Livros com pedal – Books by bike

Livros com pedal – Books by bike


Nos dias 6 e 7 de setembro, duas bicicletas iluminadas com leds vão circular nas ruas do centro histórico e oferecer livros, sugestões de leitura e um flyer desenvolvido pela Braga Ciclável.

A organização está ao cargo da BLCS – Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em parceria com a Associação Braga Ciclável e o Grupo de Teatro Malad’arte.

Quanto mais pedalo mais gosto de ti

Quanto mais pedalo mais gosto de ti


Não é fácil ser-se ciclista em Portugal e, pela minha experiência, é muito difícil ser-se ciclista em Braga. Descrever o que é um ciclista é algo que não é simples, pois pode ser o mero utilizador ocasional da bicicleta, um desportista que vai ou para o monte com a sua btt ou para a estrada com a sua bicicleta de estrada, ou mesmo aquele cidadão que utiliza a bicicleta no seu dia-a-dia, que pode incluir a ida para o trabalho, às compras ou uma mera voltinha urbana. Sim, é um dia-a-dia real para cada vez mais cidadãos, que aumenta exponencialmente quando as infra-estruturas surgem. Urge combater a carrocefalia e promover mais e melhores transportes públicos, mais e melhores áreas pedonais e os modos suaves, onde a bicicleta tem um papel preponderante. E menos veículos na cidade, pois o caminho é este!
Também não é fácil lidar com tanto preconceito e, diga-se, ódio para com os ciclistas, por parte de alguns automobilistas, que veem as bicicletas como uma ameaça ao seu feudo automóvel. Ou então lidar com as ainda frequentes razias ou “chega para lá” por parte de alguns. Eu já fui alvo de razias por parte de camiões, autocarros e automóveis. Já tive de me mandar para a berma para não ser atropelado. E não, não passo os vermelhos ou as passadeiras de bicicleta.
Assusta ler as caixas de comentários das redes sociais sempre que a PSP ou a GNR sensibilizam para a necessidade de dar 1,5 metros aos ciclistas. Tanta intolerância e ódio para quem opta pelas bicicletas e tanta tolerância e passividade perante centenas de mortes nas estradas. Preocupante!
Contudo, e mesmo apesar disto tudo, quanto mais pedalo mais gosto das bicicletas. É um meio de transporte barato e tremendamente eficaz nas pequenas e médias distâncias, não paga estacionamento, não polui, não congestiona, promove a saúde e o bem-estar. E a sensação de alegria é uma verdadeira maravilha que não desaparece com os anos. Chega-se ao trabalho mais contente e é-se mais produtivo. Claro que há que utilizar o vestuário indicado para a ocasião, algo esquecido por muitos.
Para quem, como eu, sempre andou de bicicleta e nunca parou de o fazer, as coisas são mais fáceis, mas para quem anda pouco de bicicleta, as coisas são mais difíceis. Há toda uma forma de condução defensiva que é necessário promover, algo que faz com que muitos andem de bicicleta em alguns passeios, algo que compreendo e, diga-se, defendo em casos específicos, onde é possível a coabitação de peões e ciclistas. Urge reflectir!

Uma viagem até ao mundo das bicicletas

Uma viagem até ao mundo das bicicletas


Olá, eu sou a Sandra tenho 24 anos e sou Engenheira Informática e, portanto, tenho pela frente uma vida propícia a muita movimentação, atividade física e energia. Só que não!

Comecei a trabalhar há cerca de dois anos no Porto e, como tal, o uso de transportes públicos e o uso do carro faziam parte do meu dia-a-dia. Todos os dias fazia a viagem Braga-Porto, Porto-Braga. Eram duas horas do meu dia despendidas a andar de autocarro, que somadas às oito horas de trabalho me tiravam qualquer energia existente para praticar qualquer tipo de exercício físico.

Enquanto isso, via as pessoas à minha volta a começarem o dia a caminhar, a correr e a deslocarem-se de bicicleta para o trabalho. Também eu queria fazer parte deste grupo de pessoas.

Quando surgiu a oportunidade de me mudar para Braga uma das coisas que tive em conta na minha decisão foi a possibilidade de poder transformar a aborrecida viagem casa-trabalho em algo agradável.

Tinha já em mente mil e um planos, mas como qualquer grande parte das boas intenções que temos não passa disso mesmo…uma boa intenção. Optei pelo caminho mais fácil: deslocar-me de carro e a mudança de uma hora para oito minutos de viagem parecia fantástica e até me dava a ilusão de ganhar tempo para fazer o tão necessário exercício. Isto até me deparar com o tão desagradável trânsito da Universidade. Aí já não eram 8 minutos, mas sim tempos infinitos no pára-arranca que me deixavam frustrada e maldisposta.

Com a chegada dos dias de sol todo o propósito da mudança da vida sedentária voltou a ganhar força, de tal forma que reparei numa alternativa mesmo em frente dos meus olhos: tinha perto de mim e ao meu dispor uma ciclovia que ligava a Universidade ao Polo de Negócios, o meu atual local de trabalho. Era a altura certa para a mudança!

Juntei o gosto que sempre tive por andar de bicicleta ao encorajamento, que o meu namorado e amigos me davam, para tirar o pó à bicicleta que estava parada em casa e a trazer até as ruas da cidade de Braga.

Fiz a minha primeira viagem a medo, não vou mentir. O trânsito infernal, a velocidade a que os carros circulam na zona das rotundas da Universidade e do INL, aliadas à falta de respeito que os condutores tinham e têm para com os ciclistas assustavam-me. Ainda hoje me sinto insegura até chegar à zona em que realmente existe a ciclovia, mas a verdade é que sinto que isso é um mal menor comparado com a energia e boa disposição que a bicicleta repôs nas minhas manhãs e finais de tarde. A vontade de pedalar deu lugar ao cansaço e stress que acabam por ficar pelo caminho.

Deixei o carro, poupei no combustível, passei a contribuir para o bem do planeta e, sem perceber, cumpri o desejo de voltar a introduzir o exercício físico e, desse modo, melhorar a minha qualidade de vida.

Os problemas de mobilidade em Braga

Os problemas de mobilidade em Braga


Nos últimos seis anos, em Braga, as questões associadas à mobilidade têm sido negligenciadas, ignoradas, adiadas. Penso que a maioria dos bracarenses concorda que o trânsito está mais caótico e que urge intervir na resolução dos problemas de mobilidade que se vão agravando.

A cidade continua muito car-oriented, apesar dos discursos apontarem noutras direções (multi-modalidade, modos suaves, transportes públicos). Diz-se uma coisa, mas no terreno nada se faz de acordo com essa narrativa.

Vejo problemas a duas escalas: micro e macro. Ao nível macro, é necessário intervenções nos seguintes temas: combate às velocidades elevadas, desvio do trânsito de atravessamento, ligação rua Nova Santa Cruz – rua D. Pedro V, nó de Infias, construção de ciclovias, aumento do número de faixas bus, melhoria do transporte público, implementação do transporte BRT.

Ao nível micro, é necessário intervir mais naquelas pequenas coisinhas que, somadas, impedem que exista em Braga uma melhor mobilidade. Refiro-me, por exemplo, ao estacionamento em paragens de autocarro, em cima dos passeios, nas zonas de carga/descarga, em 2.ª ou mesmo 3.ª fila, em rotundas, nas zonas ajardinadas, etc. A inação das forças policiais perante estes casos torna este um problema sem resolução e que impede a implementação efetiva de outras medidas. Para que servirá construir uma ciclovia se depois os automóveis a podem usar para estacionar? (como sucede na rua Nova de Santa Cruz); para que serve colocar pilaretes numa rotunda se depois os carros lá estacionam na mesma? (como sucede na rotunda junto ao colégio D. Diogo de Sousa).

Não se vê também o executivo camarário a aprender com os casos de sucesso ao nível micro. Vejamos dois exemplos: (1) foi implementada a circulação de bicicletas em contra-fluxo nas ruas D. Pedro V e São Vítor; (2) junto à escola André Soares, uma paragem de autocarro foi circundada por pilaretes, dificultando os carros de ocupar essa paragem para estacionamento. Se estas duas experiências parecem ter-se revelado positivas, por que razão não são replicadas? Aliás, esta abordagem de implementar coisas de forma ágil e iterativa e sem grandes investimentos, deveria ser experimentada noutros contextos. A ideia genérica consiste em experimentar uma dada alternativa com recurso a soluções provisórias (e de baixo custo). Se a mesma se revelar positiva, passa-se à solução definitiva. Se não, reverte-se a experiência e retoma-se a configuração inicial.

Devo dizer que não tenho qualquer esperança em ver alterações significativas nesta matéria. Se ao fim de quase seis anos, nada de relevante se fez, é muito provável que nos próximos dois/três anos nada se fará. O executivo de Ricardo Rio não revelou capacidade/competência para avançar com medidas que há muito fazem todo o sentido. Em alguns casos, anunciou obras que depois não saíram do papel (e.g., 80 km de ciclovias, atravessamento Nv. Sta. Cruz – D. Pedro V).

Verdadeiramente que foi feito de relevante em Braga neste período na mobilidade? Pouco, muito pouco, quase nada. A péssima intervenção na rua Nova de Santa Cruz, a obra mais impactante feita pela CMBraga na mobilidade, foi um acumulado de erros. A obra foi mal planeada, foi mal executada e está já muito degradada. Tanto assim é, que não houve sequer coragem para a inaugurar. Este exemplo talvez nos aponte a razão para a CMBraga não fazer nada (de significativo) no domínio da mobilidade. Se for para mudar para pior, talvez seja mais prudente não fazer nada!

A Pertinência dos Eventos

A Pertinência dos Eventos


Aconteceu em Braga, no passado dia 29 de Junho, o “V Braga Cycle Chic”. Um evento anual que, através de um passeio de bicicleta pela zona envolvente ao centro histórico da cidade, pretende promover a utilização da bicicleta em contexto urbano, no dia-a-dia. Cerca de duas semanas antes, no dia 16 de Junho, acontecia o “Ciclo Passeio Solidário de São João”. Um passeio de bicicleta, desta feita de cariz solidário e com um percurso mais alargado, dotado de uma componente informativa e histórica sobre aquela que é a maior festividade da cidade. De uma forma periódica, acontecem também os “Encontros Com Pedal”, encontros informais onde os amantes das bicicletas se reúnem para passeios temáticos ou para pedalar juntos e conhecer parceiros que a estes eventos se associam.

Muitos se questionarão da pertinência de juntar um grupo de pessoas a pedalar pela cidade. Se vale a pena todo o trabalho de coordenação e logística envolvido, para colocar um número, nem sempre previsível, mas sempre significativo, de ciclistas a circular pela cidade. Na Braga Ciclável, acreditamos que sim! É pela presença nas ruas, seja ela conjunta ou individual, que nos fazemos sentir.

Todos os dias vemos aumentar o número de pessoas que utilizam a bicicleta nos seus percursos. Nuns mais do que em outros. Basta que tiremos um par de horas, durante um dia da semana, e nos sentemos numa esplanada do eixo Rua D. Diogo de Sousa/Rua do Souto, sobretudo nas horas pré e pós horário de expediente, para perceber a enorme quantidade de pessoas que se arrisca por este percurso em bicicleta. “Arrisca” porque se trata de uma zona pedonal que, quiçá, pela presença continua de ciclistas, poderá ver o seu estatuto e condições infraestruturais revistas pelas autoridades competentes.

Mas não são apenas as instituições, como o Município ou as forças de segurança, que pretendemos sensibilizar. Queremos também fazer-nos notar junto dos automobilistas, queremos familiarizá-los com a circulação de bicicletas nas estradas para que se possa construir um respeito mútuo. Existem regras de trânsito a respeitar, nomeadamente no que diz respeito a distâncias de segurança, mas acima de tudo, existem princípios morais e humanos a preservar.

É preciso insistir, estranhar, para depois entranhar e aceitar.

Acelerar as cidades: O século da bicicleta

Acelerar as cidades: O século da bicicleta


“Você é um fundamentalista, um extremista!”, grita alguém quando, numa troca de ideias sobre mobilidade, se vê desarmado pelos argumentos que demonstram a eficácia e eficiência da bicicleta nas deslocações da cidade. E quando esta acusação é feita, vale sempre a pena lembrar que hoje as nossas cidades são dedicadas praticamente em exclusivo ao automóvel, havendo um extremismo exacerbado, de tal modo que se consegue desculpar tudo, até as mais de 500 mortes por ano provocadas por esta máquina do século passado, que é o automóvel.

Não defendo que todas as deslocações nas cidades devem ser feitas em bicicleta. Como também não defendo que devem ser todas feitas com recurso ao carro. A verdade é que a era do automóvel dominador nas cidades terminou. Mas, para isso se notar efetivamente, não basta convidar as pessoas a mudar o “chip” e passar a utilizar a bicicleta em detrimento do carro, ou ensinar os alunos na escola a pedalar para poderem ir para a escola sozinhos. Nenhum pai deixará o filho ir para a escola sozinho se este tiver de utilizar uma rua, dentro dos limites da cidade, onde as velocidades registadas são superiores às permitidas até em autoestrada.

A aposta na sensibilização nas escolas é importante, fundamental até, mas a sua comparação com o que foi feito no mesmo sentido para a reciclagem não é séria. Isto porque, quando se aplicou nas escolas o programa da reciclagem e o Gervásio nas televisões demorava apenas alguns minutos a separar o lixo e acertar no caixote, a infraestrutura adequada para a separação dos resíduos estava colocada nas cidades. Ou seja, as cidades primeiro prepararam-se para a reciclagem e só depois ensinaram a reciclar. O contrário seria só gastar energia.

Também não se pode justificar a falta de investimento na reorganização das vias com a falta de pessoas a utilizar a bicicleta. Isto porque, enquanto não tivermos uma cidade com infraestruturas adequadas e seguras para a utilização da bicicleta, não vamos ter mais do que 3% de pessoas a utilizar a bicicleta nas cidades. Nos anos 50, quando em Braga se começaram a abrir grandes Avenidas com 4 e 6 vias numa altura, o número de pessoas que possuía um carro na cidade contava-se pelos dedos. Ainda assim construiu-se e convidou-se à sua utilização, marginalizando as pessoas que andavam noutros modos de transporte e/ou a pé, retirando-lhes até o direito de atravessar a rua de um lado para o outro.

Os decisores já deviam ter percebido que as pessoas querem poder optar, em segurança, pelo modo de transporte mais adequado à sua deslocação. E, se já se aperceberam disso, deviam, então, estar a reorganizar as suas ruas para permitir às pessoas uma escolha em segurança. Sem grandes conselhos ou grupos de trabalho a mastigar os diagnósticos. É preciso executar e é preciso fazê-lo já!

É preciso reduzir efectivamente as velocidades nas cidades, implementando medidas de acalmia de tráfego em toda a cidade, e não apenas nos bairros residenciais de forma isolada. É preciso criar redes cicláveis a sério. Não desenhar e construir “nas sobras”. É preciso pegar numa rua, manter ou fazer crescer o passeio, dedicando esse espaço só e apenas ao peão, e, depois, pegar na faixa de rodagem e reorganiza-la ou acalma-la. E tanto podemos pegar numa Avenida 31 de Janeiro e Avenida da Liberdade e gastar 3 milhões, como podemos, numa primeira fase, gastar 150 mil euros e organizar a faixa de rodagem para receber bicicletas, transportes públicos e carros, tudo isto deixando imaculados os passeios, onde o peão deve ser rei e ver-se livre, sobretudo, dos carros mal estacionados, que invadiram as cidades e ocupam todo o espaço que lhes é dado. Mas também é preciso evitar que pessoas de bicicleta, trotinetes, skates circulem nos passeios. Para isso, é preciso garantir que a circulação na faixa de rodagem é segura e não é um risco que pode levar à morte – que é o que acontece hoje.

Hoje, ainda não é seguro utilizar a bicicleta nas nossas cidades. É possível, mas ainda não há condições de segurança nas nossas ruas. É por isso importante começar já a fazer alterações, ora com repinturas e balizamentos das ruas – que são intervenções baratas –, ora com intervenções de fundo que levam a desvios de redes e alterações profundas ao perfil da rua.

As metas traçadas até 2025 e 2030, quer a nível local, quer a nível nacional, só serão alcançáveis com uma reorganização das nossas ruas. Manter tudo igual e convidar as pessoas a utilizar a bicicleta, ou pintar passeios de vermelho e dizer que se tem ciclovias não vai fazer com que o número de utilizadores cresça. É preciso levar a sério a bicicleta, porque esta, em conjunto com o transporte público, as trotinetes, os patins, os skates e outros modos de mobilidade ativa e suave, são o futuro das cidades em termos de mobilidade. Esquecer ou reduzir a importância da bicicleta no sistema de transportes de uma cidade será o maior erro do século.