Revisão do carro

Revisão do carro

Recebi uma mensagem e também um email: o programa de assistência à revisão do meu carro é persistente e, apesar de por vezes sugerir um visita antes de tempo, é todavia útil pois deixa-nos a cabeça livre para outras preocupações. Trabalho longe da cidade, são 20 km para um lado e para o outro e ainda que em momentos perfeitos – crianças de férias e na avó, e meteorologia de feição – o faça com a minha bicicleta dando corpo à expressão “por montes e vales”, desta vez são outros os motivos que me põem a pensar nela.

Não terei mais do que rebaixar os bancos, colocá-la na mala e seguir para o zeloso mecânico no dia combinado. “Quer boleia para algum lado?”, perguntam-me simpaticamente depois de fazer a inscrição do veículo. “Não obrigado, tenho-a aqui, no carro” e abro a mala. O funcionário afável, como são sempre agora, olha-me com um ar perplexo e divertido. Dá para ver que o gesto o deixou a pensar. Tiro-a, monto os alforges (levo o almoço e o computador) e pela pouco amiga N101, sigo para sul.

Assim que posso saio da torrente de carros, que com honestidade me parecem agora mais conscientes dos ciclistas na estrada, e sigo por caminhos pacatos. É o tempo de milho verde e, como o ar fresco da manhã (à tarde vai estar uma tosta) são para mim o Verão de verdade. Sentir isto num dia de semana, dia de trabalho, é para mim coisa de rei.

Não há estacionamento para bicicletas na empresa, é num parque empresarial grande e cheio de verde. Encosto-a à parede, ensombrada, e assim a deixo ficar todo o dia, não a prendo. Sei que é apreciada pelas pessoas que passam e que as deixa a pensar. É também muito bonita e elegante. Não vou com roupas especiais para trocar – basta-me refrescar a cara com água na casa de banho, e levo um pedaço da frescura da manhã para dentro da sala de trabalho.

Saio mais cedo, calça direita dentro da meia (já não me chateia achar que me vão gozar), alforges mais leves na grelha e retorno ao ponto de partida. Não é tão prazenteiro, a temperatura subiu, o ar está seco e o esforço é maior. Mas os pneus estão bem cheios e a senhorita roda silenciosa no alcatrão. Em 45 minutos estou outra vez no mecânico. Desta vez é outro senhor que me atende e quando percebe que vim na bicicleta sorri e diz, com sincera admiração, “O senhor é que faz bem!”. Devolvo-lhe o sorriso e sei que também este ficou a pensar.

Bancos para baixo, bicicleta na mala e para casa de janelas abertas a refrescar o rosto, desta vez não haverá forma de escapar ao duche.


(Artigo originalmente publicado na edição de 20/01/2018 do Diário do Minho)