A Pertinência dos Eventos

A Pertinência dos Eventos


Aconteceu em Braga, no passado dia 29 de Junho, o “V Braga Cycle Chic”. Um evento anual que, através de um passeio de bicicleta pela zona envolvente ao centro histórico da cidade, pretende promover a utilização da bicicleta em contexto urbano, no dia-a-dia. Cerca de duas semanas antes, no dia 16 de Junho, acontecia o “Ciclo Passeio Solidário de São João”. Um passeio de bicicleta, desta feita de cariz solidário e com um percurso mais alargado, dotado de uma componente informativa e histórica sobre aquela que é a maior festividade da cidade. De uma forma periódica, acontecem também os “Encontros Com Pedal”, encontros informais onde os amantes das bicicletas se reúnem para passeios temáticos ou para pedalar juntos e conhecer parceiros que a estes eventos se associam.

Muitos se questionarão da pertinência de juntar um grupo de pessoas a pedalar pela cidade. Se vale a pena todo o trabalho de coordenação e logística envolvido, para colocar um número, nem sempre previsível, mas sempre significativo, de ciclistas a circular pela cidade. Na Braga Ciclável, acreditamos que sim! É pela presença nas ruas, seja ela conjunta ou individual, que nos fazemos sentir.

Todos os dias vemos aumentar o número de pessoas que utilizam a bicicleta nos seus percursos. Nuns mais do que em outros. Basta que tiremos um par de horas, durante um dia da semana, e nos sentemos numa esplanada do eixo Rua D. Diogo de Sousa/Rua do Souto, sobretudo nas horas pré e pós horário de expediente, para perceber a enorme quantidade de pessoas que se arrisca por este percurso em bicicleta. “Arrisca” porque se trata de uma zona pedonal que, quiçá, pela presença continua de ciclistas, poderá ver o seu estatuto e condições infraestruturais revistas pelas autoridades competentes.

Mas não são apenas as instituições, como o Município ou as forças de segurança, que pretendemos sensibilizar. Queremos também fazer-nos notar junto dos automobilistas, queremos familiarizá-los com a circulação de bicicletas nas estradas para que se possa construir um respeito mútuo. Existem regras de trânsito a respeitar, nomeadamente no que diz respeito a distâncias de segurança, mas acima de tudo, existem princípios morais e humanos a preservar.

É preciso insistir, estranhar, para depois entranhar e aceitar.

#BragaZeroAtropelamentos

#BragaZeroAtropelamentos


Os acidentes rodoviários condicionam a morte a 1,35 milhões de pessoas, sendo a oitava causa de morte, no mundo, segundo a World Health Organization (WHO). Contudo, ao nível da faixa etária entre os 5 e 29 anos, é a primeira causa de morte.

Mais de metade das mortes acometem os utilizadores vulneráveis: peões, utilizadores de bicicleta e motociclistas.

Em 1997, surgiu, na Suécia, um pensamento novo, sobre os problemas de mobilidade atual e dinâmicas da cidade: a Visão Zero. Ao introduzir e implementar esta forma de pensar a mobilidade, com o foco na redução efetiva da mortalidade, os suecos implementaram medidas de segregação, dos intervenientes na mobilidade urbana, criando mais separadores centrais, ciclovias e passeios. Com a implementação destas medidas, mais humanistas, obtiveram uma redução de 66% de mortes por acidentes rodoviários. Neste momento, a Suécia apresenta 2,8 mortes por cada 100.000 habitantes e Portugal 5.1. A média europeia de peões, vítimas mortais, por milhão de habitantes era de 11, em 2015, e em Portugal, na mesma altura, de 14.

Bogotá, por exemplo, já implementa medidas de redução da mortalidade rodoviária desde 1996, com o favorecimento de vias BUS, reduzindo as vias automóveis, introduzindo 300 Km de vias Cicláveis e 60.000m2 de infraestruturas para peões. Em 2017, adotaram a Visão Zero, com uma coordenação global para redução efetiva das mortes nas estradas, e os resultados começam a ser evidentes.

A República da Coreia apresenta o 3º maior declínio de mortes nas estradas, após ter avaliado as zonas de maior risco, para os utilizadores vulneráveis, e implementado separações seguras dos peões, criando School Bus regulados e Zonas Escola, sendo estas as áreas de maior limitação de velocidade.

São necessárias medidas de contenção da velocidade nos centros urbanos, os locais onde ocorrem a maioria dos atropelamentos. Em 2018, 70% dos Atropelamentos, em Portugal, ocorreram dentro de localidades. Um aumento de 1% da velocidade automóvel aumenta o risco de acidentes fatais em 4% e um aumento de 3% do risco de acidentes graves. Já uma redução de 5% da velocidade reduz em 30% o risco de acidentes fatais, segundo a WHO.

A implementação de zona urbana com velocidade máxima, real, permitida, de 50km/h e 30Km/h, em áreas residenciais é urgente. Não se pode garantir a segurança em áreas residenciais com velocidades de 50Km/h. As, assim, chamadas Zonas 30 exigem que se implementem medidas concretas que dificultem velocidades superiores: não basta colocar sinaléticas e pintar o asfalto, é preciso introduzir, na estrada, medidas que obriguem o seu cumprimento. Muitas cidades colocam floreiras, obstáculos, nas vias de circulação automóvel, para que os veiculos as tenham que contornar, e, assim, abrandar.

Só com esta real obrigatoriedade de redução da velocidade automóvel é que se pode garantir segurança a quem deseja mover-se ativamente em segurança (andar a pé, ou de bicicleta). Mikael Colville-Andersen, um especialista em urbanismo, e grande incentivador à promoção da mobilidade ativa, sugere que nas zonas onde se pode circular de automóvel a 50Km/h não se deve incentivar a andar de bicicleta: nesses locais devem ser criadas áreas segregadas para garantia de segurança.

Recentemente, foram publicados os resultados do estudo DAWN 2 (Diabetes, ATTITUDES, WISHS and NEEDS) que avaliou atitudes, desejos e necessidades das pessoas que vivem com o diagnóstico de diabetes, familiares e cuidadores, bem como profissionais de saúde. Neste estudo fica bem patente que 2 em cada 5 pessoas gostariam de ser fisicamente ativas. O mesmo estudo conclui que a maioria das pessoas refere necessitar de locais adaptados e seguros para a prática de exercício físico, junto da sua área de residência.

Ora, se é necessário implementar medidas de combate à diabetes, ao sedentarismo, à obesidade, entre outras, então, para melhorar a qualidade de vida, assim como a esperança média de vida, a sociedade tem de garantir segurança, para quem se deslocar ativamente. A limitação automóvel nos centros das cidades, exigindo percursos menos amigáveis aos carros e percursos diretos aos utilizadores de bicicleta, peões e utilizadores de transportes público, é um passo fundamental e obrigatório. Só assim se vai garantir a segurança e o estímulo para a utilização da bicicleta, garantindo também democracia na escolha do meio de transporte. Hoje em dia, grande parte das nossas cidades estão “proibidas ao peão e aos utilizadores de bicicleta”, seja pelo ruído, pela poluição, ou pela perigosidade de determinadas vias (ausência de passeios, ausência de ciclovias em zonas que permitem grande velocidade automóvel).

O impacto económico nacional da mortalidade nas estradas é  imenso. Um estudo da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, realizado por Arlindo Donário e Ricardo Santos, revela que o custo que a sociedade portuguesa teve com vítimas mortais, no período entre 1996 a 2010, foi de 0.5% do Produto Interno Bruto, desse mesmo período.  (http://www.ansr.pt/SegurancaRodoviaria/Publicacoes/Documents/Custo%20dos%20Acidentes%20de%20Via%C3%A7%C3%A3o%20-%20Miolo%20-%20FINAL12.pdf)

Com uma Visão Zero podemos reduzir francamente o número de acidentes, a sua gravidade e facilitar uma maior prática da mobilidade ativa.

Nesse sentido, a Braga Ciclável lançou, e promove, o movimento #BragaZeroAtropelamentos que pretende congregar esforços, de todas as forças vivas da cidade, partidos, forças de segurança, para promoção desta visão de mobilidade, comprovadamente eficaz, e que favorece a saúde e bem estar dos Bracarenses.

Só com uma visão mais humanista da mobilidade, teremos garantias de promoção da mobilidade ativa e segura, promoção de estilos de vida saudáveis, melhoria da qualidade do ar, melhoria do ruído nas cidades e diminuição da mortalidade global nacional, aumentando a esperança média de vida.

Uma oportunidade para desacelarar

Uma oportunidade para desacelarar


O compasso em que vivemos as nossas vidas é cada vez mais acelerado e stressante e muitos de nós somos absorvidos pelo caos, a pressão e a pressa, levando a que a nossa mente se transforme numa autêntica autoestrada.

Andar de bicicleta no dia-a-dia é uma boa forma de reivindicar o nosso próprio tempo e focar a atenção no presente. É um excelente meio para criar um espaço mental livre e estarmos conectados com as nossas emoções, sensações físicas e com o meio envolvente. Assim, esquecemos e pedalamos para o lugar onde queremos ir com a mente atenta aos sons, à paisagem e a nós. A consciência que desenvolvemos ao andar de bicicleta ajuda-nos a libertar preocupações e a escapar a padrões de pensamento negativos. Somos confrontados com os nossos medos e com os nossos limites e superamos a cada momento desafios, tornando-nos mais autossuficientes e independentes.

A investigação tem revelado que utilizar a bicicleta na rotina diária, além de tornar o corpo mais saudável, apresenta grandes benefícios também para o cérebro aumentando a produção de proteínas usadas para o desenvolvimento de novas células cerebrais. Estando também cientificamente comprovados os benefícios para a saúde emocional, ajudando a combater a depressão e ansiedade. De acordo com autorrelatos de utilizadores de bicicleta, presentes consistentemente em diversos estudos, verifica-se que os fatores psicológicos como relaxamento, redução de stress, diversão, prazer e interação social são as principais motivações para o início e/ou continuidade da utilização da bicicleta como modo de transporte.

Quando estamos dentro da carapaça de um automóvel, estamos demasiados focados no destino, em chegar o mais rápido possível, levando a que o espaço temporal entre o partir e o chegar seja quase um tempo morto, uma perda de tempo – estar preso no trânsito é sempre um constrangimento, todos nós sabemos. Quando a deslocação é feita através da bicicleta o percurso é o encanto maior da viagem, possibilitando uma infinidade de conexões intermediárias que geralmente são muito valiosas e que conduzem a uma ótima sensação de bem-estar. O tempo do percurso deixa de ser apenas um tempo de deslocação e passa a contar como tempo útil, como tempo de vida.

@Diário do Minho, 15 de junho de 2019

Será a mobilidade ciclável um bom investimento público?

Será a mobilidade ciclável um bom investimento público?


A análise do custo/benefício deve ser um aspeto fundamental de suporte às decisões de investimento público. No entanto, este tipo de análises nem sempre são um exercício simples: se por um lado, os custos não se restringem aos que estão diretamente associados a uma dada obra, por outro, a totalidade dos benefícios não se faz sentir no imediato.

Esta introdução vem a propósito de um estudo que se dedica a analisar o custo/benefício dos investimentos feitos em mobilidade ciclável na cidade espanhola de Sevilha.

A partir do ano de 2003, foi estabelecido um plano que transformou Sevilha numa improvável cidade modelo para a mobilidade ciclável. Do plano fizeram parte a construção de cerca de 140km de ciclovias urbanas, um sistema de bicicletas partilhadas com 260 pontos de partilha e “bicicletários” para o parqueamento de cerca de 5000 bicicletas. Com este plano, entre 2006 e 2011 houve um aumento, em números redondos, de 6.000 para 70.000 utilizadores regulares da bicicleta. No entanto, terá sido ele um bom investimento de dinheiros públicos?

Um estudo realizado por uma equipa liderada pelo professor de Economia da Universidade de Sevilha, José Ignacio Castillo Manzano, publicado em 2017 na revista Land Use Policy, assegura que sim. Nele foram considerados não só os custos diretos deste investimento como também os custos de manutenção e outro tipo de custos, como por exemplo o aumento do número de acidentes entre carros e bicicletas (que, naturalmente, aumentou em números absolutos devido ao aumento do número de bicicletas). Do lado dos benefícios pesaram na balança, por exemplo, a redução dos custos associada à diminuição da emissão de poluentes, a redução do tempo médio das deslocações, as poupanças relacionadas nos custos de manutenção dos veículos a motor, que passaram a fazer menos quilómetros, etc. Feitas as contas, e considerando um prazo de 25 anos, o investimento na mobilidade ciclável terá, em Sevilha, um retorno de cerca de 130% do valor investido, o que, de acordo com o autor, é um valor muito significativo quando comparado com outras infraestruturas urbanas e do setor dos transportes.

@Diário do Minho, 1 de junho de 2019

Utilizadores de uma roda menor

Utilizadores de uma roda menor


Se pudesse diferenciar a vida do comum cidadão, em termos da utilização da bicicleta, diria que há 3 fases fundamentais.

A primeira, em criança, onde muitos tivemos a sorte de nos oferecerem uma bicicleta à nossa medida e de acordo com as nossas capacidades, ou falta delas. Passado pouco tempo, as rodinhas extras desaparecem e logo depois evolui-se para uma bicicleta ligeiramente maior.

Nem todos chegam à segunda fase, que se prolonga até à nossa juventude. Aos que
chegam, é-lhes oferecida uma bicicleta, numa fase de descoberta inicial do nosso território, que se prolonga para uma utilização já avançada, que pode incluir desde meras deslocações até voltinhas na estrada ou pelo monte.

Chegamos à terceira fase quando chega a altura de tirar a carta, onde o apelo do automóvel rouba todo o protagonismo aquele objecto até então tão fundamental nas nossas vidas, a bicicleta. O conforto do carro, o suposto estatuto e alguma liberdade permitida pelo carro são alegadamente difíceis de igualar pela bicicleta e esta é rapidamente relegada para os fundos da garagem.

São muito poucos os que fazem questão de continuar a utilizar a bicicleta de uma forma regular e muito menos aqueles que insistem em ver o óbvio, ou seja a bicicleta como uma forma prática, barata e racional de locomoção em pequenos trajectos.

É, portanto, natural, que a maioria continue a ver a bicicleta como um “filho de um Deus menor” no que concerne à sua locomoção para o resto da sua vida. Para a maioria é fundamental ter estatuto e isso passa por utilizar um carro, preferencialmente daquelas marcas mais valorizadas. Socialmente ainda não é aceitável que nos desloquemos de bicicleta.

À conta desta mentalidade, fomos construindo estradas e cidades, rapidamente entulhadas de carros e filas intermináveis. Aos que continuam a ver a bicicleta como um modo de locomoção, resta-lhes, alegadamente, sujeitarem-se a perigos vários e a uma infra-estrutura carrocéfala, a qual não leva em conta o modo de transporte mais racional, barato e ecológico, a bicicleta!

“Braga Ciclável acusa Câmara de desistir das bicicletas”

“Braga Ciclável acusa Câmara de desistir das bicicletas”


ASSOCIAÇÃO questiona não execução da primeira fase da rede ciclável estruturante da cidade. Câmara Municipal é criticada por desperdiçar fundos comunitários para a mobilidade suave.

“A Câmara Municipal de Braga desistiu de apostar na mobilidade activa, e mais concretamente nas bicicletas”, denunciou ontem a direcção da Associação Braga Ciclável.

Em conferência de impresa para abordar o tema ‘A modalidade em bicicleta em Braga’, aquela associação questionou a não execução de um projecto aprovado pela Câmara Municipal, por unanimidade, em Dezembro de 2017, que previa a construção de uma primeira rede ciclável estruturante com uma extensão de 22 quilómetros. “Não terá sido por problemas financeiros, uma vez que havia um envelope financeiro comunitário destinado a isso”, responde a própria direcção da ‘Braga Ciclável’, que lembra ter sido esta uma proposta eleitoral do actual executivo autárquico.

A primeira fase da rede estruturante, investimento na ordem dos 11 milhões de euros, prevê a criação de pistas cicláveis na Avenida da Liberdade, Avenida 31 de Janeiro, em toda a Rodovia e na ciclovia de Lamaçães.

O plano de actividades da Câmara Municipal para 2019 estima 1, 8 milhões de euros apenas para a regeneração desta última ciclovia, que será aumentada em 800 metros até ao ‘campus’ universitário de Gualtar.

Sobre a “regeneração da ciclovia de Lamaçães”, a ‘Braga Ciclável’ defende revisões do projecto, nomeadamente no prolongamento à Universidade do Minho, adiantando que “não se pode usar a regeneração de uma via como sendo a grande estratégia e o impulsionador da mobilidade em bicicleta de uma cidade”.

Na tomada de posição de ontem, a associação que tem como fim aumentar as condições para o uso da bicicleta como meio de transporte entende que a Câmara Municipal “desistiu de criar condições para os seus residentes utilizarem a bicicleta como modo de transporte e, em vez disso, voltou a falar e apostar apenas no trânsito automóvel”.

Depois de terem ficado “sem resposta” a um pedido de reunião com o presidente da Câmara Municipal, os dirigentes da ‘Braga Ciclável’ criticam o “aparente desinvestimento” na mobilidade activa, alertando que o mesmo “está em contracorrente com centenas de cidades europeias, que têm reforçado as suas políticas no domínio da mobilidade com bicicleta”.

Dizem não entender também “como se desperdiçam fundos europeus que visam uma melhoria da qualidade de vida dos bracarenses, proporcionando-lhes mais e melhores opções de mobilidade, com todos os benefícios clínicos, ambientais e económicos que daí poderiam advir”.

+mais: A ‘Braga Ciclável’ recorda que o Município de Braga estabeleceu o objectivo de 18 mil utilizadores de bicicleta nas deslocações citadinas em 2025. Actualmente, serão apenas 800 as pessoas que recorrem a este meio de transporte.

@Correio do Minho, 17 de Maio de 2019