Escrever estas linhas é duplamente gratificante, primeiro porque partilho a minha experiência e segundo porque a minha escrita acaba por produzir reacções, umas positivas outras nem por isso. Interpretar estas mesmas reacções é fundamental para trazer à tona aquilo que é realmente mais importante e que deve ser trabalhado por aqueles que, como eu, fazem da bicicleta um dos seus meios de transporte e pugnam por uma mobilidade racional, longe da carrocefalia crónica da qual o país e Braga padecem. A mobilidade é plural, ao contrário do que nos impingem há demasiados anos.

Após ter lido o meu último texto, um amigo dizia-me, de forma politicamente correcta, que o lugar das bicicletas era no monte, pois na via pública eram um estorvo. Fiquei perplexo com tal afirmação, contudo ela espelha na perfeição o síndrome da carrocefalia vigente. E na mesma altura veio-me à memória uma de várias razias que já me fizeram em Braga, enquanto eu circulava de bicicleta para o trabalho ou meramente numa deslocação casual curta, daquelas que a maioria de vós faz de carro. No caso em causa um autocarro, que é ainda mais assustador do que um veículo ligeiro.

Como se altera o paradigma vigente é a million dolar question. E sem alterar o paradigma não será possível levar em diante um imperativo civilizacional concreto, o de uma mobilidade racional.

Lembro-me de um episódio que me acompanha a memória até hoje e que mostra bem o que falta à sociedade portuguesa. Em 2006, e na Noruega, aluguei uma bicicleta. Tem todas as infra-estruturas para utilizadores de bicicletas isso conta na hora de decidir utilizar uma bicicleta no nosso dia-a-dia. Tendo a má experiência de Portugal, enquanto utilizador de bicicletas, fui bastante cauteloso durante o passeio. Senti-me bastante seguro, contudo, e ao chegar a um túnel, onde a via para bicicletas era reduzida, tive receio, o qual se agravou quando me apercebi da aproximação de um camião. Abrandei, estranhando o facto do camião estar a demorar. Qual não foi o meu espanto quando percebi que o camião tinha abrandado e passou por mim bastante devagar. Saído do túnel, parei para perceber o que tinha acabado de acontecer, um camião respeitar um ciclista? E enquanto estava ali parado, passou uma mãe, de bicicleta e com o seu filho de poucos meses num atrelado próprio para crianças, em total segurança e mesmo num dia onde chuviscava. A regra ali é esta, respeito dos condutores por todos os utilizadores da via. Cá é a excepção, porque será?

João Forte

Geógrafo
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