Houve tempos em que os donos das cidades eram os nobres e os reis e, nesse tempo, quando eles passavam nas ruas, nas suas carruagens ou nos seus cavalos, toda a gente se desviava, cedendo passagem aos senhores, em vénias e adoração e medo. Um vulgar cidadão não se atrevia atravessar no caminho de um dos senhores – era punido por lei e a pena era, por vezes, de morte, tal era a afronta.

Estou a falar de há muito tempo, tempos em que não havia código da estrada e em que ninguém garantia o direito de todos os indivíduos por igual.

Estranhamente, embora os tempos tenham mudado e as leis tenham acabado com os benefícios de classes, no que toca à estrada, ainda há gente que se sinta com o rei na barriga e com o direito à vénia e ao medo.

Em Braga, e infelizmente na maior parte do nosso país, quando alguém se senta ao volante do seu automóvel é como se ganhasse um título nobiliárquico e voltássemos à idade média – um velhinho a atravessar uma passadeira é um empecilho, os lugares de estacionamento para deficientes são uma piada de mau gosto, os passeios são um desperdício para os peões e um velocípede é um atraso de vida para gente tão importante e tão empenhada em chegar a um sítio qualquer. Um carro pesa, mais ou menos, uma tonelada e é feita de metal e plástico duro é a arma perfeita de quem vive em guerra. Já os peões, os velocípede e os motociclistas andam pelas cidades desarmados, coitados, confiando nos códigos da estrada e no bom senso dos condutores.

Em Braga, nos últimos 18 anos, houve 2255 acidentes entre automóveis e peões e 266 acidentes envolvendo automóveis e velocípedes, dos quais resultaram 55 mortos, 416 feridos graves e 2232 feridos ligeiros.

Esta semana morreu um rapaz. Vinha de moto, numa estrada nacional, à entrada da cidade, quando foi atingido por automóvel em contra-mão cujo condutor estava alcoolizado e que fugiu do local. A lei já não protege os reis nas barrigas, mas isso não evitou a morte deste rapaz. Se todos os condutores, ao entrar no seu automóvel, tivessem noção de que o carro é uma arma em potência, e se, ao mesmo tempo, respeitassem o resto dos cidadãos por igual, talvez novas mortes pudessem ser evitadas no futuro.

Helena Gomes
Helena Gomes

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