Os reis na barriga

Os reis na barriga

Houve tempos em que os donos das cidades eram os nobres e os reis e, nesse tempo, quando eles passavam nas ruas, nas suas carruagens ou nos seus cavalos, toda a gente se desviava, cedendo passagem aos senhores, em vénias e adoração e medo. Um vulgar cidadão não se atrevia atravessar no caminho de um dos senhores – era punido por lei e a pena era, por vezes, de morte, tal era a afronta.

Estou a falar de há muito tempo, tempos em que não havia código da estrada e em que ninguém garantia o direito de todos os indivíduos por igual.

Estranhamente, embora os tempos tenham mudado e as leis tenham acabado com os benefícios de classes, no que toca à estrada, ainda há gente que se sinta com o rei na barriga e com o direito à vénia e ao medo. (mais…)

Vamos falar de civismo

Vamos falar de civismo

O civismo é o conjunto de comportamentos que um cidadão adopta para mostrar respeito para com a sociedade em que vive. São atitudes básicas de empatia, uma forma de mostrarmos que não olhamos apenas para os nossos umbigos e que para chegarmos mais depressa a casa passamos à frente de todos na fila do supermercado.

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Antes que o Boato seja Lei

Antes que o Boato seja Lei

Sou pouco de ligar a boatos e muito menos de os comentar, mas chegou-me aos ouvidos, por fonte mais ou menos fidedigna, que o actual executivo planeia proibir a circulação de bicicleta na zona pedonal de Braga. Tendo em conta a gravidade da situação, decidi partilhar a minha opinião (que é para isso que serve este espaço) na sincera esperança que tenha de me retratar no futuro e dizer “peço perdão, era mesmo um boato maldoso”.

Nunca consegui entender a aversão que existe para com os ciclistas, mas é uma coisa que é por demais evidente. Os automobilistas exasperam quando têm de andar no centro urbano a velocidade reduzida porque a bicicleta vai “devagar”. Os peões odeiam quando uma bicicleta se passeia pela zona pedonal, mesmo que com muito cuidado, muito devagar e contornando as pessoas e saltam logo com um grito “as bicicletas são para a estrada!” Apesar de o uso da bicicleta ser um meio de transporte amigo do ambiente – não causa ruído nem emissões -, seguro – também não causa acidentes com feridos graves – e económico, apesar de todos os fóruns mundiais de mobilidade e do ambiente louvarem este meio e o colocarem no pedestal como o meio de transporte urbano do futuro, ninguém em Braga o quer ver pela frente e isto, para mim, é muito estranho!

Por outro lado, não vejo o actual executivo, os automobilistas e os peões a bradar aos céus com os mil carros que circulam e estacionam na zona pedonal, às vezes transformando praças históricas em parques de estacionamento, como acontece frequentemente com o Rossio da Sé ou o Campo da Vinha. Também não vejo ninguém a reclamar dos excessos de velocidade que todos os meses causam feridos e mortes naquela “autoestrada” que atravessa a nossa cidade. Nem ninguém a chamar a polícia para multar os imensos carros que estacionam nos passeios obrigando os peões a circular no paralelo.

A confirmar-se o boato de retirar a circulação de bicicletas na zona de pedonal, torna-se absolutamente evidente de que Braga é e sempre será uma cidade desenhada por automobilistas e para automobilistas e garanto-vos, caros leitores, o futuro já não é por aí.

Boas festas!


(Artigo originalmente publicado na edição de 23/12/2017 do Diário do Minho)

O design adiado

O design adiado

As cidades de hoje, se alguma vez quiserem ser cidades do futuro, têm de se desenhar de uma forma inteligente e ponderada. Braga, nos anos 80 e 90 fez exatamente o contrário e, até à data, ainda não se conseguiu reverter esse desígnio de cimento e tráfego. Há erros gravíssimos de design na nossa cidade que a levam ao terceiro lugar no que toca a cidades poluídas em Portugal – uma rodovia que se comporta como uma autoestrada, uma circular que deveria ser externa e que divide a cidade em dois, túneis que trazem o trânsito pesado ao centro da cidade -, estruturas que não podem ser demolidas de um dia para o outro, mas isso não pode servir de desculpa para a inércia e é isso que temos visto no que toca a Braga – um rol de boas intenções e bonitas promessas e muito pouco chegou às ruas da cidade.

Uma das primeiras regras do bom design é a identificação do problema e não me parece que o atual executivo olhe para o trânsito de Braga como um problema a resolver. Nos últimos anos fizeram-se estudos em cima de estudos, planos e reuniões, experiências pontuais nas semanas da mobilidade, mas, em quatro anos, vimos muito pouca ação. Se a primeira regra do design é a identificação do problema, a segunda, e mais importante, é a resolução do mesmo e a esse nível, as questões de tráfego em Braga em 2013 são exatamente as mesmas em 2017. Ainda temos, como em 2013, uma rede ciclável inexistente, os mesmos raros pontos de estacionamento de bicicletas, engarrafamentos às portas de todas as escolas, alta velocidade automobilística no centro da cidade, estacionamento caótico e uma rede de transportes públicos ineficiente. Tudo na mesma e longe daquilo que seria uma Braga do futuro.

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A cidade em redor

A cidade em redor

Há já vários anos que vivo e trabalho no centro da cidade de Braga, onde a mobilidade por bicicleta não é fácil, mas também não é impossível. Embora não haja vias cicláveis e a grande maioria do condutores de automóveis não vejam o ciclista com bons olhos (há em todos os condutores de automovel portugueses uma pressa que eu nunca hei-de entender!), o facto de Braga ser relativamente plana e de a maioria das vias do centro histórico não permitirem uma velocidade excessiva, sempre me deixou reservar o meu automóvel para reais saídas da cidade.

Desde o início deste mês estou a trabalhar a uns míseros 4km do centro histórico e embora gostasse muito de me deslocar de bicicleta, tal não é possivel. Dizia a Comissão Europeia, já em 2000, que “quando as cidades combinam medidas a favor da bicicleta e dos transportes públicos atingem uma redução da taxa de utilização do transporte individual motorizado. Dependendo do nível de congestionamento do meio urbano, a bicicleta é mais rápida dos que o transporte individual motorizado em trajectos de, pelo menos, 5km”. A Avenida do Cávado, que ironicamente foi o ponto de partida para a 6a etapa da Volta a Portugal deste ano, é uma estrada estreita, sem bermas e onde a velocidade automobilística abunda, ignorando as casas, o comércio e os serviços que a ladeiam.

Na mesma zona onde eu trabalho agora, trabalham diariamente centenas de pessoas numa grande superficie comercial. É também a estrada que une os pequenos 7km entre Braga e as margens do magnífico rio Cávado.

Quem pensa a mobilidade das cidades têm de incluir os municipios limitrofes, as zonas residenciais, os suburbios, os pontos de interesse ao redor do centro e não apenas as praças históricas. Circundar a cidade de pistas de velocidade, vias rápidas ou autoestradas, sem criar alternativas para quem se quer deslocar sem poluir e evitando o stress e as pressas, é isolar as populações e continuar a promover a ditadura do carro

Foi bom ver a Avenida do Cávado cheia de bicicletas a semana passada para a Volta a Portugal, só tenho pena que nos restantes dias do ano se vejam tão poucas.


(Artigo originalmente publicado na edição de 19/08/2017 do Diário do Minho)

É URGENTE UMA REVOLUÇÃO ECOLÓGICA!

É URGENTE UMA REVOLUÇÃO ECOLÓGICA!

Abril é o nosso mês da revolução. É sempre aquele mês em que reforçamos a esperança de melhores mundos, mais justos, em que pomos o cravo na lapela e acreditamos que o futuro como sítio melhor é possível. É o mês da esperança redobrada – a das mudanças que já alcançamos desde 1974, mas também a certeza de que as mudanças são possíveis, desde que as pessoas arregacem as mangas.

Portugal está muito melhor hoje do que a 23 de Abril de 1974, mas o que guardo desse Abril que não vivi é sonhar sempre mais alto. E o país dos meus sonhos é um país mais ecológico, mais verde, mais livre de stresses desnecessários. E se há coisas que se vão alcançando lentamente, passo a passo, há outras cuja necessidade é tão urgente que é preciso haver uma revolução. E o tratar do planeta é urgente.

A revolução ecológica de Braga é urgente. É urgente que as pessoas repensem a sua mobilidade dentro da cidade e que a autarquia abrace esta causa como uma das mais importante para o desenvolvimento sustentável de Braga. A revolução verde está em curso, mas temos de ser nós a ditar que caminho deve tomar. Em todo o mundo as cidades estão a desenhar-se livres de carros, com vias cicláveis que realmente unam os pontos estratégicos da cidade – das zonas residenciais às escolas, locais de trabalho e lazer. O passado de Braga já mostrou o que criar percursos mal desenhados, que não unem coisa nenhuma, são obras para enterrar dinheiro e não servem nem para inglês ver. É preciso que desta vez, o plano de mobilidade para a cidade não se fique pela fotografia, que realmente ponha os modos suaves de transporte em primeiro lugar. Precisamos de vias cicláveis que permitam que os alunos de todas as escolas possam fazer os seus percursos diários sem interrupções e sem riscos, que permitam que os trabalhadores optem pela bicicleta para se deslocar para o trabalho, que a revolução não seja feita contra ninguém, mas a favor de todos – oferecendo alternativas viáveis para que a mudança seja abraçada por todos.


Dicas para aproveitar a primavera para mudar hábitos

1- Aproveita o fim de semana para tirar a bicicleta da garagem e experimentar o melhor trajeto para o local de trabalho na companhia de um amigo ou colega.

2- Aos sábados de manhã, pega na bicicleta e vai ao mercado municipal fazer as compras dos melhores frescos.

3- Aproveita os dias mais longos para passeios no final da tarde.


(Artigo originalmente publicado na edição de maio de 2017 da Revista Rua)

Na estrada ou na cidade, os carros são uma arma

Na estrada ou na cidade, os carros são uma arma

Decorreu no final do mês passado (Março) em Malta, uma conferência ministerial organizada pela presidência da União Europeia sobre Prevenção Rodoviária e os números, embora apresentem melhorias em relação a anos anteriores, ainda mostram uma enorme mortalidade rodoviária por toda a Europa. 25 mil pessoas perderam a vida em acidentes rodoviários em 2016 no espaço europeu e 135 mil ficaram gravemente feridos. Em Portugal morreram 54 pessoas por milhão de habitantes e 37% das vítimas perderam a vida nas zonas urbanas – isto é mais de 9mil cidadãos europeus e cerca de 200 portugueses perderam a vida em acidentes rodoviários em 2016 dentro das cidades. Quem mata, nas estradas e nas cidades, são os carros. Habituamo-nos de tal forma à sua utilização que nos esquecemos que pesam uma tonelada e que, mesmo a uma velocidade reduzida, o seu impacto facilmente acaba em fatalidade.

As cidades não são feitas para os carros. As cidades são feitas para as pessoas. E Braga, infelizmente, ainda não parece ter percebido isso. Temos rotundas e vias rápidas e ruas que mais parecem autoestradas a atravessar a nossa cidade e novas promessas eleitorais para prolongamentos de túneis que custam uma fortuna. E não temos soluções seguras para que os bracarenses optem por meios transporte suaves.

No final da conferência, os ministros com responsabilidade no sector dos transportes (Portugal foi representado por Jorge Gomes, secretário de estado da Administração Interna) comprometeram-se a (entre outras coisas) a reduzir a mortalidade em 50% até 2020 e “ter particular atenção à mobilidade em bicicleta ou a pé, promovendo a integração da temática nos planos de mobilidade, políticas e medidas de ação de segurança rodoviária e, sempre que possível, promover a construção de infraestruturas dedicadas”.

Se por um lado temos de esperar que as autoridades locais abracem a criação de estruturas para a mobilidade em bicicleta em Braga (e pressionar para que elas o façam o mais rapidamente possível), também temos, nós cidadãos, de começar a pensar duas vezes antes de tirar a arma de uma tonelada da garagem para passear no meio das pessoas.


(Artigo originalmente publicado na edição de 15/04/2017 do Diário do Minho)

A ecologia não está nos genes nem está na água, é uma questão de empenhamento político

A ecologia não está nos genes nem está na água, é uma questão de empenhamento político

“Não está nos nossos genes, nem está na nossa água” diz o Morten Kabell, o actual responsável da Câmara de Copenhaga pela mobilidade e ambiente, acerca dos números apresentados a semana passada que mostram que o número de bicicletas na cidade ultrapassou finalmente o número de carros.

Copenhaga, a capital da fria e chuvosa Dinamarca, monitoriza desde os anos 70 a mobilidade citadina e os relatórios mostram uma profunda (r)evolução na forma como as pessoas se deslocam – de 1 bicicleta para cada 3 carros na década de 70 para a circulação de 256700 bicicletas para 252600 carros no relatório do último mês. Nos últimos 20 anos o trafego ciclável aumentou 68%. No último ano, aumentou 15%.

Mas nada disto é o resultado de uma divina providência ou de alguma propensão dos dinamarqueses para dar à perna. Estes números são o resultado de mais de 20 anos de investimento direccionado para uma mobilidade mais ecológica, menos dependente de combustíveis fósseis. Mais de 20 anos a pensar em como tornar o ar da cidade mais limpo e ao mesmo tempo promover a fluidez de trânsito numa cidade cuja população continua a crescer.

Desde 2005 a cidade investiu cerca de 140 Milhões de euros em infraestruturas ligadas à utilização da bicicleta e promete não ficar por aqui. O objectivo final é libertar o centro da cidade de carros até 2025. E se os números parecem astronómicos, o autarca esclarece – os últimos 12 anos de investimento em vias cicláveis ascenderam apenas a metade dos custos de uma variante exclusivamente para automóveis na parte norte da cidade.

Como defende Kabell, tudo começa com vontade política, decisões pensadas e investimentos a longo prazo e Copenhaga tem consistentemente feito escolhas certas no sentido de melhorar a já elevada qualidade de vida dos seus cidadãos.

Copenhaga começou nos anos 70. E Braga? A revolução da mobilidade ecológica, quando começará? (mais…)

Deus das pequenas obras

Deus das pequenas obras

Braga é a terceira maior cidade do país e é também a terceira mais poluída. Nas últimas décadas, os investimentos avultados em túneis, viadutos, parques de estacionamento e rodovias, impuseram à cidade a ditadura do carro, sobrando quase nada para a promoção de uma mobilidade mais ecológica. Hoje, os investimentos para as questões de mobilidade têm-se tornado mais verdes e, em Braga, há, neste momento, projectos aprovados a rondar os 4,5 milhões de euros de investimento apenas para vias cicláveis. Escrevo isto com um grande sorriso na cara, mas lembro-me ao mesmo tempo de uma história que o meu pai contava sobre a construção de uma ponte no interior do Alentejo nos anos 40 em que o trabalhador perguntava porque se gastavam aqueles milhões se ali não havia rio e o político respondia “construa-se a ponte que o rio logo aparece”. (mais…)