Tinha oito anos e já não acreditava no Pai Natal. Ou nunca acreditei.

Defensores do reconhecimento do trabalho árduo, os meus pais nunca permitiram que um velho gordo, vestido de vermelho e com barbas brancas, ficasse com o mérito de meses de esforço a amealhar o possível para, no dia 24 de dezembro, orgulhosamente entregarem à filha aquele embrulho especial.

Tinha oito anos e não havia embrulho. Estava à vista. Era azul e branca, mais branca do que azul. Era a minha primeira bicicleta. Uma BMX. “Bicicleta de rapaz”, ouvi alguém dizer. Mas eu não queria saber de que cor era ou se um rapaz a queria. Tinha rodas, estava ali e era minha! “Só podes tocar-lhe à meia-noite”, disseram, numa espécie de teste de tortura, e a ansiedade crescia.

Tinha oito anos e não chegava aos pedais. E não queria saber. Era meia-noite e, em pé, lá comecei a dar ao pedal ainda dentro de casa. A vontade de aprender a andar de bicicleta era tanta que esbarrar-me contra as mesas, as cadeiras e quem quer que se atravessasse à minha frente não causava qualquer tipo de dor.

Tinha oito anos e a minha bicicleta tinha rodinhas. “Não tens vergonha, uma catraia tão grande numa bicicleta com rodinhas?”. “Não!”. E pedalava, pedalava, porque sabia que quanto mais pedalasse, mais rapidamente as rodinhas deixariam de me acompanhar. E pedalei. E elas ficaram para trás.

Já tinha oito anos. Não foi a idade perfeita para aprender a andar de bicicleta porque isso não se define. Foi a idade ideal para eu descobrir o que andar de bicicleta significava e ainda hoje significa para mim. É liberdade. Foi com essa idade que comecei a sentir o formigar da ansiedade no meu estômago de cada vez que pedalo ao ar livre e é como se voltasse a ter oito anos outra vez.

Foram oito, poderiam ter sido 80. Não há idade certa para incutir num ser um gosto ou interesse particular por algo. Há sim uma atitude certa. Tentativa e muito erro.

Já não tenho oito anos e vem aí o Natal. E ainda hoje tenho na minha mente a imagem perfeitamente nítida de quando vi a minha primeira bicicleta naquele 24 de dezembro. Hoje a lembrança é minha, amanhã quiçá… Boas Festas e que muitas “primeiras bicicletas” construam lembranças neste Natal!

Marta Sofia Silva
Marta Sofia Silva

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