Braga me faz desandar de bicicleta

Imigrada do Brasil para Portugal há 6 anos, dos quais 4 estou em Braga, nunca poderia imaginar o que me aconteceu.
Cresci na cidade de Santos (430 000 habitantes), litoral do estado de São Paulo, uma cidade com ciclovia junto ao jardim à beira mar. Me deslocava para todos os lados de bicicleta: de casa para o colégio, para a escola de idiomas, para o part-time, para as aulas de bateria, para a casa de todas as pessoas amigas… Saio de Santos uma adolescente mulher de 17 anos, independente, livre, mente leve e ciclista de coração.

Quando chego à Universidade, que vou fazer em Presidente Prudente (230 000 habitantes),, cidade do interior de São Paulo, com declives mais acentuados, aprendo o que são as bicicletas com mudanças. Afinal, em Santos nunca precisei disso. Aprendi a gerir meus ritmos, e fortaleci mais não só o meu corpo, fortaleci ainda mais a minha mente. E isto é um ciclo. A cada nova subida feita por completo sem descer da bicicleta, era uma conquista saborosa. Uma pequena vitória no meu dia de universitária.

Mudo-me então para São Paulo (12,33 milhões habitantes), capital, a cidade onde tem emprego. Passo a usar transportes públicos e vivo aquela rotina paulistana, que me pede uma pausa. Volto a comprar uma bicicleta com mudanças e enfrento a selva de pedra. Passo a andar por todas as ciclovias que faziam parte dos meus trajetos.

E enfim, chego a Braga (cidade com 139 440 habitantes), uma jovem mulher de 24 anos na Europa. Tento manter minha independência, e começo a usar transportes públicos nas deslocações. Aqui de novo, de casa para o trabalho, para a universidade, para o mercado. Mas não consigo, não cumpro horários, porque os autocarros não cumprem horários, são poucos, fazem rotas sem sentido, as tabuletas eletrónicas de horários, que indicam quanto falta para o autocarro chegar, são só tótens ilusórios que de longe a longe nos informam a data do dia de hoje.

Na altura já tinha entendido o pensamento egoísta do transporte individual para este tipo de cidade, mas eu me recuso e passo a andar de bicicleta. Contudo, nos caminhos que faço, todos os condutores de carro se incomodam comigo, me espremem entre os carros deles e os que estão estacionados. As belas ruas em paralelo, com seus paralelos soltos me dão muita insegura de sofrer algum acidente. As ciclovias não existem, mais tarde até surgem numa ótica de lazer porque ligam nada a lugar nenhum, e aquelas marcações de que “aqui podem passar bicicletas” me desesperam. Me desesperam porque tenho que ciclar numa velocidade frenética para fugir dos motoristas de autocarros públicos – afinal, eles estão sempre atrasados – e o lugar onde “posso” andar de bicicleta é no mesmo trajeto deles.

Eu não tenho como estar de bicicleta à frente de um autocarro com 40 passageiros, dos quais, junto comigo, estamos todos a ir para o trabalho, ou em alguma deslocação qualquer, e cada um programou o seu tempo em função do seu modo de transporte. Eu não sou uma ciclo-autocarrista.

E assim, agradeço: Braga, graças às tuas des-políticas de mobilidade urbana sustentável, eu aprendi a desandar de bicicleta.

Pétilin Souza
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