Ruas Completas

Segurança e conforto às pessoas, à criança, ao idoso, ao portador de necessidade, ao motorista, ao comerciante, ao trabalhador, ao turista e ao residente, um comércio ativo, um meio ambiente saudável, é o que se espera de um espaço público ou sistema viário em qualquer lugar. No entanto, sabemos que essas características, embora óbvias, não existem por completo na maior parte dos locais. A combinação desses fatores, quando sobretudo voltada às pessoas, tornam os espaços públicos nas cidades mais completos e aproximam-se do ambiente ideal que deveríamos poder desfrutar quando saímos na rua.

O termo Ruas Completas surgiu nos Estados Unidos em 2003, em resposta a expressivas mudanças no planejamento e na infraestrutura viárias das cidades americanas que ocorreram com o forte aumento da motorização individual após a Segunda Guerra Mundial (WRI Brasil, 2021). A ideia surgiu com a percepção da importância de promover a sustentabilidade do transporte e de investir em ruas que atendam a diversos modos e promovam a segurança viária e a função de convivência social das vias públicas (McCann, 2013). De acordo com a organização National Complete Streets Coalition, Ruas Completas são ruas para todos. Elas são projetadas e operadas para permitir o acesso seguro e confortável de todos os usuários, incluindo pedestres, ciclistas, motoristas e passageiros de transporte coletivo, de todas as idades e habilidades.

Com intervenções no mobiliário da via, procurando integrar o planejamento do espaço urbano, muitas vezes com simples alterações na função principal do uso de cada fragmento ou estrutura do espaço, visando a escala das pessoas, priorizando os modais coletivos e ativos, esse conceito tem visado devolver a cidade às pessoas.

No Brasil, algumas cidades vêm utilizando o conceito para realizar projetos inovadores e equitativos, em diversas escalas e iniciativas que trouxeram uma mudança radical na forma de apropriação do espaço voltada a escala humana. A cidade de Salvador, Bahia, implementou na sua região central um grande projeto de Rua Completa na Rua Miguel Calmon em 2019, transformando o ambiente e potencializando a segurança pública e viária, o conforto e a maior eficiência das pessoas que transitam naquele ambiente.

Inicialmente, é natural que essa inversão de prioridades do uso do espaço voltado majoritariamente às pessoas e não ao carro particular traga uma resistência dos usuários, mas o que se vê posteriormente, em geral, é a aceitação e melhor eficiência em mobilidade e na função social da via.

Certamente é um conceito que ainda precisa ser mais aplicado e multiplicar suas experiências, de modo que possamos fazer essas pequenas mudanças tornarem-se, com o tempo, a mudança que gostaríamos de vislumbrar nas cidades, reencontrando os citadinos com a cidade, com segurança e qualidade de vida. Ruas Completas é mais um conceito que pode auxiliar nessa mudança de paradigma em prol de uma mobilidade mais sustentável.

Foto: WRI Brasil (CC BY-NC-SA 2.0)

Fernando César Manosso
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