É possível andar de bicicleta em Braga? Como?

Sabemos que as condições para circular de bicicleta em Braga são francamente más: a segurança é reduzida, os incentivos são nulos, não há bicicletas partilhadas, os transportes coletivos não estão adaptados (com exceção do comboio) e os passos básicos que a Câmara já podia ter dado estão por dar.

Ainda assim, há lugar para a bicicleta na sua vida! Em primeiro lugar, importa desfazer um equívoco frequente: usar a bicicleta no dia a dia não significa a substituição total do carro por bicicleta. Há quem consiga mas dependerá de cada um. A mobilidade urbana é bem mais complexa do que há umas décadas atrás quando se resumia a casa-trabalho-casa. Deslocamo-nos por mil e uma razões (trabalho, lazer, família, compras, encontros, etc), sem um padrão regular e cada vez mais sozinhos. Curiosamente estas são oportunidades para passarmos a pedalar! Quantos destes percursos não fazemos, com vantagem, de bicicleta? Em percurso citadino é o meio mais rápido: a bicicleta leva-nos ao destino e não a um lugar de estacionamento.

“Mas é perigosíssimo pedalar em Braga”. É verdade, infelizmente, muito por causa do redesenho da cidade que fomenta a velocidade excessiva dos carros. Contra isso há que planear o percurso ciclável, utilizando ao máximo as zonas seguras (ciclovias, zonas pedonais, ruas sossegadas). Implicará uma volta maior mas compensa e pouco altera o tempo total de viagem.

Se a bicicleta implica repensar percursos, a verdade é que também abre inúmeras oportunidades que outros modos não permitem: com um pequeno desvio passamos naquela loja que não fica a caminho, recolhemos uma encomenda, ou encontramo-nos com um amigo. Em cima da bicicleta, a cidade torna-se, como por magia, mais acessível e mais pequena. Num instante estamos em qualquer lado.

E com crianças? Esta é a grande dificuldade e, acima de tudo, a grande desigualdade face aos outros transportes. A Câmara não propicia condições equivalentes. As vias não são seguras, as escolas não estão preparadas, as mochilas vêm pesadíssimas, a sinalização é fraca. E se não há, de todo, condições para as crianças pequenas se deslocarem sozinhas, também não é tarefa fácil um adulto acompanhá-las cumprindo o código da estrada. Que pai/mãe é que obriga o seu filho (maior de 11 anos) a circular pela rua em vez do passeio neste faroeste automóvel em que vivemos?

A própria bicicleta também é determinante. Provavelmente aquela bicicleta de montanha que tem arrumada não é a melhor solução para o dia a dia. Optar por uma bicicleta urbana (de roda mais pequena e dobrável) pode ser o empurrão que faltava para pedalar. Fáceis de arrumar num carro (caso a use como complemento), fácil de transportar, e acima de tudo, tão pequena que muitas vezes se consegue parar num cantinho qualquer dentro dos edifícios. Para quem faz mais quilómetros ou enfrenta declives, experimentar uma bicicleta elétrica será uma experiência-revelação: o motor torna o pedal muito mais leve e as subidas “desaparecem”.

Por fim, há a desculpa do tempo chuvoso. A boa notícia é que é apenas uma desculpa. É certo que há dias em que a chuva nos impede mesmo de pedalar, mas são bem mais raros do que parece.

Acima de tudo, a viagem de bicicleta é uma experiência revigorante e aprazível. A sensação de bem-estar não pode contrastar mais com a irritante impaciência que toma conta de nós quando somos automobilistas.

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