É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma

Uma notícia do semanário Expresso no dia 6 de Janeiro de 2023 dava conta de uma “epidemia de trotinetes”. O mau uso destes veículos causou 5 vítimas mortais em ano e meio. Como medidas de prevenção, a Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP) propõe a implementação do uso obrigatório de capacete, a diminuição da velocidade para 20km/h e a obrigatoriedade de estacionamento em lugares designados.


As medidas que a PRP propõe são sensatas e necessárias. No entanto, o principal problema que põe em causa a segurança de quem anda de trotinete é o mesmo de quem anda de bicicleta: a falta de uma infrestrutura segura e conveninente. Como no caso dos ciclistas, o utilizador de trotinete é obrigado a circular em passeios, entrando em conflito com os peões, ou em vias onde os automóveis circulam a enorme velocidade. Duas das 5 vítimias mortais foram atropeladas. Casos de ciclistas atropelados é facil de encontrar, basta uma pequena pesquisa. Destaco o trágico atropelamento de uma investigadora em Lisboa em 2021 que foi amplamente noticiada.


Se o principal problema está na falta de vias seguras e segregadas para circular, porque é que escasseiam medidas nesse sentido? Porque não tentamos tornar o espaço urbano mais seguro e mais acessível a todos? Não tentamos porque em Portugal qualquer medida que ponha em causa o espaço dedicado ao carro é recebido com enorme hostilidade. São exemplo disso as polémicas com a ciclovia Almirante Reis em Lisboa ou da variante da encosta em Braga, criticada pelos comerciantes da zona. A ciclovia da avenida de Berna foi bastante contestada porque iria implicar o fim de lugares de estacionamento. Mesmo o pouquíssimo espaço dedicado a outros meios de transporte é utilizado abusivamente pelos condutores para estacionamento indevido. Infelizmente, estamos tão habituados ao paradigma do automóvel que não nos incomoda os “5 minutos” do carro em cima do passeio mas não podemos suportar o ciclista que vai no passeio montado na bicicleta.

Há seguramente muitas coisas em que estamos atrasados em relação a outros países da Europa mas eu arrisco em dizer que em poucas estamos tão atrasados como na mobilidade das nossas cidades. Novas medidas que garantam a segurança de todos são bem-vindas. No entanto, o que está a acontecer são mudanças que em pouco vão mudar as cidades e a mobilidade urbana. Ficará tudo genericamente na mesma enquanto não se retirar o espaço ao sacro santo automóvel.

Rafael Remondes

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