De asas cortadas em Braga

Num dia ensolarado de junho de 1990, experienciei uma sensação tão próxima de voar quanto uma menina de seis anos podia imaginar. Depois de semanas a guiar-me pacientemente pelo beco da Rua Bazett, a minha mãe largou o assento da minha Giant vermelha, enquanto esta acelerava pela calçada. Foi aí que senti as minhas asas a crescer. E ainda hoje, quando deslizo por uma rua sobre duas rodas, a alegria que senti há mais de trinta anos ainda brilha no meu coração. Aprender a andar de bicicleta foi um passo importante na minha jovem independência: sem depender de adultos, podia visitar amigos, ir à loja comprar gomas, ou desfrutar do ar livre.

Ao longo da minha carreira que me levou de uma pequena cidade no Canadá, a Victoria, Vancouver, Tóquio e Londres, o ciclismo sempre foi o meu meio de transporte de eleição. Além de prático e eficiente, andar de bicicleta é uma excelente maneira de incorporar atividade física em dias atarefados. Atualmente, trabalho para uma das maiores empresas internacionais de Turismo, e a diretora da sede em Londres concorda comigo. Todas as manhãs, em vez de conduzir ou ir de metro, ela pedala 45 minutos até ao escritório no centro da cidade. Sendo que ela é uma pessoa com meios para pagar qualquer transporte e com uma agenda de trabalho lotada, perguntei-lhe o porquê desta escolha. Ela respondeu que ir de bicicleta lhe permite praticar exercício físico, assim como também desanuviar a mente antes de enfrentar os inúmeros desafios do seu dia, além de ser uma decisão pessoal de viver uma vida mais verde. Optar por andar de bicicleta não é por não ter outras opções – pode ser escolher cuidar de si e do meio ambiente.

E uma das obrigações de um governo local é garantir que os moradores possam escolher.

Bicycle wings

A maioria dos meus destinos diários em Braga fica a não mais de 3 km de casa, o que significa que a bicicleta seria o meio de transporte mais prático. No entanto, desde que mudei para Braga em 2013, “aposentei” a minha bicicleta por falta de condições para a prática de ciclismo seguro. Não me entendam mal; não é uma situação desesperante. Mas atualmente, quando quero andar de bicicleta com a minha família, a única opção viável e segura é colocar as nossas bicicletas no carro e conduzir 1 km até uma área com Ciclovia. Espero que esta ironia não passe despercebida ao leitor: dentro de Braga, os moradores transportam as suas bicicletas de carro para aceder a infraestruturas adequadas. Levamos as nossas bicicletas para a nova Ciclovia desenvolvida pouco antes das recentes eleições municipais e encontramos boas condições. Se a cidade continuar a desenvolver desta forma, as bicicletas podem ser uma escolha fiável como meio de transporte, e como uma atividade que beneficia o bem-estar. Mas até que as condições melhorem, não estou pronta para assumir, nem por mim nem pela minha família, os riscos de andar de bicicleta em Braga. Sinto que não tenho escolha a não ser evitar uma atividade que trouxe, e podia continuar a trazer, tanta alegria.

Em Braga, estou de asas cortadas.

Sara Tuppen Veloso
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