Não será novidade para nenhum bracarense as despesas que ter um carro implica. Os preços dos combustíveis têm subido constantemente em 2018, com a gasolina 95 a custar 1,60€ por litro e o gasóleo 1.39€. Se recuarmos a 2000, o preço da gasolina não chegava a custar 1€, o gasóleo custava menos de metade. Soma-se ainda o IUC, o seguro obrigatório, a manutenção e o custo inicial da compra, muitas vezes a crédito. Nos primeiros quatro meses do ano, os bancos e as empresas financeiras disponibilizaram 972 milhões de euros em empréstimos para a compra de carro. Somando todas estas variáveis, que todos os anos aumentam, chegamos a uma despesa brutal. Convém lembrar que o salário médio em Portugal não sobe praticamente desde 2010, levando a menos orçamento alocado para despesas essenciais como uma boa alimentação, cuidados de saúde e educação.

A mobilidade é uma necessidade tão básica como a habitação ou os cuidados médicos.

Nenhum bracarense se vai deixar de se deslocar, sob pena de perder oportunidades que continuarão acessíveis a outros com meios para ter um veículo individual. O transporte público e a bicicleta são por isso importantes para combater essa desigualdade de acessos, porque são mais baratos e acessíveis. Permitem que áreas urbanas mais desfavorecidas possam ter igualdade de acesso ao emprego, ao ensino e a bens e serviços. Quem mora nas freguesias periféricas terá maior facilidade em aceitar ofertas de emprego se tiver uma paragem dos TUB próxima.

Uma criança, que habite fora do perímetro urbano, terá iguais oportunidades de acesso ao ensino em comparação com uma que habite no centro. O acesso à saúde para algo tão simples como consultas rotineiras será mais fácil e menos dispendioso se existir alternativa pública de transporte. As redes cicláveis permitem um complemento importante ao autocarro porque oferecem uma alternativa rápida, segura e eficaz para curtas distâncias, levando cada vez mais gente que mora na cidade, mas fora do centro a vê-lo por exemplo como alternativa de lazer com mais oferta cultural e lúdica que os sobrecarregados centros comerciais.

Uma maior igualdade na mobilidade cria cidades mais agregadas e ajuda a impedir a criação de guetos e de divisões na comunidade por rendimento.  Com uma fraca infraestrutura de transporte público, haverá zonas mais favorecidas que serão sujeitas a uma maior pressão imobiliária, levando a uma subida de preços que acaba por afastar mais gente dos centros das cidades, tornando-as cada vez mais difíceis de frequentar e habitar.

Um serviço público de transporte de qualidade para todos só é possível se houver um forte financiamento por parte das instituições públicas. Nas últimas eleições foram apresentadas um conjunto de medidas para a melhoria da mobilidade na cidade. Mas propor não chega.

Os custos ambientais e de saúde pública de uma vida sedentária ao volante, apesar de graves, são sentidos ao fim de vários anos. As consequências que uma deficiente rede de transportes terá na exclusão de cada vez mais pessoas dos centros urbanos serão bem mais imediatas.

Rafael Remondes

Rafael Remondes

Engenheiro informático na Blip, empresa do Porto. Trabalho no Porto e vivo em Braga. Decidi abandonar o carro no meu trajecto diário quando me apercebi que passava mais tempo parado no trânsito que a avançar de carro. Desde então, as chaves do carro ficam à semana a ganhar pó em casa. Uso a bicicleta todos os dias para ir para o trabalho, para minha felicidade e irritação dos revisores da CP.
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