A matemática da mobilidade

Intuitivamente poderíamos achar que o número de pessoas que visitam uma determinada localização de uma cidade corresponde à soma de comportamentos individuais imprevisíveis. Porém, não é bem assim.

Foi publicado em maio passado, na revista Nature, um artigo acerca de uma lei matemática que permite fazer algumas previsões neste âmbito. Neste artigo, assinado por investigadores de duas instituições americanas e uma suíça, usam-se dados anonimizados de milhões de telemóveis entre 2006 e 2013 para estudar os hábitos de mobilidade em contexto urbano. Estudaram cidades do continente americano, africano, asiático e europeu, sendo que, curiosamente, as cidades europeias consideradas foram Lisboa, Porto e Braga.

Utilizando uma linguagem matemática, de acordo com este estudo, o número de visitantes numa determinada localização diminui com o inverso do quadrado do produto da distância que percorreram com a frequência com que visitam esse local. Simplificando, as pessoas que se deslocam mais regularmente a um determinado local são aquelas que percorrem distâncias mais pequenas para o fazer. Por outro lado, aqueles que vêm de mais longe fazem-no poucas vezes. Imaginemos, por exemplo, uma loja na Avenida da Liberdade: o que este estudo nos diz é que é 100 vezes mais provável que ela seja visitada semanalmente por alguém que mora a 500m do que por alguém que mora a 5km. Isto é válido para todas as cidades estudadas, independentemente do continente em que se situam e das especificidades de cada uma.

Assim sendo, pergunto-me qual será a racionalidade para que as nossas cidades estejam totalmente vocacionadas para a utilização do automóvel, quando em média a maior parte das deslocações são de curta distância e as deslocações longas são esporádicas? Ou que o acesso ao comércio seja utilizado frequentemente como justificação para que se ocupe o espaço público com lugares de estacionamento, quando a maior parte dos seus clientes são das proximidades? Não faria mais sentido adaptarmos as nossas cidades a modos de mobilidade coerentes com o tipo de deslocamentos que fazemos e com isso ganharmos todos qualidade de vida?

(Se o leitor tiver curiosidade, o artigo referido no texto é: Schläpfer, M., Dong, L., O’Keeffe, K. et al. The universal visitation law of human mobility. Nature 593, 522–527 (2021).)

Zé Gusman

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