Da forma como nos deslocamos na cidade

Há dias, na televisão pública, o Vereador da Mobilidade e Urbanismo de Gent – Bélgica, dizia que foi ameaçado de morte e teve que ter escolta policial quando, em 2017, implementou o plano de tráfego automóvel que proíbe que os carros consigam ir de uma ponta à outra da cidade em linha reta.

Imagine que agora ir de carro da Rotunda do Santos da Cunha ao Fojo, ou das 7 Fontes ao Minho Center obrigava a uma deslocação maior, não sendo permitido fazê-lo em linha reta, mas se se fosse a pé, de bicicleta ou de transporte público se conseguia ir em linha reta.

Hoje, em Braga, acontece exatamente o contrário, e o resultado está à vista: muita gente de carro, pouca nos outros três modos.

Os processos de mudança causam sempre desconforto, demora tempo até se criarem novas rotinas, novas dinâmicas, e é habitual que nesse processo o ser humano fique “irrequieto”, chateado e reclame, sendo que alguns ultrapassam até limites aceitáveis de reclamações. No final do processo o objetivo é alcançado e a população acaba por ficar agradada com as novas dinâmicas, levando até que mais pessoas procurem essas cidades.

Qualquer cidade que tenha passado pelo processo de mudança do espaço público teve situações semelhantes. A única questão poderá ser relativamente à altura em que se fazem estas mudanças, mas isso é mera estratégia política.

O espaço exageradamente dedicado ao automóvel leva também a um outro fenómeno, já demonstrado também em Braga: as pessoas sentem-se compelidas e obrigadas a andar de carro incutindo-lhes o medo de ir a pé ou de bicicleta.

As pessoas têm até medo de deixar os filhos serem autónomos, nas suas deslocações, ao ponto de os irem buscar ao Parque da Ponte para os deixar na Rua dos Chãos (1 km), ou à Universidade para os deixarem nos bares da Sé (3 km), ou irem buscar ao Braga Parque para os deixarem nas piscinas (500 metros).

Na altura de analisarmos as matrizes origem-destino vemos que 79% das deslocações são urbanas, de carro e em distâncias inferiores a 3 km. Porquê? Porque não temos condições infraestruturais criadas para potenciar a deslocação a pé ou de bicicleta de forma a garantir que essa deslocação vai ser pacífica, e não vai ser stressante ou perigosa, nem para garantirmos uma deslocação rápida e cadenciada do transporte público.

O facto de estarmos numa cidade já consolidada não é um problema para a reorganização do espaço público. Esta reorganização pode ser feita de forma a serem as pessoas a escolher o seu modo de deslocação, sem terem medo. Não é preciso uma cidade desenhada a partir de uma folha em branco para se fazerem alterações comportamentais nas formas de deslocação.

O século dos túneis, dos viadutos, das variantes acabou. A sociedade quer soluções de transporte público, quer poder usar a bicicleta e andar a pé na cidade.

Qualquer político com visão de futuro, com o olhar no século XXI, aposta nestas três frentes e desiste de apostas no automóvel.

É preciso coragem para tomar opções diferentes que levem a resultados diferentes. Se queremos uma mobilidade sustentável, não podemos fazer as mesmas coisas que se fazia no século passado que levaram ao excesso de uso automóvel.

É preciso pensar e fazer diferente para equilibrar a balança da mobilidade, democratizando o espaço público. E para isso a receita tem que ser diferente, ou o resultado será o mesmo.

Mário Meireles

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