Braga 2030

Não nasci, nem fui criado em Braga. Cheguei a esta bela cidade em 2008 para estudar na Universidade do Minho.Na altura, encontrei uma cidade acolhedora, viva e dinâmica mas também hostil para quem, como eu, se deslocava quase exclusivamente a pé. Sentia-se essa dificuldade. Tanto mais que já se pensava em mudar a cidade para a tornar menos centrada no automóvel. O debate sobre as alternativas ao automóvel já tinha começado em 2008.

Primeiro as alternativas

Por esse ano, Braga tinha apenas uma ciclovia, a da encosta. Não estive envolvido nos debates da mobilidade mas imagino que neles se tenha sido dito que não é possível reduzir o espaço dedicado para o carro sem antes implementar alternativas. As pessoas precisam do seu veículo para se deslocarem. Investiram nos seus automóveis e não se vão livrar deles de um dia para o outro. Era um argumento sensato, responsável e sobretudo pragmático. Fazer suavemente a mudança.

Em 2013, as alternativas ainda não tinham aparecido. O que apareceu foi mais espaço para o carro com a inauguração de uma nova superfície comercial com o respectivo parque de estacionamento. Na qualidade de presidente de uma associação de estudantes, tive oportunidade de dizer ao actual presidente de câmara, na altura candidato, que uma das maneiras de trazer os estudantes para o centro da cidade seria arranjar alternativas ao carro como a bicicleta ou o autocarro que permitissem aos estudantes frequentar mais vezes o centro da cidade. Na altura, se o atual presidente discordou, não o verbalizou. Estava inclusivamente previsto no seu programa a construção de novas ciclovias e de uma maior área pedonal.

Passados 4 anos, em 2017, foi feita apenas mais uma ciclovia englobada na intervenção na Rua Nova de Santa Cruz (cheia de erros) e uma extensão da existente ciclovia do rio Este. Pouco mudou, mas houve ainda mais espaço para o carro com um novo centro comercial e uma nova loja de grandes dimensões em Lamaçães.

Nos dois anos seguintes, já como dirigente da Braga Ciclável, participei numa reunião com um dos partidos da atual coligação. Questionados sobre a falta de alternativas para o automóvel, os dirigentes do PSD responderam com o argumento de que Braga era uma cidade virada para o carro, a mudança teria de ser feita em várias frentes antes de se pensar em reduzir drasticamente o espaço que lhe é dedicado. Primeiro as alternativas…

Entre 2020 e 2021, foi feita finalmente mais uma ciclovia em Braga. Infelizmente, foi apenas um modesto prolongamento de algumas centenas de metros da existente ciclovia da encosta até à Universidade do Minho. O que não faltou? Mais superfícies comerciais com mais estacionamento. Tivemos uma oportunidade de ouro durante o confinamento para mudar, ainda que de forma provisória, o desenho das nossas ruas para ter uma rede ciclável sem afetar o trânsito. Nada foi feito.

A tenaz

Braga é a terceira cidade mais congestionada do país sendo a 7ª em população. Sei que não preciso de o escrever, as pessoas sentem o peso do trânsito na rua e no tempo perdido. Estamos em 2022 presos numa tenaz. Por um a falta de alternativas aumenta brutalmente o trânsito. Por outro, o aumento dos combustíveis faz com que andar de carro seja muito mais caro do que era em 2008 (gasolina: 1,402€, gasóleo: 1,22€). Mesmo assim, a câmara insiste em resolver velhos problemas com velhas soluções. Vamos tirar água de um barco furado.

Mais do que pensar a cidade para o próximo mês, os decisores políticos e os bracarenses precisam de pensar como querem que seja Braga em 2030. Antes de pensar em gastar mais dinheiro em alcatrão em mais estacionamento, refletir se as soluções que estamos a implementar hoje nos deixam ou não mais perto do objetivo de ser uma cidade sustentável e livre do paradigma do automóvel. Tivemos pelo menos 14 anos para construir alternativas e elas não foram implementadas. A mobilidade só piorou com o aumento de carros.

Mudar para uma cidade diferente exige pensar diferente. Exige soluções diferentes para resultados diferentes. Exige mudar e para mudar precisamos de começar já hoje. Para que os 8 anos que faltam para 2030 não sejam anos perdidos como foram os últimos 14.

Rafael Remondes
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