dos volumes de tráfego na cidade. Medidas que funcionem por uma #BragaZeroAtropelamentos! Precisamos de mais semáforos, mais cruzamentos de nível, mais ciclovias, mais passadeiras. Nada fazer é irresponsável.

Hoje posso dizer com toda a certeza que há 14% dos bracarenses que nunca vão utilizar a bicicleta como modo de transporte. Mas, se existissem condições infraestruturais e segregação das vias, 29% utilizariam de certeza absoluta e 31% com muita certeza que utilizariam a bicicleta. Os restantes 26% são indecisos (em breve falarei mais sobre estes números).

Para podermos ter uma Braga amiga das pessoas, inclusive das que andam e querem andar a pé e de bicicleta, é fundamental que se crie a rede ciclável estruturante. Só assim a cidade terá mais pessoas a utilizar a bicicleta no seu dia-a-dia. Só assim a cidade evolui para uma cidade sustentável!

Mobilidade limpa integrada no cuidado da Casa Comum

Mobilidade limpa integrada no cuidado da Casa Comum


Como membro desta fantástica Casa Comum, partilho a experiência de mobilidade, com o intuito de impelir a uma maior sustentabilidade das vias e de oferecer a minha pequenez de colaboração em prol da mudança que urge, e cuja finalidade é o cuidado da Casa, limpa e fresca, para nela vivermos.

A mobilidade que mais aprecio e que é inata ao ser humano, é o caminhar, no qual sinto o chão, o calor, o frio, o vento, os cheiros, os espaços, as casas, as pessoas, a liberdade, o rasto limpo que deixa e a saúde que oferece. Logo de seguida, é o andar de bicicleta, por razões semelhantes. Ambas as que mais recomendo em consulta, como nutricionista, em prol de um estilo de vida salutar e humano. Promover estes meios limpos tem sido proposto pela União Europeia, pelas Nações Unidas, enfim, pela Humanidade que quer cuidar da sua Casa Comum.

Lembro-me de em criança apreciar os ciclistas mais antigos nas zonas de veraneio, em Viana do Castelo, Apúlia, Vila do Conde, Espinho, Nazaré, Vieira de Leiria, Tavira, em parte das férias de Verão. Perguntava-me porque em Braga e no Porto não via tantas bicicletas, talvez pelos declives territoriais. A outra parte das férias era na aldeia serrana, protótipo de uma comunidade sustentável, onde com os avós aprendi o respeito pela Casa Comum: aproveitar a luz natural, semear para colher, cuidar dos caminhos, orientar o circuito das águas para a rega e para não inundar as vias de mobilidade. E com o tio de Lisboa que estudava a Geira Romana, os princípios desta via de mobilidade por excelência, nomeadamente as cotas mais constantes para facilitar o trajeto e otimizar o gasto energético. Já maior andei de bicicleta noutras cidades: Amesterdão, em vias organizadíssimas; Londres; Milton Keynes, em vias ótimas de natureza, de terra, afastadas sempre que possível das vias motorizadas, apreciando a beleza da fauna e da flora. Eram cuidadas por associações de cidadãos e pela autarquia. Mais tarde, em Taiwan observei as vias cicláveis e conclui da sua universalidade e corresponsabilização dos povos.

Assim, determinada a perseguir o objetivo de uma Casa Comum limpa e fresca, perseverei na mudança, com avanços e recuos. Procurei uma clínica mais próxima de casa. Deixei uma outra afastada, passando-a para uma colega que mora perto. Desloco-me a pé, com a consciência mais tranquila. Para outros locais da cidade, sinto que necessito da colaboração coletiva, das autoridades, para me sentir segura no trajeto ciclável.

A solução brotará provavelmente da junção dos saberes e das pessoas no mesmo objetivo global e local. Universidades, autarquias, escolas, espaços de saúde, segurança, economia, cultura, espiritualidade, famílias, amigos, colegas, encontrarão a melhor e a mais simples. Muitas pessoas querem mudar, só precisam das alavancas facilitadoras.

A decisão pessoal de mobilidade tem um impacto na vida de todos, no ar que respiram, nos alimentos que comem, na saúde que usufruem. Em conjunto construiremos soluções viáveis!