Reflexão

Reflexão

Escrever sobre mobilidade num dia normal, sem que o leitor adormeça, é por si um desafio de certa envergadura, tendo em conta que para muitos se trata de um tema supérfluo. Escrever sobre mobilidade, num dia de reflexão pré-eleitoral, correndo o risco de involuntariamente apontar referências político-partidárias, é um desafio ainda maior. Mas cá vai!

O passado dia 22 de setembro foi o último de uma semana dedicada, a nível europeu, às questões da Mobilidade. Braga fez mais uma vez parte desta rede e o município, juntamente com algumas entidades externas, levou a cabo atividades no sentido da sensibilização, sobretudo junto dos mais jovens, para esta questão. Foi suficiente? Variadas serão as opiniões.

O argumento de que a Mobilidade deve ser algo a ser pensado e desenvolvido ao longo do ano é, na minha opinião, bastante válido desde que isso seja efetivamente uma realidade. Mas a Semana Europeia da Mobilidade é o momento ideal para reforçar essa necessidade junto da população. Apenas a título de exemplo, não respeitamos ou amamos os nossos pais apenas no Dia da Mãe ou do Pai, pois não? Fazemo-lo todos os dias (ou deveríamos), mas gostamos de os mimar um pouco mais naquele dia específico. O mesmo acontece com a Mobilidade.

Vivemos numa cidade que até há uns anos se orgulhava de permitir aos seus habitantes uma boa qualidade de vida, em grande parte associada ao pouco tempo dispensado nos percursos diários. O cenário foi-se degradando e temos hoje artérias fulcrais completamente estranguladas pelo trânsito, sobretudo em hora de ponta. Temos cada vez mais automóveis a entrar diariamente na cidade e a provocar engarrafamentos junto a escolas e serviços. Dispensamos cada vez mais tempo no trânsito quando o poderíamos canalizar a outras atividades mais produtivas e prazerosas.

Torna-se cada vez mais urgente a necessidade de estratégias de ação eficazes no sentido de contrariar o caminho em que nos encontramos atualmente, conjugando os esforços dos vá- rios atores no campo da Mobilidade, sejam eles da área do ciclável, do pedonal ou dos transportes coletivos.


(Artigo originalmente publicado na edição de 30/09/2017 do Diário do Minho)

III Braga Cycle Chic

III Braga Cycle Chic

A terceira edição do Braga Cycle Chic, este ano integrada na Semana Europeia da Mobilidade, está agendada para o próximo dia 16 de Setembro. O evento, organizado pela Associação Braga Ciclável, com o apoio do Município de Braga, pretende mostrar como é possível utilizar a bicicleta na cidade, usando roupa do dia-a-dia.

Este ano o evento conta com uma parceria e participação muito especiais. Trata-se do NEE’d for Dance, um projeto de carácter solidário, com a finalidade de estimular e trabalhar competências motoras, cognitivas, comunicativas, afetivas e emocionais, de bebés, crianças, jovens e adultos com necessidades especiais e assim demonstrarem todo o seu potencial à sociedade. Portanto, quem melhor para nos mostrar o longo caminho a percorrer no que respeita a mobilidade inclusiva?

A participação é gratuita, mas poderá fazer um donativo para que o NEE’d for Dance possa continuar a crescer e levar esta oportunidade a cada vez mais pessoas com deficiência. Porque acreditamos que podemos mudar o mundo, pedalada a pedalada, acreditamos também que podemos mudar o mundo ajudando o próximo.

Uma tarde a passear com estilo, de bicicleta, pelo centro histórico de Braga, sempre na zona pedonal, com paragens em vários pontos da cidade, é a proposta da Braga Ciclável para celebrar a bicicleta como meio de transporte após cerca de 250 pessoas terem marcado presença na segunda edição. Quem não tiver bicicleta, poderá reservar uma antecipadamente.

ATENÇÃO:

Inscrição gratuita, mas obrigatória, em: www.eventbrite.pt/e/bilhetes-iii-braga-cycle-chic-36975676243

Audácia

Audácia

No que a mim me toca, os meus sinceros parabéns à Câmara de Braga, pelo arrojo em trazer até à cidade a Braga Street Stage, uma prova urbana do desporto automóvel, inserida na passagem por Portugal do WRC – World Rally Championship. Polémicas, inconvenientes e discussões à parte, há que admitir que alterar o normal decorrer da vida do centro de uma cidade com a dimensão de Braga, com alteração/proibição da circulação em algumas artérias principais e pontos nevrálgicos de distribuição automóvel e pedonal, em nome da projeção internacional da cidade e da paixão pelo desporto automóvel, requer uma certa dose de atrevimento. Se por um lado, confesso não ser a maior apreciadora do desporto automóvel, por outro aprecio uma certa dose de audácia.

E se é da audácia do executivo que falamos, mantenho a esperança de que ela não seja sol de pouca dura e apenas focalizada em certos assuntos e interesses de alguns. Que a audácia se mantenha, entre outras matérias, na questão da mobilidade. Se houve coragem por parte da CMB ao afirmar as intenções (realistas ou não) de, até 2025, reduzir em 25% a taxa de utilização automóvel e construir 76 kms de pistas cicláveis ao serviço daqueles que preveem ser 18 mil utilizadores de bicicleta, que haja audácia na prossecução desta mesma intenção.

Se efetivamente o executivo camarário pretende cumprir o objetivo de redução da taxa de motorização, são necessárias medidas eficazes e urgentes. É premente formar e sensibilizar os cidadãos para os benefícios da mobilidade sustentável, para a existência de meios de deslocação alternativos em trajetos rápidos e para a sua contribuição na rentabilização da relação tempo-custo.

A proposta-teste da CMB em desacelerar o centro pela sobreelevação das passagens para peões e pelo estreitamento do espaço de circulação automóvel começou recentemente numa artéria de grande tráfego de Braga. Se é precisa audácia para dar esse passo? Diria que sim, mas é necessária uma dose bem maior para o estender ao restante centro da cidade.

E que ela não lhes falte… porque a sorte protege os audazes!

Humanidade (In)Sustentável

Humanidade (In)Sustentável

Em 1966, no livro A Dimensão Oculta, Edward T. Hall afirmava já que “o automóvel é o maior consumidor de espaço pessoal e público que o homem jamais inventou”. Perceber que, há cerca de 70 anos, várias vozes se levantavam já no sentido de precaver a extensão da relação de dependência entre o homem e o automóvel, faz-me pensar no quanto andamos a negligenciar estas questões durante todo este tempo.

O surgimento do automóvel modificou a forma de vida das pessoas. Se, por um lado, tornou mais fácil percorrer curtas e longas distâncias, por outro foi o motor para o crescimento das malhas urbanas em extensões tais que inviabilizou que estas pudessem ser percorridas a pé, de bicicleta ou mesmo por uma rede de transportes públicos eficaz.

Resultado desta trajetória, existe, hoje em dia, um verdadeiro síndrome do automóvel. Em Portugal, esta patologia é gritante. A possibilidade de não ser possível deixar o filho à porta da escola com o seu próprio carro, deixa a maioria dos pais em sobressalto. A ideia sequer de ir às compras sem que o carro esteja à porta do supermercado aterroriza qualquer consumidor. A hipótese de se ir ao ginásio e de seguida prolongar o exercício voltando para casa a pé, de bicicleta ou de autocarro, não passa sequer pela cabeça dos nossos ‘atletas’. Alternativas há sempre, ou quase sempre.

Enquanto isso vamos permitindo que os nossos centros urbanos se vão estrangulando pela presença excessiva de automóveis que aumentam cada vez mais o tempo investido em movimentos pendulares, impossibilitam a coexistência com outros modos de transporte e diminuam o contacto social. Não queremos andar a pé ou de bicicleta, não percorremos as ruas das nossas cidades, não conhecemos as pessoas que frequentam os mesmos caminhos ou lugares que nós. Diz Hall que “quando passeamos, aprendemos a conhecer-nos entre nós, que mais não seja de vista”, permitindo o fortalecimento das relações humanas.

Não temos que nos incompatibilizar com o uso do automóvel em meio urbano, mas antes aprender a gerir a sua utilização de forma a que, não apenas a mobilidade se torne sustentável, mas também a humanidade das relações.


Dicas de Sustentabilidade

  1. O filho do seu vizinho frequenta a mesma escola que o seu filho? Que tal combinarem levar alternadamente os miúdos à escola e aproveitar para melhorar as relações de vizinhança?!

2. Se a distância lho permitir, que tal começar a ir de bicicleta para o trabalho duas a três vezes por semana? Se calhar evitar-lhe-ia aquela aula dolorosa de cycling ao final do dia. E quem sabe mesmo uma mensalidade
poupada…

3. Vai às compras? Alforges, cestos, atrelados, são todos boas opções para o seu transporte!

(Artigo originalmente publicado na edição de março de 2017 da Revista Rua)

A Problemática Colocação de Um Capacete*

A Problemática Colocação de Um Capacete*

A discussão não é de hoje. A discórdia também não. Mas o assunto voltou à baila, muito recentemente, a propósito do Plano Estratégico Nacional de Segurança Rodoviária – Pense 2020 – e a possibilidade de tornar obrigatório o uso do capacete por parte dos ciclistas.

A mim, individualmente, não me faz qualquer comichão a ideia de utilizar capacete. Não tenho medo que me despenteie, não tenho receio de deixar de sentir o prazer em andar de bicicleta por não sentir os cabelos ao vento. Mas a nível global, numa altura em que tanto se discutem alternativas eficazes ao automóvel, em que se repensam estratégias de mobilidade no sentido da sustentabilidade das redes viárias e de transportes, sobretudo em meio urbano, esta medida pode efetivamente representar um entrave ao avanço deste processo, no que à captação de adeptos da “mobilidade doce” diz respeito. (mais…)

Para Inglês ver!

Para Inglês ver!

No rescaldo da Semana Europeia da Mobilidade, que decorreu de 16 a 22 de Setembro, em que 2424 cidades do continente europeu, incluindo Braga, se uniram em torno da causa da mobilidade sustentável, é necessário analisar em que medida as autoridades locais levam em real consideração todas as promessas lançadas nos últimos tempos no âmbito desta matéria e qual o seu real impacto junto da população. (mais…)

Não somos contra os carros!

Não somos contra os carros!

Quem somos? Qual a nossa luta? O que queremos? Muito simples. A Braga Ciclável é uma associação sem fins lucrativos que luta por uma política de mobilidade sustentável onde as bicicletas tenham um papel ativo. É nosso grande objetivo fomentar o uso da bicicleta, enquanto meio de transporte quotidiano, numa vasta faixa etária, mas com especial incidência/insistência nos mais novos, aqueles que serão o futuro da nossa cidade, do nosso país, do nosso planeta. Não lutamos contra os automóveis, lutamos a favor de maior qualidade no ar que respiramos, de um modo de vida inteligente do ponto de vista dos gastos energéticos e da pegada ecológica, de uma postura socialmente responsável, porque o ar que respiramos não é propriedade exclusivamente nossa, o ar que poluímos é de todos. Isto para não falar que pedalar traz benefícios físicos e psicológicos, que podem evitar umas quantas idas ao médico ou ao psicólogo… claro! (mais…)

Por uma redistribuição do espaço público

Por uma redistribuição do espaço público

“Não se trata de estar “contra os carros”, mas de equilibrar a forma como o nosso espaço público é usado e distribuído pelos cidadãos”. É com esta máxima que o Anda Lisboa!, Plano de Acessibilidade Pedonal promovido pela CML, tem vindo a pôr em prática um plano estratégico que promete tornar a capital numa “Cidade mais amiga das Pessoas, feita a pensar em todos, sem exceção”. Tem já vindo a pôr em marcha, com a EMEL, vários melhoramentos que passam pela conquista de áreas pedonais às vias motorizadas, substituição do pavimento em mau estado, desaceleração do trânsito, introdução de (algumas) ciclovias (ainda muito há a fazer neste sentido!) e prometem, para breve, a instalação de um sistema de partilha de bicicletas.

E por cá, o que se faz nesse sentido? Braga tem uma das maiores áreas pedonais da Europa, em situação urbana, isso é inegável, mas não chega. É um ótimo slogan, mas tem que ser muito mais do que isso. Tem que ser regulada e reenquadrada para que, tal como se pretende fazer em Lisboa, seja um lugar das Pessoas e para as Pessoas. A nossa zona que se diz pedonal, é um verdadeiro perigo durante o período da manhã em que se cruzam indiscriminadamente pessoas com veículos de entregas. Durante o resto do dia muitos são os automóveis que se vão “passeando” nessa mesma área. A nossa zona que se diz pedonal, viu recentemente serem substituídos os seus estacionamentos para bicicletas por outros, mais recentes, com a sinalização a stencil. Mas sabem que mais? Essa sinalização não está homologada e nós, que lá estacionamos as nossas bicicletas, continuamos uns fora-da-lei… qual Robin Hood! Isto para não falar que, por falta de (in)formação, muitos são os agentes da autoridade que permitem o estacionamento de motos naqueles lugares. Pessoalmente, sou da opinião que a dita placa de sinalização de estacionamento para velocípedes deva lá estar, mas na sua ausência, que tal se usássemos, como base de raciocínio lógico, o artigo 49º do Código da Estrada que nos diz, no seu ponto 1, alínea f), que “é proibido parar ou estacionar: (…) nas pistas de velocípedes, (…) nos passeios e demais locais destinados ao trânsito de peões”?

É só uma sugestão, pelos ciclistas, pelos peões… pelas Pessoas!


(Artigo originalmente publicado na edição de 07/05/2016 do Diário do Minho)

Pedalar para a Cidadania

Pedalar para a Cidadania

Durante duas semanas, representantes de 195 países e da União Europeia, estiveram reunidos na cidade-luz para um sem-número de negociações (in)tensas que resultaram num acordo muito aquém das expetativas iniciais. Se, por um lado, podemos falar em sucesso no que diz respeito à imposição da meta realista de 1.5°C como valor limite para a subida da temperatura média, tal como na restrição ao uso de combustíveis fósseis, por outro, o facto de a limitação das emissões dos gases com efeito de estufa de cada país e do seu total global, não fazerem parte do rol de medidas vinculativas contempladas no acordo, faz com que o rescaldo da Conferência do Clima, de Paris, tenha um sabor agridoce.

Mas se, a nível global, os valores capitalistas se sobrepõem à consciência de que o nosso planeta está a morrer às nossas mãos e de que não temos outro para onde ir, a nível local, todos temos a obrigação, enquanto cidadãos, de nos consciencializar de que pequenos gestos do quotidiano podem contribuir para de alguma forma retrair e, quiçá, reverter o processo de deterioração da Terra.

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