A Grande Avenida

Em Braga é atropelada uma pessoa a cada três dias. Este flagelo custa-nos 33 milhões de euros por ano, qualquer coisa como um terço do orçamento Municipal. Em Portugal os atropelamentos custam-nos 2,5 mil milhões de euros anuais. Mais do que dinheiro, custa-nos vidas.

Braga é a 3.ª cidade portuguesa com maior registo de poluição do ar. Os dados registados pela estação da CCDR-N, que se encontra perto da rotunda das piscinas, falam por si, e são os abaixo apresentados.

Em 2019 o valor limite horário para a proteção da saúde humana de dióxido de azoto (Limiar superior de avaliação 140 μg/m3), foi ultrapassado 40 vezes, quando apenas deve ser ultrapassado 18. O valor de Óxido de Azoto foi ultrapassado 966 vezes.

Já o valor limite anual para a proteção da saúde humana deveria situar-se nos 32 μg/m3. Em 2019 este valor foi de 56,7 μg/m3, quase o dobro do limite. O valor de óxido de azoto foi de 152 μg/m3, quase 5 vezes superior ao limiar superior de avaliação.

O valor médio por períodos de oito horas de CO2 registado (8) está acima do limite superior de avaliação, que é 7 mg/m3.

Por isso podemos afirmar que temos um problema de poluição ambiental e que Braga é uma cidade poluída. Em todos os parâmetros medidos há alturas excedidas muito acima daquilo que é suposto, para proteger a saúde humana, e mesmo fora dos picos, os valores mantêm-se altos!

Ainda assim, precisamos de medir mais, precisamos de saber como está a emissão de PM 2.5 e PM 10, partículas responsáveis por doenças respiratórias. Para além de medir, é preciso traçar metas e começar a delinear planos para reduzir estas emissões. É preciso reduzir o uso do carro neste novo centro da cidade.

Importa, também, reduzir a poluição sonora. Tentar conversar com alguém à porta do Braga Parque, ou numa esplanada de um dos cafés ao longo da Avenida Júlio Fragata ou da Frei Bartolomeu dos Mártires (sim, há esplanadas nestas avenidas), é, no mínimo, desagradável.

Dificilmente encontramos quem cumpra os limites de velocidade nestas avenidas, e isso deve-se em primeiro lugar ao desenho das mesmas, que com separadores centrais desenhados como se de uma pista de automóveis se trate, e com vias largas e sem qualquer obrigação de paragem ao longo do percurso, leva a que se acelere acima de qualquer limite legal ao longo de 3 km, sem qualquer ganho de tempo efetivo.

É preciso aumentar a qualidade de vida para quem frequenta estas duas avenidas a pé, de bicicleta ou de transporte público. É preciso aumentar a qualidade de vida para quem vive, janelas meias, com estas avenidas.

Chegando a qualquer cidade com políticas de mobilidade sustentável, as grandes avenidas obrigam a reduções de velocidade através da existência de semáforos e de passadeiras de nível, através da redução de largura de vias e do número de vias para os carros, da existência de ciclovias e de vias BUS. Entrando em Avenidas Urbanas, em verdadeiras Avenidas, em “Boulevards”.

Chegando, por exemplo, a Saragoça de carro, entrando junto à Estação de Comboios de Saragoça-Delícias, temos a Avenida de la Ciudad De Soria, com 8 vias de trânsito e com… semáforos, passadeiras e ciclovias. E tudo funciona, a velocidade reduz, os limites de 50 são cumpridos e a fluidez aumenta. Afinal, entramos na cidade, não é preciso desnivelar para dar prioridade a quem vem de carro, é preciso dar prioridade às pessoas!

Mas podemos olhar também para a Avenue de la Grande Armée e os Champs-Élysées, que têm no seu centro o Arco do Triunfo, em Paris. Ambas as avenidas parisienses têm semáforos, passadeiras, ciclovias, vias BUS, paragens BUS e muita vida.

Não é preciso muito para se perceber que são avenidas com muita mais carga automóvel do que a Júlio Fragata e a Frei Bartolomeu dos Mártires, tanta que as seguradoras não assumem qualquer colisão no Arco do Triunfo. Isso não acontece na Rotunda das Piscinas.

A comparação faz sentido para demonstrar que com um trânsito automóvel muito maior, tanto no caso espanhol como no francês, as soluções são mais amigas das pessoas que moram e vivem aquelas avenidas.

Quem propõe e defende o prolongamento do túnel, utilizando o desnivelamento da rotunda das piscinas e criando um buraco a céu aberto, ignora a água que provem das Sete Fontes e do Bairro da Alegria, e que corre por baixo da terra. Água essa que já levou, por duas vezes, a que fosse necessário reforçar as fundações do “prédio verde” de 14 andares junto ao Braga Parque e que enche os parques subterrâneos do antigo chinês, nas traseiras da Fábrica Confiança.

Quando a política é de trânsito e de indução do automóvel, então aposta-se em desnivelamentos, em viadutos ou em túneis que carecem de manutenção contínua – como é o caso do túnel da Avenida Central, que está sempre em manutenção e não há dinheiro que vede.

Os cruzamentos semaforizados e de nível são uma opção quando se pretende implementar uma Política de Mobilidade Urbana Sustentável.

Cruzar a Avenida Júlio Fragata, voltando a ligar a Rua Nova de Santa Cruz, e corrigir velhos erros, não é feito apenas com a semaforização desse cruzamento, mas sim com a criação de pelotões ao longo das quatro grandes Avenidas de Braga: A Avenida António Macedo, a Avenida Padre Júlio Fragata, a Avenida Frei Bartolomeu dos Mártires e a Avenida Dr. Francisco Salgado Zenha.

Ao longo destas quatro grandes Avenidas será necessário colocar vários semáforos, permitindo o atravessamento de pessoas a pé, de bicicleta e de transporte público em alguns pontos, sendo que noutros apenas servirá para criar um pelotão, reduzir velocidade efetiva, e aumentar a segurança rodoviária.

Afinal, quem vem das Auto Estradas, não precisa, nem tem que rasgar a cidade a meio, pode sim seguir pela já existente Avenida São Pedro de Maximinos, passando pelo interface de Ferreiros, pelas bombas da Cepsa e contornando, assim, a cidade.

Hoje temos o centro de Braga na Rotunda das Piscinas. Não podemos ter o centro da cidade rasgado por avenidas dedicadas ao carro, com velocidades, ruído, poluição e sinistralidade que não são admissíveis existir em pleno coração da cidade.

Afinal, o centro da cidade é para ser vivido pelas pessoas, e para isso é preciso humanizar, também, estas Avenidas, devolvendo-as às pessoas, e ligar as 4 cidades que hoje estão separadas por estas infraestruturas que impõem o automóvel.

Vai o Município de Braga finalmente adotar políticas de Mobilidade Urbana Sustentável, ou vai continuar a induzir a utilização do automóvel?

Mário Meireles

One Comment on “A Grande Avenida”

  1. Gostei muito do artigo. Tenho pena que a UE não fiscalize ou mande fiscalizar se as leis que foram aprovadas, pelos líderes europeus, no que diz respeito a esta matéria. Compete a cada estado membro aplicar estas leis. Caso estas medidas não forem tomadas a unica solução que vejo é reportar a quem de direito este incumprimento, Assembleia da República, TC, MP, ou Responsáveis Europeus – Parlamento Europeu, Comissão Europeia, eurodeputados.

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