Pedalar pela Europa: a perspetiva de uma principiante

Pedalar pela Europa: a perspetiva de uma principiante


Uma parte considerável das grandes cidades europeias tem já uma preocupação constante pela instalação das infraestruturas necessárias para a utilização da bicicleta. Em muitas dessas cidades, este é considerado o principal meio de transporte, que se prenderá, a meu ver, com preocupações ambientais e económicas, implementação de hábitos de vida saudáveis, entre tantos outros motivos.

De uma recente experiência intensa por oito países, poderia falar da – tão badalada nesta temática – cidade de Amesterdão, de Nuremberga – pela sua organização exemplar – passando por Varsóvia e até Florença – referenciando o seu sistema de bicicletas partilhadas, da Mobike, cujo lema é o “free slow”, que considero valer a pena pesquisar e, quiçá, implementar na nossa realidade geográfica.

Escolhi para meu testemunho, relativamente à experiência na utilização da bicicleta, a cidade de Viena. Para uma ciclista, ainda inexperiente em meio urbano, um tanto insegura na partilha da estrada com automobilistas e cuja vivência ciclista até agora tinha sido apenas a cidade de Braga, Viena revelou-se um verdadeiro paraíso.
A condução da bicicleta em Viena está garantida pela existência de extensas ciclovias preparadas para a sua utilização, com a devida sinalização, integradas no sistema de trânsito da cidade, e com a frequente existência de estacionamentos em diversos pontos da cidade – tornando-se eficaz e confortável a utilização deste veículo como meio de transporte.

Revelou-se extremamente agradável conduzir uma bicicleta numa cidade em que o trânsito flui facilmente e cujo civismo dos habitantes enche de orgulho os próprios e os que a visitam. Do que lá experienciei, posso dizer que o excesso de velocidade, por norma, não é praticado e os automobilistas não ultrapassam os ciclistas em condições perigosas para os mesmos, respeitando a ciclovia, quando existente, e a distância mínima de segurança entre eles na faixa de rodagem.

A utilização da bicicleta, concomitantemente com transportes públicos, o automóvel e a existência de peões, ocorre em perfeita simbiose. Todos coabitam em harmonia, sentindo-se permanentemente a cordialidade e o respeito pela existência uns dos outros.

É evidente que a infraestrutura da cidade terá sido pensada precisamente nesse sentido: permitir a existência e a escolha, por parte de todos, de qualquer meio de transporte.

Não sendo conhecedora das leis que regulamentam o trânsito na capital austríaca, perpassa-me a ideia de que nos seus habitantes se encontram inculcados valores como a tolerância e o respeito pelo próximo, aliado a aspetos de outra ordem como o humanismo e o civismo, que conduziram a este investimento ativo e consciente no ciclismo urbano.

Ciclistas Urbanos em Braga #47


Ciclistas Urbanos em Braga

O sr. Johannes, da Áustria, escolheu Braga e o Minho para passar alguns meses em Portugal. Nota-se, na sua expressão e na maneira como fala, um certo carinho especial por Portugal e até mesmo pela Língua Portuguesa. Gosta de passear de bicicleta, mas conta-nos que há em Braga muitas ruas e estradas onde tem mede de se aventurar por causa do trânsito. Na sua opinião, os portugueses conduzem muito depressa e fazem frequentemente ultrapassagens muito perigosas aos ciclistas, mesmo nas ruas estreitas. Meio a brincar, diz que desde que está em Portugal tem sentido muito mais a necessidade de usar o capacete quando anda de bicicleta.

Ao longo da sua estadia, tem tido a oportunidade de conhecer algumas das vilas e cidades do Minho. Como ainda não há ciclovias a ligar essas localidades, tem optado por levar a bicicleta de autocarro, embora infelizmente nem sempre isso seja permitido pelos motoristas.

Diz sentir falta de uma rede de ciclovias, como aquelas a que estava acostumado no seu país de origem. Estranha que haja nesta cidade tantas ruas ocupadas com uma ou duas filas de estacionamento automóvel, mas sem que tenham uma faixa reservada para ciclistas ou alguns lugares de estacionamento para bicicletas.

Nota:

Correndo o risco de repetir-me, diria que é frequentemente uma experiência reveladora conversar com quem já teve a experiência de viver noutras terras. Aprendemos muito sobre nós próprios ao perceber como os outros nos veem.

Quando falo com turistas estrangeiros como o Johannes, estudantes de Erasmus como a Janina ou ex-emigrantes como o Antony ou a Edite, não posso deixar de reparar em como o nosso país e as nossas cidades parecem ainda viver demasiado em função do automóvel, quando lá fora outros países supostamente mais ricos, supostamente mais desenvolvidos e supostamente com melhor qualidade de vida, apostam sobretudo na mobilidade sustentável, no uso da bicicleta, na redução do tráfego automóvel nos centros urbanos e na implementação de medidas de acalmia de trânsito.

Não gosto de negativismos, até porque temos um país fantástico, com muitos encantos e um clima que faz inveja a quase toda a Europa, mas… temos tanto por fazer!…