Antes que o Boato seja Lei

Antes que o Boato seja Lei

Sou pouco de ligar a boatos e muito menos de os comentar, mas chegou-me aos ouvidos, por fonte mais ou menos fidedigna, que o actual executivo planeia proibir a circulação de bicicleta na zona pedonal de Braga. Tendo em conta a gravidade da situação, decidi partilhar a minha opinião (que é para isso que serve este espaço) na sincera esperança que tenha de me retratar no futuro e dizer “peço perdão, era mesmo um boato maldoso”.

Nunca consegui entender a aversão que existe para com os ciclistas, mas é uma coisa que é por demais evidente. Os automobilistas exasperam quando têm de andar no centro urbano a velocidade reduzida porque a bicicleta vai “devagar”. Os peões odeiam quando uma bicicleta se passeia pela zona pedonal, mesmo que com muito cuidado, muito devagar e contornando as pessoas e saltam logo com um grito “as bicicletas são para a estrada!” Apesar de o uso da bicicleta ser um meio de transporte amigo do ambiente – não causa ruído nem emissões -, seguro – também não causa acidentes com feridos graves – e económico, apesar de todos os fóruns mundiais de mobilidade e do ambiente louvarem este meio e o colocarem no pedestal como o meio de transporte urbano do futuro, ninguém em Braga o quer ver pela frente e isto, para mim, é muito estranho!

Por outro lado, não vejo o actual executivo, os automobilistas e os peões a bradar aos céus com os mil carros que circulam e estacionam na zona pedonal, às vezes transformando praças históricas em parques de estacionamento, como acontece frequentemente com o Rossio da Sé ou o Campo da Vinha. Também não vejo ninguém a reclamar dos excessos de velocidade que todos os meses causam feridos e mortes naquela “autoestrada” que atravessa a nossa cidade. Nem ninguém a chamar a polícia para multar os imensos carros que estacionam nos passeios obrigando os peões a circular no paralelo.

A confirmar-se o boato de retirar a circulação de bicicletas na zona de pedonal, torna-se absolutamente evidente de que Braga é e sempre será uma cidade desenhada por automobilistas e para automobilistas e garanto-vos, caros leitores, o futuro já não é por aí.

Boas festas!


(Artigo originalmente publicado na edição de 23/12/2017 do Diário do Minho)

Bracarenses no mundo: a pedalar em Aarhus – Capital Europeia da Cultura 2018

Bracarenses no mundo: a pedalar em Aarhus – Capital Europeia da Cultura 2018

Recentemente viajei até à Dinamarca. Aarhus era destino desconhecido e agora admirado. Podia ter ido a Copenhaga, mas a Copenhaga é mais fácil de ir de avião do que a Aarhus. Podendo ir até lá de carro (estou temporariamente a trabalhar na Alemanha) e aproveitar a paisagem dinamarquesa é para aproveitar.
Coincidentemente Aarhus é Capital Europeia da Cultura 2017 e, portanto, mais um motivo para lá ir.

No caminho para Aarhus é fácil de perceber que a cultura da bicicleta é isso mesmo, cultura. Não é um incentivo governamental nem tão pouco um desporto, é algo intrínseco nos dinamarqueses.
Assim que chego a Aarhus, percebo que distância entre o uso de automóvel e da bicicleta é muito pequena. O espaço é partilhado de forma igual (com as devidas proporcionalidades) e a cidade respira mobilidade com espaço para peões, bicicletas, transportes públicos e automóveis a coexistirem harmoniosamente.

No caso específico da bicicleta, foi interessante notar que apesar de existirem bastantes infra-estruturas orientadas ao uso da mesma, as pessoas basicamente parecem utilizar o bom senso quando circulam de bicicleta. As regras existem, são de forma geral cumpridas, mas se tiverem que quebrar uma regra o bom senso impera e as pessoas são cautelosas e atentas a quem está à sua volta. Acho que Aarhus transparece um pragmatismo (já observado por mim na Alemanha) em que a primazia é dada ao sentido prático no uso da bicicleta e no não uso do automóvel. Um certo pragmatismo, quanto a mim, valiosíssimo. Que talvez merecesse uma importação para Portugal.

Observando o dia a dia em Aarhus, foi fácil reparar em como é surpreendente o resultado das políticas de mobilidade. Milhares de bicicletas por todo o lado, transportes públicos muito variados e muito frequentes e carros banidos do centro histórico da cidade. Gente a ir de grandes bairros na periferia para o centro de bicicleta através de grandes ciclovias. E qualquer pessoa anda em qualquer bicicleta, não só o atleta de bicicleta de montanha ou o miúdo em bicicleta “BMX”.

Nesta cidade vêem-se todos os “clichês” da mobilidade associada à bicicleta, os suportes em todos os pontos de aglomeração de pessoas, as zonas de 30, a permissão explicita de circulação de bicicletas e peões nas chamadas zonas de coexistência, ciclovias devidamente sinalizadas ao lado das principais artérias que ligam o centro e os bairros periféricos, semaforização e marcações no chão dedicadas às bicicletas nos cruzamentos mais complicados para facilitar o atravessamento e muito mais.

Vendo isto, não acredito que o facto de existirem ciclovias ou suportes para bicicletas, tenham feito algo mais por Aahrus do que o pragmatismo do povo Dinamarquês. É certo que hoje, olhando para uma ciclovia moderna que liga a periferia ao centro de Aahrus, parece que foi assim que a cidade evoluiu, ciclovia e depois ciclistas. Mas acho que foi precisamente ao contrário! Pragmaticamente o Dinamarquês olha para a bicicleta e vê uma solução para os seus problemas e os políticos acompanham com políticas de mobilidade e infra-estruturas adequadas.

Afinal de contas as estradas e o código da estrada também não apareceram antes dos carros, pois não?

Transpondo esta realidade para Braga, diria então que não precisamos só de infra-estruturas bonitas e modernas, precisamos sim de vontade e pragmatismo. Nada mais. Para resolver alguns problemas precisamos apenas que alguém amanhã, depois de ler este artigo pense, “se calhar hoje posso tentar usar a bicicleta para ir para o trabalho, porque não?”. Um de cada vez, pode ser que devagar, Braga se torne no futuro numa cidade mais adepta da mobilidade, numa cidade sem alguns problemas. Eu quero acreditar que pode.

Para mim, este pragmatismo é parte da cultura dinamarquesa. Cultura não é só teatro, cinema, ou música. Cultura é também perceber que vivemos em comunidade e o que nos afecta, também afecta, em última análise, aqueles que connosco convivem.

Em 2017, Aarhus é Capital Europeia da Cultura. A bicicleta é apenas mais uma maneira de a demonstrar.

Pedaladas Solidárias 17

Pedaladas Solidárias 17

No próximo dia 23 de dezembro, o Fundo Social do Município de Braga e a Associação de Cicloturismo do Minho organizam as Pedaladas 17, um evento que conta com o apoio do Município de Braga bem como da Associação Braga Ciclável.

O evento, de carácter solidário, tem o seu arranque previsto para as 09:30 no Largo do Pópulo (Praça Conde de Agrolongo). O evento é gratuito, sendo que os participantes devem levar bens alimentares não perecíveis que serão doados ao Banco Solidário de Braga e que, posteriormente, reverterão a favor de famílias carenciadas do Concelho de Braga.

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As bicicletas e o clima

As bicicletas e o clima

Atualmente a temperatura média do nosso planeta está cerca de 1,3°C acima da temperatura média na era pré-industrial. Parecerá coisa pouca, mas se pensarmos que 2017 se assistiu, só em Portugal, a uma das maiores secas de que há registos e a recordes máximos de temperaturas e mínimos de humidade que estiveram na origem de trágicos incêndios que causaram mais de 100 mortos, os números deixam de ser só números. Cientes deste problema, 169 países e a União Europeia (UE) assinaram e ratificaram o Acordo de Paris, comprometendo-se a um aumento máximo da temperatura média de 2,0°C em relação a 1880.

É praticamente consensual que a origem do aquecimento global está na emissão humana dos designados gases de efeito de estufa (GEE). Para essas emissões os transportes são um dos principais contribuidores. Estima-se que em toda a UE metade das viagens de automóvel são para distâncias inferiores a cerca de 5km, algo que poderá ser percorrido de bicicleta em cerca de 20 minutos. Será então a bicicleta um possível instrumento ativo no combate ao aquecimento global?

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A primeira

A primeira

Tinha oito anos e já não acreditava no Pai Natal. Ou nunca acreditei.

Defensores do reconhecimento do trabalho árduo, os meus pais nunca permitiram que um velho gordo, vestido de vermelho e com barbas brancas, ficasse com o mérito de meses de esforço a amealhar o possível para, no dia 24 de dezembro, orgulhosamente entregarem à filha aquele embrulho especial.

Tinha oito anos e não havia embrulho. Estava à vista. Era azul e branca, mais branca do que azul. Era a minha primeira bicicleta. Uma BMX. “Bicicleta de rapaz”, ouvi alguém dizer. Mas eu não queria saber de que cor era ou se um rapaz a queria. Tinha rodas, estava ali e era minha! “Só podes tocar-lhe à meia-noite”, disseram, numa espécie de teste de tortura, e a ansiedade crescia.

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Mitos sobre a utilização da bicicleta

Mitos sobre a utilização da bicicleta

Dizia-me há dias uma amiga, que começou a utilizar a bicicleta no dia-a-dia, estar totalmente perdida relativamente a implicações que, para quem usa a bicicleta com frequência são aparentemente simples e quase básicas, mas na verdade não o são e são de extrema importância.

Dizia-me então que usar a bicicleta implica tantos apetrechos que quase perde a vontade de pedalar! Capacete, roupa e colete refletor,… Sim, efetivamente há equipamentos indispensáveis a uma utilização segura da bicicleta. Mas tal não se aplica a estes dois em concreto que não são, de todo, obrigatórios. Na verdade, ambos pouca diferença fazem para a segurança de quem os usa. Não deixando de ser critério de quem os escolhe usar ou não, é sabido que em países onde a utilização dos mesmos é obrigatória não se verificam danos menores quando comparados com países onde não é obrigatório.

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Como estão as luzes da sua bicicleta?

Como estão as luzes da sua bicicleta?

Com a chegada do Outono e a recente mudança para a hora de Inverno, deparamo-nos novamente com os dias mais curtos e a noite a chegar cada vez mais cedo. O que nos leva a reiterar o nosso conselho já habitual: por favor, usem sempre luzes e refletores nas vossas bicicletas, para vossa segurança e para segurança de todos!

A lei obriga a usar luzes à noite e em condições de pouca visibilidade, mas nestas coisas não é por obrigação legal que precisamos de agir – é mesmo para salvar a nossa pele. Andar de bicicleta sem luzes à noite ou de madrugada é um comportamento de risco, cujas consequências podem ser gravíssimas. As luzes da bicicleta, mesmo que não sirvam para iluminar o caminho, servem para sermos vistos no trânsito pelos outros condutores e, deste modo, prevenir acidentes.
E vale a pena lembrar que, mesmo que não tencione circular de noite, poderá surgir um imprevisto que obrigue a viajar a uma hora mais tardia ou com céu encoberto. As luzes e os refletores, juntamente com uma condução sempre atenta e defensiva, serão as suas melhores medidas de segurança.

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O design adiado

O design adiado

As cidades de hoje, se alguma vez quiserem ser cidades do futuro, têm de se desenhar de uma forma inteligente e ponderada. Braga, nos anos 80 e 90 fez exatamente o contrário e, até à data, ainda não se conseguiu reverter esse desígnio de cimento e tráfego. Há erros gravíssimos de design na nossa cidade que a levam ao terceiro lugar no que toca a cidades poluídas em Portugal – uma rodovia que se comporta como uma autoestrada, uma circular que deveria ser externa e que divide a cidade em dois, túneis que trazem o trânsito pesado ao centro da cidade -, estruturas que não podem ser demolidas de um dia para o outro, mas isso não pode servir de desculpa para a inércia e é isso que temos visto no que toca a Braga – um rol de boas intenções e bonitas promessas e muito pouco chegou às ruas da cidade.

Uma das primeiras regras do bom design é a identificação do problema e não me parece que o atual executivo olhe para o trânsito de Braga como um problema a resolver. Nos últimos anos fizeram-se estudos em cima de estudos, planos e reuniões, experiências pontuais nas semanas da mobilidade, mas, em quatro anos, vimos muito pouca ação. Se a primeira regra do design é a identificação do problema, a segunda, e mais importante, é a resolução do mesmo e a esse nível, as questões de tráfego em Braga em 2013 são exatamente as mesmas em 2017. Ainda temos, como em 2013, uma rede ciclável inexistente, os mesmos raros pontos de estacionamento de bicicletas, engarrafamentos às portas de todas as escolas, alta velocidade automobilística no centro da cidade, estacionamento caótico e uma rede de transportes públicos ineficiente. Tudo na mesma e longe daquilo que seria uma Braga do futuro.

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Os ciclistas na área pedonal

Os ciclistas na área pedonal

A área pedonal existente no centro histórico de Braga foi aumentando ao longos dos últimos 20 anos sem nunca se pensar a sua mobilidade interna e de proximidade. Na ausência de transportes públicos a atravessá-la, temos de deslocar-nos a pé. O que, dada a sua extensão, não é tarefa fácil em caso de pressa ou de se tratar de um utilizador com mobilidade reduzida. A bicicleta é, por isso, uma excelente alternativa de circulação na área pedonal porque permite uma deslocação rápida e porta a porta.

A área pedonal é também uma via incontornável da cidade para quem a atravessa, principalmente no eixo Gualtar-Maximinos. Não só é a via mais direta, como é também a mais segura e a mais agradável (a alternativa será a perigosa rodovia a sul ou a norte). E há certamente uma vantagem para todos nós: grande partes destes ciclistas que atravessam a cidade representam menos um carro poluente a circular. E devemos estar agradecidos a quem, de forma intencional ou não, ao deixar o carro em casa contribui para uma cidade mais saudável.

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