A mobilidade falada nas redes sociais

As semanas que antecedem as eleições autárquicas são pródigas no que concerne ao debate sobre a temática da mobilidade. Deveria acontecer durante 365 dias, ano após ano, dada a sua importância. Todos os partidos políticos abordam esta questão e cada vez mais o fazem, seja por opção, seja por uma cada vez maior pressão dos eleitores. Observação à parte, o que me leva a escrever estas linhas é fundamentalmente o debate sobre a mobilidade feito pelos cidadãos. Este debate pode ter duas vertentes associadas, na primeira, e mais comum, uma vertente apartidária, e na segunda uma vertente mais politizada. Sobre a vertente politizada não irei aprofundar, já que sou apartidário. Pronuncio-me de uma forma técnica e numa tripla perspectiva, a de utilizador regular de bicicletas, a de automobilista e a perspectiva de geógrafo. Englobo ambas as vertentes e foco Braga.

Destaco duas ocorrências que detectei no meu radar das redes sociais. Na primeira, e num dos fóruns de Braga, no Facebook, uma imagem com um objectivo único, atacar a construção de ciclovias. Utilizaram uma fotografia onde dois ciclistas circulavam em linha ao lado de uma ciclovia. O título da mesma era “façam mais ciclovias!!!”. Não pretendia debater nada, simplesmente atacar com demagogia e populismo. O típico toca e foge.

A segunda ocorrência, no twitter, era mais fina e elaborada, um comentário que afirmava que haveria um crescente desfasamento entre as reais preocupações das pessoas e os responsáveis políticos e que a discussão sobre as ciclovias era mais um sintoma disso. Terminava com uma pergunta, sobre se alguém achava que as ciclovias ou a falta delas era um dos nossos principais problemas. Esta afirmação fez-me rir, pois apesar de não ter graça alguma, demonstra o cerne da questão, ou seja um profundo desconhecimento do funcionamento, das reais necessidades e da dinâmica de uma cidade. Quem faz tal afirmação não entende o mais básico, que é, quando se fala em ciclovias fala-se em urbanismo, fala-se em mobilidade ciclável e pedonal, fala-se em segurança, fala-se em transportes públicos, fala-se em lugares para cargas e descargas. E os carros? Estão no final, não no início! As ciclovias, sejam elas dedicadas ou não, são parte indissociável do urbanismo. Trabalhar em urbanismo é trabalhar um organismo complexo, o qual opera em várias realidades, com várias variáveis e a várias escalas temporais e espaciais. Uma destas variáveis é precisamente a mobilidade ciclável, a qual é parte integrante de um organismo que se pretende são, mas que infelizmente está muito doente!

João Forte
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