A cidade em redor

A cidade em redor

Há já vários anos que vivo e trabalho no centro da cidade de Braga, onde a mobilidade por bicicleta não é fácil, mas também não é impossível. Embora não haja vias cicláveis e a grande maioria do condutores de automóveis não vejam o ciclista com bons olhos (há em todos os condutores de automovel portugueses uma pressa que eu nunca hei-de entender!), o facto de Braga ser relativamente plana e de a maioria das vias do centro histórico não permitirem uma velocidade excessiva, sempre me deixou reservar o meu automóvel para reais saídas da cidade.

Desde o início deste mês estou a trabalhar a uns míseros 4km do centro histórico e embora gostasse muito de me deslocar de bicicleta, tal não é possivel. Dizia a Comissão Europeia, já em 2000, que “quando as cidades combinam medidas a favor da bicicleta e dos transportes públicos atingem uma redução da taxa de utilização do transporte individual motorizado. Dependendo do nível de congestionamento do meio urbano, a bicicleta é mais rápida dos que o transporte individual motorizado em trajectos de, pelo menos, 5km”. A Avenida do Cávado, que ironicamente foi o ponto de partida para a 6a etapa da Volta a Portugal deste ano, é uma estrada estreita, sem bermas e onde a velocidade automobilística abunda, ignorando as casas, o comércio e os serviços que a ladeiam.

Na mesma zona onde eu trabalho agora, trabalham diariamente centenas de pessoas numa grande superficie comercial. É também a estrada que une os pequenos 7km entre Braga e as margens do magnífico rio Cávado.

Quem pensa a mobilidade das cidades têm de incluir os municipios limitrofes, as zonas residenciais, os suburbios, os pontos de interesse ao redor do centro e não apenas as praças históricas. Circundar a cidade de pistas de velocidade, vias rápidas ou autoestradas, sem criar alternativas para quem se quer deslocar sem poluir e evitando o stress e as pressas, é isolar as populações e continuar a promover a ditadura do carro

Foi bom ver a Avenida do Cávado cheia de bicicletas a semana passada para a Volta a Portugal, só tenho pena que nos restantes dias do ano se vejam tão poucas.


(Artigo originalmente publicado na edição de 19/08/2017 do Diário do Minho)

É URGENTE UMA REVOLUÇÃO ECOLÓGICA!

É URGENTE UMA REVOLUÇÃO ECOLÓGICA!

Abril é o nosso mês da revolução. É sempre aquele mês em que reforçamos a esperança de melhores mundos, mais justos, em que pomos o cravo na lapela e acreditamos que o futuro como sítio melhor é possível. É o mês da esperança redobrada – a das mudanças que já alcançamos desde 1974, mas também a certeza de que as mudanças são possíveis, desde que as pessoas arregacem as mangas.

Portugal está muito melhor hoje do que a 23 de Abril de 1974, mas o que guardo desse Abril que não vivi é sonhar sempre mais alto. E o país dos meus sonhos é um país mais ecológico, mais verde, mais livre de stresses desnecessários. E se há coisas que se vão alcançando lentamente, passo a passo, há outras cuja necessidade é tão urgente que é preciso haver uma revolução. E o tratar do planeta é urgente.

A revolução ecológica de Braga é urgente. É urgente que as pessoas repensem a sua mobilidade dentro da cidade e que a autarquia abrace esta causa como uma das mais importante para o desenvolvimento sustentável de Braga. A revolução verde está em curso, mas temos de ser nós a ditar que caminho deve tomar. Em todo o mundo as cidades estão a desenhar-se livres de carros, com vias cicláveis que realmente unam os pontos estratégicos da cidade – das zonas residenciais às escolas, locais de trabalho e lazer. O passado de Braga já mostrou o que criar percursos mal desenhados, que não unem coisa nenhuma, são obras para enterrar dinheiro e não servem nem para inglês ver. É preciso que desta vez, o plano de mobilidade para a cidade não se fique pela fotografia, que realmente ponha os modos suaves de transporte em primeiro lugar. Precisamos de vias cicláveis que permitam que os alunos de todas as escolas possam fazer os seus percursos diários sem interrupções e sem riscos, que permitam que os trabalhadores optem pela bicicleta para se deslocar para o trabalho, que a revolução não seja feita contra ninguém, mas a favor de todos – oferecendo alternativas viáveis para que a mudança seja abraçada por todos.


Dicas para aproveitar a primavera para mudar hábitos

1- Aproveita o fim de semana para tirar a bicicleta da garagem e experimentar o melhor trajeto para o local de trabalho na companhia de um amigo ou colega.

2- Aos sábados de manhã, pega na bicicleta e vai ao mercado municipal fazer as compras dos melhores frescos.

3- Aproveita os dias mais longos para passeios no final da tarde.


(Artigo originalmente publicado na edição de maio de 2017 da Revista Rua)

Na estrada ou na cidade, os carros são uma arma

Na estrada ou na cidade, os carros são uma arma

Decorreu no final do mês passado (Março) em Malta, uma conferência ministerial organizada pela presidência da União Europeia sobre Prevenção Rodoviária e os números, embora apresentem melhorias em relação a anos anteriores, ainda mostram uma enorme mortalidade rodoviária por toda a Europa. 25 mil pessoas perderam a vida em acidentes rodoviários em 2016 no espaço europeu e 135 mil ficaram gravemente feridos. Em Portugal morreram 54 pessoas por milhão de habitantes e 37% das vítimas perderam a vida nas zonas urbanas – isto é mais de 9mil cidadãos europeus e cerca de 200 portugueses perderam a vida em acidentes rodoviários em 2016 dentro das cidades. Quem mata, nas estradas e nas cidades, são os carros. Habituamo-nos de tal forma à sua utilização que nos esquecemos que pesam uma tonelada e que, mesmo a uma velocidade reduzida, o seu impacto facilmente acaba em fatalidade.

As cidades não são feitas para os carros. As cidades são feitas para as pessoas. E Braga, infelizmente, ainda não parece ter percebido isso. Temos rotundas e vias rápidas e ruas que mais parecem autoestradas a atravessar a nossa cidade e novas promessas eleitorais para prolongamentos de túneis que custam uma fortuna. E não temos soluções seguras para que os bracarenses optem por meios transporte suaves.

No final da conferência, os ministros com responsabilidade no sector dos transportes (Portugal foi representado por Jorge Gomes, secretário de estado da Administração Interna) comprometeram-se a (entre outras coisas) a reduzir a mortalidade em 50% até 2020 e “ter particular atenção à mobilidade em bicicleta ou a pé, promovendo a integração da temática nos planos de mobilidade, políticas e medidas de ação de segurança rodoviária e, sempre que possível, promover a construção de infraestruturas dedicadas”.

Se por um lado temos de esperar que as autoridades locais abracem a criação de estruturas para a mobilidade em bicicleta em Braga (e pressionar para que elas o façam o mais rapidamente possível), também temos, nós cidadãos, de começar a pensar duas vezes antes de tirar a arma de uma tonelada da garagem para passear no meio das pessoas.


(Artigo originalmente publicado na edição de 15/04/2017 do Diário do Minho)

A ecologia não está nos genes nem está na água, é uma questão de empenhamento político

A ecologia não está nos genes nem está na água, é uma questão de empenhamento político

“Não está nos nossos genes, nem está na nossa água” diz o Morten Kabell, o actual responsável da Câmara de Copenhaga pela mobilidade e ambiente, acerca dos números apresentados a semana passada que mostram que o número de bicicletas na cidade ultrapassou finalmente o número de carros.

Copenhaga, a capital da fria e chuvosa Dinamarca, monitoriza desde os anos 70 a mobilidade citadina e os relatórios mostram uma profunda (r)evolução na forma como as pessoas se deslocam – de 1 bicicleta para cada 3 carros na década de 70 para a circulação de 256700 bicicletas para 252600 carros no relatório do último mês. Nos últimos 20 anos o trafego ciclável aumentou 68%. No último ano, aumentou 15%.

Mas nada disto é o resultado de uma divina providência ou de alguma propensão dos dinamarqueses para dar à perna. Estes números são o resultado de mais de 20 anos de investimento direccionado para uma mobilidade mais ecológica, menos dependente de combustíveis fósseis. Mais de 20 anos a pensar em como tornar o ar da cidade mais limpo e ao mesmo tempo promover a fluidez de trânsito numa cidade cuja população continua a crescer.

Desde 2005 a cidade investiu cerca de 140 Milhões de euros em infraestruturas ligadas à utilização da bicicleta e promete não ficar por aqui. O objectivo final é libertar o centro da cidade de carros até 2025. E se os números parecem astronómicos, o autarca esclarece – os últimos 12 anos de investimento em vias cicláveis ascenderam apenas a metade dos custos de uma variante exclusivamente para automóveis na parte norte da cidade.

Como defende Kabell, tudo começa com vontade política, decisões pensadas e investimentos a longo prazo e Copenhaga tem consistentemente feito escolhas certas no sentido de melhorar a já elevada qualidade de vida dos seus cidadãos.

Copenhaga começou nos anos 70. E Braga? A revolução da mobilidade ecológica, quando começará? (mais…)

Deus das pequenas obras

Deus das pequenas obras

Braga é a terceira maior cidade do país e é também a terceira mais poluída. Nas últimas décadas, os investimentos avultados em túneis, viadutos, parques de estacionamento e rodovias, impuseram à cidade a ditadura do carro, sobrando quase nada para a promoção de uma mobilidade mais ecológica. Hoje, os investimentos para as questões de mobilidade têm-se tornado mais verdes e, em Braga, há, neste momento, projectos aprovados a rondar os 4,5 milhões de euros de investimento apenas para vias cicláveis. Escrevo isto com um grande sorriso na cara, mas lembro-me ao mesmo tempo de uma história que o meu pai contava sobre a construção de uma ponte no interior do Alentejo nos anos 40 em que o trabalhador perguntava porque se gastavam aqueles milhões se ali não havia rio e o político respondia “construa-se a ponte que o rio logo aparece”. (mais…)

Orçamento Participativo e a democracia de escolhermos a cidade que queremos

Orçamento Participativo e a democracia de escolhermos a cidade que queremos

Nós, Braga Ciclável, somos uma associação sem fins lucrativos que promove a utilização da bicicleta como meio de transporte na cidade de Braga. Antes de sermos uma associação, éramos um movimento cívico e antes disso éramos apenas cidadãos de Braga que se preocupavam, individualmente, cada um em seu canto da cidade, com as condições para a utilização da bicicleta nas nossas vidas pessoais. Mas a democracia, que é uma coisa muito bonita, disse-nos que a união faz a força e que os nossos problemas eram os problemas de muitas outras pessoas e que talvez fosse boa ideia trabalharmos em conjunto para ajudar a construir uma cidade melhor para todos. A nossa missão é encorajar o uso quotidiano da bicicleta e facilitar a todos os cidadãos os benefícios individuais, sociais, económicos e ambientais desse uso. Somos estudantes, lojistas, administradores, engenheiros, arquitectos, vendedores, mulheres e homens e a única coisa que ganhamos com este projecto é um sorriso de cada vez que vemos mais um cidadão de bicicleta a circular em segurança em Braga. (mais…)

As bicicletas que nos levam de um lado para o outro

As bicicletas que nos levam de um lado para o outro

Os portugueses gostam de bicicletas. Os bracarenses garantidamente gostam de bicicletas. Nos dias de hoje não há ginásio, fitness center ou clube que não disponha de aulas em cima de bicicletas e chamem-lhe cycling, spinning ou rpm, estas são sempre as aulas com mais afluência. E se por um lado, as bicicletas são um exercício excelente para quem quer manter-se em forma, elas (as bicicletas) têm uma outra função que os ginásios ignoram. Elas levam-nos a sítios.

Hoje escrevo-vos a partir da Inglaterra, de uma cidade pequena a sul de Londres. Na Inglaterra, como todos bem sabemos, faz frio, chove, neva, há vento e céus cinzentos durante invernos muitos mais longos que o nosso. Hoje a mínima é de 3 negativos e ainda ontem de manhã nevou. Ainda assim, esta cidade de 65mil habitantes tem 7 trilhos para bicicleta, que unem todos os cantos da cidade, desenhados para quem quer ir trabalhar de bicicleta, ir buscar os filhos à escola, ir às compras, ir até ao lago ou só passear pelos bosques que rodeiam a cidade. Hoje peguei na bicicleta e fui ao lago e não me surpreendi por não ser a única a pegar na bicicleta. Desde 2008 que a cidade investe em trilhos que ligam as zonas residênciais com as áreas de lazer, o centro da cidade e os locais de trabalho e os resultados estão à vista – um crescimento de mais de 100% no número de ciclistas a circular na cidade. Ao todo, são mais de 40km de vias cicláveis – alguns dos trilhos são magníficos, na beira do canal ou a atravessar bosques, outros são apenas práticos e seguros, com aproveitamento de passeios e com sinalização adequada.

Conseguem imaginar trilhos a ligar o centro da cidade de Braga com, por exemplo, a praia de Adaúfe, ou o Mosteiro de Tibães? A Arcada com o Estádio ou o Bom Jesus ou tão só com o Picoto? Um trilho a ligar a Universidade ao centro histórico? Trilhos seguros para os ciclistas, mas também para os automobilistas e os peões? Trilhos desenhados para todos os que gostam de fazer exercício em cima de bicicletas mas que também gostam de respirar ar puro, ar frio à vezes, trilhos para quem quer ir a sítios e não se importa de chegar ligeiramente despenteado?

Não sei qual é a taxa de ocupação das aulas de cycling por aqui, mas quase aposto que é inferior aos 80% que o meu ginásio tem nas aulas do final do dia. Afinal de contas, quem prefere ficar parado quando pode, com segurança, por as rodas a andar?


(Artigo originalmente publicado na edição de 12/03/2015 do Diário do Minho)

Balanço da 14ª Semana Europeia da Mobilidade em Braga

Balanço da 14ª Semana Europeia da Mobilidade em Braga

Todos os anos, desde 2002, entre os dias 16 e 22 de Setembro a Europa desdobra-se em comemorações relativas à Semana Europeia da Mobilidade, com a realização de inúmeros eventos e a implementação de medidas permanentes relacionadas com a mobilidade. Este ano, Braga participou pela 3ª vez nesta grande celebração, e com um cartaz que fez inveja a outras cidades portuguesas. Mas como correu afinal? E que marcas ficaram deste evento para o futuro da cidade?

Como em qualquer evento desta envergadura, que obriga à colaboração de várias entidades num programa tão extenso quanto diversificado, houve aspetos positivos e aspetos negativos. Cumpre fazer uma reflexão sobre o que ganhou a cidade com este evento e o que poderia ter corrido melhor, para que futuras edições possam ser ainda mais inspiradoras para a sociedade bracarense.

O cartaz e os eventos

Goste-se ou não do desenho gráfico do cartaz, uma coisa é difícil negar: houve eventos para quase todos os gostos e também o propósito de implementar medidas permanentes muito positivas.

Cartaz Braga Semana Mobilidade 2015

Ficámos contudo com a sensação de que o cartaz foi tornado público demasiado tarde e que uma boa parte dos eventos pecaram por fraca divulgação. Foi pena também que não houvesse grande articulação entre alguns dos elementos do cartaz. Por exemplo, aproveitar os passeios de bicicleta, os workshops ou a estreia do documentário Bikes Vs Cars para dar a conhecer os novos estacionamentos para bicicletas e a nova via ciclável. Por outro lado, não se entende que, apesar de avançar com um programa tão ambicioso para esta Semana da Mobilidade e de ter vindo a sugerir metas interessantes em termos de mobilidade sustentável para os próximos anos, a CMB não se tenha feito representar na palestra/debate que se realizou a seguir à exibição do documentário Bikes Vs Cars.

As medidas permanentes

Ao nível da Mobilidade em Bicicleta, o cartaz prometia algumas novidades interessantes, onde se destacavam a instalação de novos suportes de estacionamento para bicicletas (bicicletários) pela cidade e a implementação de uma via ciclável entre a Universidade do Minho e o Centro Histórico através das ruas de São Victor, D. Pedro V e Nova de Santa Cruz. Duas medidas muito bem-vindas e plenamente alinhadas com o que desde há vários anos vimos defendendo.

Já em meados de 2012 na Proposta Para Uma Mobilidade Sustentável, apontávamos como medidas urgentes, precisamente, a instalação de estacionamentos para bicicletas e a implementação de um eixo ciclável entre o Campus de Gualtar, o Centro e a Estação. Mais recentemente, através do Mapa Braga Ciclável e de diversas contagens realizadas no terreno, pudemos comprovar que estas três ruas constituíam uma das principais vias de acesso ao centro e à universidade por parte dos utilizadores de bicicleta, a que não é alheio o facto de ser o percurso mais direto, além de ser quase plano e com tráfego automóvel reduzido.

Novos estacionamentos para bicicletas

A implementação dos bicicletários, apesar de realizada com um certo atraso, foi muito bem sucedida. A Câmara Municipal de Braga fez uma atualização em termos do design dos seus suportes do tipo Sheffield: são mais bonitos e agora já incluem barras horizontais de segurança para invisuais, que funcionam adicionalmente como sinalética integrada indicando visualmente a função a que se destinam. Além disso, a autarquia teve ainda o cuidado de colocar uma boa parte dos estacionamentos junto a infraestruturas e serviços públicos (centros de saúde, Mercado Municipal, Segurança Social, cemitério, museus, central de camionagem, Parque de Exposições), em localizações que, de um modo geral, nos parecem adequadas. Foram colocados mais de 50 suportes, repartidos por 13 novas localizações, algumas das quais com uma adesão imediata por parte dos ciclistas (por exemplo, no novo estacionamento junto à Livraria Centésima Página todos os dias vemos lá bicicletas).

Estacionamento para bicicletas em braga, na Avenida Central, junto á Livraria 100ª Página

É uma melhoria significativa, e provavelmente a marca mais visível que ficou da realização da Semana da Mobilidade. Ainda assim, continua a ser um número de lugares de estacionamento para bicicletas claramente insuficiente para uma cidade desta dimensão e com o número de habitantes que tem. Se o objetivo de Braga é alcançar a médio prazo uma melhor repartição modal, então precisa de investir em força neste tipo de infraestruturas de apoio ao uso dos meios de transporte alternativos. Ficou a faltar também a finalização do trabalho iniciado há cerca de 2 anos pelo anterior executivo: continua a estar em falta a sinalização de 6 locais de estacionamento para bicicletas (por exemplo, junto ao Banco de Portugal) – a colocação das placas de sinalização tarda em ser realizada, e não compreendemos o porquê deste atraso e do silêncio da CMB em relação a este assunto. Finalmente, ainda no que diz respeito a estacionamentos, foi pena a CMB não ter aproveitado para reparar ou substituir um dos suportes que há meses se encontra derrubado no Largo da Senhora-a-Branca…

Via Ciclável entre a Universidade do Minho e o Centro Histórico

A ideia era, finalmente, permitir legalmente a circulação de ciclistas em ambos os sentidos (a via tem dois sentidos mas proíbe, num deles, o trânsito automóvel privado e de velocípedes), sinalizando-o de forma adequada e bem visível para maior segurança de todos. Os ciclistas que diariamente usam a Rua Nova de Santa Cruz, a Rua D. Pedro V e a Rua de S. Vítor nas suas deslocações certamente ficaram tão entusiasmados como nós ao lerem a notícia de que iria ser implementada esta medida durante a Semana da Mobilidade! Só que… afinal não foi. O que se passou afinal?

Rua D. Pedro V

Passado mais de um mês da Semana da Mobilidade, fonte ligada à CMB dá-nos nota que esta medida continua “em estudo”.

A Braga Ciclável realizou nestas e noutras ruas várias contagens de trânsito, tendo concluído que todos os dias ali passam centenas de pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte, em ambos os sentidos. As pessoas escolhem este percurso por um motivo simples: é o melhor percurso para quem vai de bicicleta. É o percurso percurso mais direto entre toda a zona Este e o Centro, praticamente não tem inclinações e a velocidade média e a quantidade do tráfego automóvel são mais reduzidas. Resumindo: é o caminho mais direto, mais rápido e mais seguro. Mas é ilegal, em rigor, no sentido Este-Centro, até que a Câmara decida colocar sinalização que autorize a circulação de bicicletas nesse sentido, juntamente com os transportes públicos. Trata-se de legitimar (e dar proteção legal em caso de acidente ou litígio) um uso que a sociedade bracarense há muito tempo já legitimou de facto, pois na prática é algo que já acontece e sem haver até à data qualquer registo de acidentes envolvendo velocípedes neste eixo.

Poderá ser que o que esteja “em estudo” seja a questão da enorme barreira artificial que representa atualmente, para peões, ciclistas e transportes públicos, o atravessamento da Av. Pe. Júlio Fragata. Esse local também merece uma intervenção, sem dúvida, mas cremos que não será motivo para adiar outras medidas bem mais simples e menos onerosas, que podem ser implementadas facilmente e com benefício imediato.

Até quando é que vamos ter de esperar por esta importante medida que já em 2012 apontávamos como urgente?

Rua Azul – combate ao estacionamento abusivo

Uma outra medida permanente que poderá ter passado mais ou menos despercebida, mas que é também importante para a melhoria da mobilidade é o programa Rua Azul, que consiste numa parceria com as forças da autoridade para fiscalizarem com “tolerância zero” o estacionamento ilegal e abusivo em determinadas ruas. A ser bem sucedida esta medida, acabariam nesses locais as filas de trânsito, os carros parados em cima do passeio, viaturas abandonadas em segunda fila, com os consequentes atrasos para os restantes automobilistas e, sobretudo, para os clientes dos transportes públicos.

Não dispondo de dados abrangentes sobre a forma como este programa está a ser aplicado, é-nos difícil fazer uma avaliação do mesmo. Quantos agentes da Polícia Municipal e da PSP foram destacados diariamente para o patrulhamento das ruas abrangidas pelo programa Rua Azul? Qual a duração desse programa – é mesmo uma medida permanente, ou tem prazo de validade?

Estacionamento ilegal na Rua D. Pedro V

Notamos, contudo, que pelo menos numa das ruas abrangidas por esta medida permanente (Rua D. Pedro V), as placas de sinalização de “Rua Azul” foram entretanto vandalizadas ou mandadas retirar. E também desapareceram dos respetivos postes as placas que proibiam o estacionamento durante o dia (mesmo sem placas, continua a ser proibido estacionar na maior parte da Rua D. Pedro V, à luz do art.º 50 do Código da Estrada). O que aconteceu? Foi um ato de vandalismo e a CMB ainda não mandou colocar novas placas? Ou será que os responsáveis da autarquia acabaram por ceder a pressões desses 50 ou 60 automobilistas que voluntariamente costumavam optar por estacionar ilegalmente prejudicando as restantes centenas ou milhares de utentes daquela via pública?

A concluir…

A Semana da Mobilidade já lá vai e, mesmo com os reparos que aqui fazemos, consideramos que foi uma iniciativa positiva. Para o ano, esperamos que haja mais e melhor, tanto a nível de eventos e medidas permanentes, como nível da organização e divulgação.

A este propósito, acreditamos que é necessário elaborar um plano abrangente da cidade de Braga para a mobilidade e as bicicletas. A intervenção pontual com medidas avulsas é sem dúvida importante, e deve continuar, mas é desejável que passem a fazer parte de um plano, em cuja concepção certamente terão um papel fundamental parcerias entre a CMB, os TUB, a Braga Ciclável e a sociedade em geral. Da nossa parte estaremos disponíveis, como sempre, para colaborar. Só assim poderemos garantir que todas estas medidas contribuirão para um objetivo maior de tornar a cidade um melhor local para viver.

Ecologia e Educação

Ecologia e Educação

A bicicleta não é uma moda. Como a alimentação saudável não é uma moda, a preocupação com o meio ambiente não é uma moda, a reciclagem de residuos não é uma moda, os electrodomésticos com classes ecológicas não são uma moda. A ecologia não é uma moda! A verdade é que já não vivemos na era industrial, o conhecimento científico já provou que alterações climatéricas drásticas estão e irão ocorrer com mais e mais frequência se não abrandarmos o ritmo de poluição e a população portuguesa já não é indiferente a esta questão. Mas as mentalidades não mudaram de um dia para o outro e se é óbvio que o protocolo de Quioto, o compromisso quase mundial de reduzir as emissões de carbono, as crescentes leis nacionais e internacionais para a redução dos níveis de poluição, os incentivos comunitários ao desenvolvimento de energias limpas e renováveis, o controlo e fiscalização das emissões das industrias para muito contribuiram para esta mudança de paradigma, também é evidente que há um factor que vale mais do que a fiscalização, as multas, as leis, as polícias que é o factor educação.

Quem não se lembra do anúncio das crianças a ensinar aos pais que reciclar era tão fácil que até um macaco o conseguia fazer? As novas gerações são muito mais abertas a mudanças de paradigma e abraçam-no com muito mais facilidade.

Quem está atento ao trânsito na cidade de Braga concerteza já reparou que os principais pontos de engarrafamento da cidade são as saídas das escolas nos horários de entrada e saída das crianças – um carro, um pai, à espera de uma criança, estacionado na beira da estrada às 8, às 13 e às 18, multiplicado por milhares de alunos de cada escola.

Perante o óbvio, as minhas perguntas são:

  • para quando estacionamentos de bicicletas à porta das escolas?
  • para quando políticas de educação, prevenção rodoviária e incentivos escolares que permitam que as novas gerações adoptem formas ecológicas, responsáveis e saudáveis de locomoção dentro da cidade de forma a cimentar um futuro mais sustentável?

(Artigo originalmente publicado na edição de 24/10/2015 do Diário do Minho)