Audácia

Audácia

No que a mim me toca, os meus sinceros parabéns à Câmara de Braga, pelo arrojo em trazer até à cidade a Braga Street Stage, uma prova urbana do desporto automóvel, inserida na passagem por Portugal do WRC – World Rally Championship. Polémicas, inconvenientes e discussões à parte, há que admitir que alterar o normal decorrer da vida do centro de uma cidade com a dimensão de Braga, com alteração/proibição da circulação em algumas artérias principais e pontos nevrálgicos de distribuição automóvel e pedonal, em nome da projeção internacional da cidade e da paixão pelo desporto automóvel, requer uma certa dose de atrevimento. Se por um lado, confesso não ser a maior apreciadora do desporto automóvel, por outro aprecio uma certa dose de audácia.

E se é da audácia do executivo que falamos, mantenho a esperança de que ela não seja sol de pouca dura e apenas focalizada em certos assuntos e interesses de alguns. Que a audácia se mantenha, entre outras matérias, na questão da mobilidade. Se houve coragem por parte da CMB ao afirmar as intenções (realistas ou não) de, até 2025, reduzir em 25% a taxa de utilização automóvel e construir 76 kms de pistas cicláveis ao serviço daqueles que preveem ser 18 mil utilizadores de bicicleta, que haja audácia na prossecução desta mesma intenção.

Se efetivamente o executivo camarário pretende cumprir o objetivo de redução da taxa de motorização, são necessárias medidas eficazes e urgentes. É premente formar e sensibilizar os cidadãos para os benefícios da mobilidade sustentável, para a existência de meios de deslocação alternativos em trajetos rápidos e para a sua contribuição na rentabilização da relação tempo-custo.

A proposta-teste da CMB em desacelerar o centro pela sobreelevação das passagens para peões e pelo estreitamento do espaço de circulação automóvel começou recentemente numa artéria de grande tráfego de Braga. Se é precisa audácia para dar esse passo? Diria que sim, mas é necessária uma dose bem maior para o estender ao restante centro da cidade.

E que ela não lhes falte… porque a sorte protege os audazes!

Humanidade (In)Sustentável

Humanidade (In)Sustentável

Em 1966, no livro A Dimensão Oculta, Edward T. Hall afirmava já que “o automóvel é o maior consumidor de espaço pessoal e público que o homem jamais inventou”. Perceber que, há cerca de 70 anos, várias vozes se levantavam já no sentido de precaver a extensão da relação de dependência entre o homem e o automóvel, faz-me pensar no quanto andamos a negligenciar estas questões durante todo este tempo.

O surgimento do automóvel modificou a forma de vida das pessoas. Se, por um lado, tornou mais fácil percorrer curtas e longas distâncias, por outro foi o motor para o crescimento das malhas urbanas em extensões tais que inviabilizou que estas pudessem ser percorridas a pé, de bicicleta ou mesmo por uma rede de transportes públicos eficaz.

Resultado desta trajetória, existe, hoje em dia, um verdadeiro síndrome do automóvel. Em Portugal, esta patologia é gritante. A possibilidade de não ser possível deixar o filho à porta da escola com o seu próprio carro, deixa a maioria dos pais em sobressalto. A ideia sequer de ir às compras sem que o carro esteja à porta do supermercado aterroriza qualquer consumidor. A hipótese de se ir ao ginásio e de seguida prolongar o exercício voltando para casa a pé, de bicicleta ou de autocarro, não passa sequer pela cabeça dos nossos ‘atletas’. Alternativas há sempre, ou quase sempre.

Enquanto isso vamos permitindo que os nossos centros urbanos se vão estrangulando pela presença excessiva de automóveis que aumentam cada vez mais o tempo investido em movimentos pendulares, impossibilitam a coexistência com outros modos de transporte e diminuam o contacto social. Não queremos andar a pé ou de bicicleta, não percorremos as ruas das nossas cidades, não conhecemos as pessoas que frequentam os mesmos caminhos ou lugares que nós. Diz Hall que “quando passeamos, aprendemos a conhecer-nos entre nós, que mais não seja de vista”, permitindo o fortalecimento das relações humanas.

Não temos que nos incompatibilizar com o uso do automóvel em meio urbano, mas antes aprender a gerir a sua utilização de forma a que, não apenas a mobilidade se torne sustentável, mas também a humanidade das relações.


Dicas de Sustentabilidade

  1. O filho do seu vizinho frequenta a mesma escola que o seu filho? Que tal combinarem levar alternadamente os miúdos à escola e aproveitar para melhorar as relações de vizinhança?!

2. Se a distância lho permitir, que tal começar a ir de bicicleta para o trabalho duas a três vezes por semana? Se calhar evitar-lhe-ia aquela aula dolorosa de cycling ao final do dia. E quem sabe mesmo uma mensalidade
poupada…

3. Vai às compras? Alforges, cestos, atrelados, são todos boas opções para o seu transporte!

(Artigo originalmente publicado na edição de março de 2017 da Revista Rua)

A Problemática Colocação de Um Capacete*

A Problemática Colocação de Um Capacete*

A discussão não é de hoje. A discórdia também não. Mas o assunto voltou à baila, muito recentemente, a propósito do Plano Estratégico Nacional de Segurança Rodoviária – Pense 2020 – e a possibilidade de tornar obrigatório o uso do capacete por parte dos ciclistas.

A mim, individualmente, não me faz qualquer comichão a ideia de utilizar capacete. Não tenho medo que me despenteie, não tenho receio de deixar de sentir o prazer em andar de bicicleta por não sentir os cabelos ao vento. Mas a nível global, numa altura em que tanto se discutem alternativas eficazes ao automóvel, em que se repensam estratégias de mobilidade no sentido da sustentabilidade das redes viárias e de transportes, sobretudo em meio urbano, esta medida pode efetivamente representar um entrave ao avanço deste processo, no que à captação de adeptos da “mobilidade doce” diz respeito. (mais…)

Para Inglês ver!

Para Inglês ver!

No rescaldo da Semana Europeia da Mobilidade, que decorreu de 16 a 22 de Setembro, em que 2424 cidades do continente europeu, incluindo Braga, se uniram em torno da causa da mobilidade sustentável, é necessário analisar em que medida as autoridades locais levam em real consideração todas as promessas lançadas nos últimos tempos no âmbito desta matéria e qual o seu real impacto junto da população. (mais…)

Não somos contra os carros!

Não somos contra os carros!

Quem somos? Qual a nossa luta? O que queremos? Muito simples. A Braga Ciclável é uma associação sem fins lucrativos que luta por uma política de mobilidade sustentável onde as bicicletas tenham um papel ativo. É nosso grande objetivo fomentar o uso da bicicleta, enquanto meio de transporte quotidiano, numa vasta faixa etária, mas com especial incidência/insistência nos mais novos, aqueles que serão o futuro da nossa cidade, do nosso país, do nosso planeta. Não lutamos contra os automóveis, lutamos a favor de maior qualidade no ar que respiramos, de um modo de vida inteligente do ponto de vista dos gastos energéticos e da pegada ecológica, de uma postura socialmente responsável, porque o ar que respiramos não é propriedade exclusivamente nossa, o ar que poluímos é de todos. Isto para não falar que pedalar traz benefícios físicos e psicológicos, que podem evitar umas quantas idas ao médico ou ao psicólogo… claro! (mais…)

Por uma redistribuição do espaço público

Por uma redistribuição do espaço público

“Não se trata de estar “contra os carros”, mas de equilibrar a forma como o nosso espaço público é usado e distribuído pelos cidadãos”. É com esta máxima que o Anda Lisboa!, Plano de Acessibilidade Pedonal promovido pela CML, tem vindo a pôr em prática um plano estratégico que promete tornar a capital numa “Cidade mais amiga das Pessoas, feita a pensar em todos, sem exceção”. Tem já vindo a pôr em marcha, com a EMEL, vários melhoramentos que passam pela conquista de áreas pedonais às vias motorizadas, substituição do pavimento em mau estado, desaceleração do trânsito, introdução de (algumas) ciclovias (ainda muito há a fazer neste sentido!) e prometem, para breve, a instalação de um sistema de partilha de bicicletas.

E por cá, o que se faz nesse sentido? Braga tem uma das maiores áreas pedonais da Europa, em situação urbana, isso é inegável, mas não chega. É um ótimo slogan, mas tem que ser muito mais do que isso. Tem que ser regulada e reenquadrada para que, tal como se pretende fazer em Lisboa, seja um lugar das Pessoas e para as Pessoas. A nossa zona que se diz pedonal, é um verdadeiro perigo durante o período da manhã em que se cruzam indiscriminadamente pessoas com veículos de entregas. Durante o resto do dia muitos são os automóveis que se vão “passeando” nessa mesma área. A nossa zona que se diz pedonal, viu recentemente serem substituídos os seus estacionamentos para bicicletas por outros, mais recentes, com a sinalização a stencil. Mas sabem que mais? Essa sinalização não está homologada e nós, que lá estacionamos as nossas bicicletas, continuamos uns fora-da-lei… qual Robin Hood! Isto para não falar que, por falta de (in)formação, muitos são os agentes da autoridade que permitem o estacionamento de motos naqueles lugares. Pessoalmente, sou da opinião que a dita placa de sinalização de estacionamento para velocípedes deva lá estar, mas na sua ausência, que tal se usássemos, como base de raciocínio lógico, o artigo 49º do Código da Estrada que nos diz, no seu ponto 1, alínea f), que “é proibido parar ou estacionar: (…) nas pistas de velocípedes, (…) nos passeios e demais locais destinados ao trânsito de peões”?

É só uma sugestão, pelos ciclistas, pelos peões… pelas Pessoas!


(Artigo originalmente publicado na edição de 07/05/2016 do Diário do Minho)

Pedalar para a Cidadania

Pedalar para a Cidadania

Durante duas semanas, representantes de 195 países e da União Europeia, estiveram reunidos na cidade-luz para um sem-número de negociações (in)tensas que resultaram num acordo muito aquém das expetativas iniciais. Se, por um lado, podemos falar em sucesso no que diz respeito à imposição da meta realista de 1.5°C como valor limite para a subida da temperatura média, tal como na restrição ao uso de combustíveis fósseis, por outro, o facto de a limitação das emissões dos gases com efeito de estufa de cada país e do seu total global, não fazerem parte do rol de medidas vinculativas contempladas no acordo, faz com que o rescaldo da Conferência do Clima, de Paris, tenha um sabor agridoce.

Mas se, a nível global, os valores capitalistas se sobrepõem à consciência de que o nosso planeta está a morrer às nossas mãos e de que não temos outro para onde ir, a nível local, todos temos a obrigação, enquanto cidadãos, de nos consciencializar de que pequenos gestos do quotidiano podem contribuir para de alguma forma retrair e, quiçá, reverter o processo de deterioração da Terra.

(mais…)

Braga Ciclável reuniu com Câmara Municipal de Braga

Braga Ciclável reuniu com Câmara Municipal de Braga

A Associação Braga Ciclável requereu à Câmara Municipal de Braga (CMB) uma reunião com o seu Vice-Presidente, Dr. Firmino Marques, e o Vereador Prof. Miguel Bandeira, no sentido de esclarecer algumas questões pendentes sobre a Via Ciclável entre a Universidade do Minho e o Centro Histórico (cuja implementação havia sido programada para a Semana Europeia da Mobilidade), sobre a falta de manutenção e sinalização dos estacionamentos para bicicletas colocados em 2013, e para ficarmos a conhecer um “Projeto Braga Ciclável” recentemente mencionado à comunicação social por parte de responsáveis da autarquia.

Na sequência deste pedido, realizou-se na passada Quinta Feira, 12 de Novembro, uma reunião na CMB onde estiveram presentes Mário Meireles, Eliana Freitas, Manuela Sá Fernandes e Marta Sofia Silva, em representação da Braga Ciclável, o arquiteto Luís Vaz, Assessor do Vice-Presidente, e o arquiteto João Paulo, do Departamento de Trânsito do Município. A autarquia encontra-se a estudar possibilidades de intervenção na Rua D. Pedro V, tendo solicitado o parecer da Braga Ciclável dado o papel ativo que esta tem desempenhado na promoção da mobilidade em bicicleta na cidade.

Recorde-se a este propósito, que a Braga Ciclável há muito que defende publicamente que a Rua D. Pedro V, juntamente com a Rua de S. Vítor e a Rua Nova de Santa Cruz, constitui um dos principais eixos de acesso ao centro da cidade, para quem vem da zona Este (incluindo, com particular relevância, toda a zona residencial de São Vítor e a zona do Campus Universitário de Gualtar), bem como a principal via de acesso entre o Campus e a Estação. Sendo uma via utilizada diariamente por um grande número de utilizadores de bicicleta, em ambos os sentidos de circulação, e uma vez que não existe uma alternativa mais viável, torna-se imperioso ajustá-la de forma a melhor acolher estes utilizadores, em condições de conforto e segurança.

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Uma das soluções poderia passar pela colocação de faixa ciclável, com marcação horizontal azul, no sentido Este-Centro, a qual poderia incluir a reserva de uma faixa de 20 cm de largura para proteção em relação à berma da estrada, contando a partir daí com uma largura de cerca de 1,20 m para circulação de bicicletas.

A Braga Ciclável entende que a colocação de uma faixa ciclável segregada encostada à direita, sem separação física, ainda que a intenção possa ser a de alertar os condutores de automóveis para a presença de velocípedes em sentido contrário, tem a desvantagem de induzir os utilizadores de bicicleta a utilizar a zona da faixa de rodagem onde frequentemente existem mais perigos (nomeadamente, peões, sarjetas, buracos, areias, pregos e lixo). A este propósito, convém recordar que a ideia de que o velocípede deve circular o mais à direita possível está atualmente descontinuada, tendo evoluído, inclusivé no próprio Código da Estrada, para uma liberdade de escolha no posicionamento por parte da pessoa que utiliza a bicicleta, por forma a que possa circular com o máximo de segurança face a cada situação.

Ora, na Rua D.Pedro V, partilhando a via de trânsito no sentido Universidade do Minho – Centro, a forma mais segura de circular para um ciclista consiste em posicionar-se afastado da berma e na posição mais central possível, evitando assim ser ultrapassado, de forma ilegal e perigosa, por autocarros e taxis.

Esta solução incentivaria à ultrapassagem de taxis e autocarros sem a devida distância lateral de segurança, podendo levar a acidentes facilmente evitáveis. Vejamos como ficaria a distribuição do espaço real disponível na rua em tal cenário:

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Esta hipótese afigura-se-nos como uma alternativa pouco segura para os utilizadores da bicicleta, já que é dada prioridade ao uso do veículo automóvel particular e respectivo parqueamento, pouco contribuindo para uma mobilidade inteligente, inclusiva e sustentável. Esta prioridade vai contra aquela que é defendida no Plano Diretor Municipal que, no tema 4. Mobilidade e Transportes, no ponto 4.3.3 estratégias para o futuro diz que, “considerando a necessidade de uma inversão de prioridades existem algumas metas importantes a atingir”, sendo que uma delas é o aumento do número de utilizadores de bicicleta. Este número é ainda especificado no ponto 4.2.2 “Atingir 10% de índice modal referente ao uso da bicicleta como meio de transporte em Braga na próxima década”. Isto traduz-se em 18 149 pessoas a andar de bicicleta em Braga até 2025. Segundo os critérios funcionais a salvaguardar na construção da rede ciclável, presentes no PDM, a opção apresentada pelo município de marcação horizontal de uma faixa ciclável não respeita o ponto da Segurança.

Face às características da Rua D. Pedro V, incluindo o perfil da via, a largura dos passeios e o tipo de trânsito existente na atualidade, a Braga Ciclável defende que a solução mais viável no momento presente, em termos de relação custo/benefício, passa por passar a permitir também aos ciclistas a circulação no sentido Este-Centro (atualmente, esse sentido de circulação é proibido, com exceção para os veículos de transporte público).

Para tal, será necessário sinalizar em conformidade, de ambos os lados. É desejável assegurar que as velocidades ali praticadas se mantenham dentro de limites de segurança adequados às características da rua, que nos parece enquadrar-se perfeitamente no conceito de “zona 30”. Por outro lado, deve ser eliminado o estacionamento abusivo ao longo de toda a Rua D. Pedro V, que atualmente constitui impedimento frequente ao normal fluxo de trânsito nos dois sentidos (especialmente grave por contribuir para atrasos nos transportes públicos), bem como para as paragens de cargas e descargas (é frequente os moradores, lojistas e distribuidores de mercadorias precisarem de parar em segunda fila ou em contramão devido à presença de carros estacionados abusivamente).

Assim, a Braga Ciclável defende que se encontre uma solução para Cargas e Descargas pontuais nesta rua, revendo o seu perfil para o que está representado na imagem seguinte:

Captura de ecrã 2015-11-13, às 19.12.26

No imediato a Braga Ciclável defende que seja colocada pelo menos a sinalização vertical que passe a permitir aquilo que hoje já centenas de utilizadores da bicicleta fazem: circular no sentido Universidade do Minho – Centro Histórico.