Depois de há 6 anos atrás surgir um projeto político suprapartidário, com uma coligação entre partidos e a sociedade civil, iniciou-se uma prometida mudança. Distintos elementos da sociedade civil e de associações ingressaram associaram-se a este movimento.

Deixou de se falar de trânsito para se falar de mobilidade. Passou a falar-se de transporte público, de vias dedicadas e estações para autocarros, de uma rede ciclável segura e estrutural, de “76 km de ciclovias à porta de todos os bracarenses”, de passeios livres, de taxar a ocupação do espaço público e de devolver a cidade às pessoas.

Falou-se muito. Escreveu-se muito. Estudou-se e projetou-se muito. Foi mais de meio milhão em estudos e projetos relacionados com a mobilidade. Pagos, concluídos e não acessíveis publicamente.

Hoje, e ao contrário do que o Município disse no inquérito de avaliação das cidades verdes da CE, não se sabe qual é a quota modal do andar a pé, de bicicleta ou de carro em Braga. O último dado é de 2013 e talvez só tenhamos dados aquando dos Censos 2021. Útil seria que existissem inquéritos à mobilidade anuais, mas não temos.

Ainda assim, as metas do Município de Braga para daqui a 6 anos é que 25% das viagens hoje feitas de carro passem a ser feitas com recurso a outro modo de transporte, que os transportes públicos representem 20 milhões de viagens por ano e que 10% da população faça as suas viagens de bicicleta. Palavras mais do que uma vez repetidas por várias pessoas do Executivo Municipal e presentes no Plano Diretor Municipal.

Às perguntas “onde?” e “quando?” obtemos já resposta. Falta a grande questão: “Como?”. Como vamos ter 10% da população a andar de bicicleta em Braga sem uma infraestrutura adequada? Sem ciclovias nas principais avenidas da cidade? Sem zonas 30 em todas as áreas residenciais? Sem uma zona pedonal transformada em zona de coexistência?

Vai ser a pintar passeios de vermelho e a chamar-lhe “rede de coexistência”!? Se assim for, então passa a ser evidente que não se pretende apostar nos modos ativos, estando a repetir erros crassos que em nada induzem o uso da bicicleta e apenas fazem aumentar as frições para com quem anda de bicicleta.

Se querem reduzir em 25% o uso do carro, então vai sobrar, pelo menos, 25% do espaço afeto ao carro. Se assim é, então é óbvio que o caminho passará por utilizar esse espaço para afetar a quem vai passar a utilizar outro modo de transporte.

E isto torna-se ainda mais óbvio quando começamos a ver o resultado de nada fazer na infraestrutura viária ao fim de 6 anos e com a população a crescer numa cidade que continua orientada para o uso do automóvel: A hora de ponta congestionada passa a durar mais tempo.

E é apenas no final de 2019 que chega um Plano de Mobilidade Integrada e Gestão de Tráfego e que faz com que o Plano de atividades do município de 2020 tenha muito poucochinho de novidade no que toca à mobilidade. Apenas coisas que estavam já previstas, ainda não se fizeram e se empurraram com a barriga.

Enquanto isso, vamos continuar a pedalar nas nossas ruas, um dia de cada vez, esperando sobreviver.

Mário Meireles

Utilizador diário da bicicleta como meio de transporte é licenciado em Engenharia Informática, mestre em Engenharia Urbana: Cidades Sustentáveis e PhD Student na área dos transportes e mobilidade.
Mário Meireles