Independência sobre duas rodas

A mulher despertou de um sonho de liberdade quando pegou, a primeira vez, numa bicicleta, e percebeu que poderia escolher ter o mundo onde quisesse e ainda assim fazer parte desse mundo, que também é dela. A verdade é que o mundo nem sempre está onde deveria estar e ainda há muito a fazer para que a rotação seja igual para todos. Para contrariar essa rotação, a mulher pegou na sua bicicleta e foi para as ruas, circular e ir “contra” as coisas.

Ser mulher e pedalar em Braga é uma “contra” corrente com que me deparo cada dia e que assumo o papel de transformação. Foi a maneira que arranjei de me sentir mais parte desta cidade, de incluí-la e descobri-la.

A maneira como a mulher vive a bicicleta é particular e especial. A bicicleta transforma-se, nas nossas pernas, num verdadeiro meio de afirmação individual, dá-nos energia para ultrapassar algumas barreiras psicológicas, que muitas vezes nos impedem de sermos mais corajosas e livres.

O que mais me fascina nas minhas deslocações diárias é quando passo por uma menina pequena e vejo no seu olhar o espanto e encanto de ver, uma outra menina, como ela, a andar de bicicleta. São muitas as vezes que ao passar ouço “mãe, olha uma senhora a andar de bicicleta!”. Fico feliz que por alguns momentos e inconscientemente surja uma reflexão. A realidade é que há muitas mulheres que não se sentem capazes ou seguras de pegar numa bicicleta, por vezes, porque nunca foram encorajadas a isso.

É importante experimentar, aceitar o desafio, e rápido percebemos que ao ultrapassar essa barreira, que pode ser uma subida que nos parece impossível ou uma estrada em paralelo que nos vai fazer tremer, vamos contagiar muitas outras áreas da nossa vida com essa superação e a cada dia estaremos mais motivadas e fortes.

O que noto, no geral, é que os condutores são mais condescendentes quando veem uma mulher de bicicleta na estrada, ouve-se comentários encorajadores e elogios que nos fazem pedalar a sorrir. No entanto também ainda se ouve coisas desagradáveis ou atrevimentos desconfortáveis, homens que se afirmam através do seu carro e que se incomodam com a independência sobre duas rodas das mulheres. Em parte, é possível que isto aconteça por ainda não ser comum ver mulheres a andarem de bicicleta na nossa cidade. Em cidades como Aveiro, em que se vê mulheres de todas as idades a se deslocarem de bicicleta essas diferenças não são tão visíveis, porque é uma prática comum

Percebo que uma cidade investe na mobilidade quando homens e mulheres se fundem no papel de ciclistas numa cidade preparada para os receber. Espero que no futuro existam tantas mulheres a andar de bicicleta em Braga que se torne completamente normal e que isto não precise de ser assunto.

Sara da Costa
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