Há muitas pessoas que têm a tendência para afirmar que as cidades portuguesas não têm uma cultura da bicicleta. Utilizam esta afirmação, desprendida de verdade, para justificar a falta de investimentos neste modo de transporte. E tanto conseguimos ouvir isto de um cidadão no café, como de técnicos municipais que deviam aprofundar as temáticas antes de, levianamente, proferirem estas afirmações, como mesmo de pessoas com altas responsabilidades nas cidades. E falo de cidades portuguesas de um modo geral. A desinformação e a ignorância são gerais. Chega a ser preocupante a leviandade que se trata um assunto tão sério quanto a forma como as pessoas se decidem deslocar e se quer impingir que todos se deslocam de carro.

E digo que as cidades têm uma cultura da bicicleta, porque se pesquisarmos um bocadinho e se falarmos com as pessoas mais velhas encontramos ainda traços de uma cultura que já foi forte. Aliás, não nos devemos esquecer que a Bicicleta surgiu 100 anos antes do carro.
Falando agora especificamente de Braga, temos pessoas que toda a vida trabalharam em bicicletas, em tempos produziram bicicletas em Braga, e entretanto passaram apenas para a manutenção de bicicletas. Há pessoas que nos dizem que na Rua D.Pedro V, nos anos 50, havia apenas 3 ou 4 carros, muitas bicicletas e muitas motorizadas. Há registos da presença de um velódromo na Ponte de São João, entrega de gelados de bicicleta (ainda hoje há, e de pizza, e de outros recados) e sempre teve lojas de alugueres e reparação de bicicletas.

Braga terá, de acordo com os estudos de 2011 e 2013, cerca de 200 utilizadores da bicicleta como modo de transporte e 800 utilizadores da bicicleta de um modo geral. Estes números hoje serão diferentes, certamente maiores, mas ainda assim não temos um boom na utilização da bicicleta. E nem vamos ter um aumento significativo, a não ser que tenhamos uma rede ciclável segura, segregada e conectada na cidade de Braga. Continuaremos a esperar, ansiosamente, pelos 22 km de ciclovias na zona urbana e pelos 76 km de vias cicláveis para podermos ser muitos mais pessoas de bicicleta e muitas menos de carro individual para deslocações urbanas.

Mário Meireles

Utilizador diário da bicicleta como meio de transporte é licenciado em Engenharia Informática, mestre em Engenharia Urbana: Cidades Sustentáveis e PhD Student na área dos transportes e mobilidade.
Mário Meireles