No dia 9 de janeiro de 2017 começava uma intervenção na Rua Nova de Santa Cruz que tinha como prazo de execução 9 meses. Foi apresentada como um projeto exemplo para o futuro da mobilidade. Diziam os técnicos na apresentação que, teríamos “passeios mais largos, estacionamento automóvel, dois sentidos de transportes públicos e uma ciclovia”. Isto levou a uma pergunta da plateia: “Qual vai ser o milagre?”. O milagre não existiu, e a obra prejudicou a mobilidade sustentável. Vejamos:

– Os passeios não ficaram mais largos. Há situações em que ficaram mais estreitos. As lajes de granito foram substituídas por um conjunto colorido de cubos, com preponderância para o vermelho. Espera-se ainda pelos mecos que evitem que os automobilistas se apoderem do passeio.

– Criaram-se 15 lugares de estacionamento automóvel no espaço público e para isso retiraram-se os autocarros (ou pelo menos um dos sentidos) e os táxis. Isto vai contra a política de uma mobilidade mais sustentável defendida pela Câmara Municipal de Braga e contra a própria Visão do Presidente da Câmara para a Mobilidade, que pretende dar prioridade a peões, ciclistas e transportes públicos.

– Os autocarros não vão circular nos dois sentidos, ao contrário do que havia sido dito na apresentação. A circulação só num sentido irá obrigar a percursos a pé que chegam a atingir os 400 metros para chegar à paragem onde passa o autocarro no regresso. Um erro crasso, uma degradação do serviço de transporte público que passa a andar com os clientes “aos tombos”, ao invés de os levar numa clara linha reta em ambos os sentidos. A juntar a isto, ou os autocarros reduziram a sua largura, ou alguém errou na pintura das baías bus.

– A ciclovia, que começa algures ali para os lados da Retrosaria dos Farias e termina num entroncamento de nível antes da fábrica confiança, é uma verdadeira armadilha para os ciclistas. Os carros mal-estacionados na ciclovia obrigam a utilizar a estreita via de trânsito em sentido contrário, entalando os ciclistas entre carros estacionados e carros em andamento! E imagine-se que a ciclovia é cinzenta (cor da maioria dos passeios em Braga) e os passeios são avermelhados (cor das ciclovias em Braga). A confusão é total.

Quando se desenha uma rua para ter baixas velocidades e poucos carros a circular não se segregam as bicicletas, fazem-se coexistir. Não há continuidade no desenho desta ciclovia e a mesma não é de fácil leitura. Neste momento não é segura para quem nela circula e o piso é desconfortável. Nenhum dos critérios funcionais definidos no PDM para as vias cicláveis foi salvaguardado no planeamento e execução desta obra. O design da rede ciclável não pode ser encarado de ânimo leve e muito menos como algo “giro” de ser feito. Uma rede ciclável bem construída é O grande passo para atrair mais pessoas para a bicicleta. Mal construída tem o efeito contrário.

Corrigir? Só se refizerem tudo entre a Rua dos Lusíadas e a Rua da Quinta da Armada. Não se pode pôr em causa o sistema de transportes da cidade desta forma, nem brincar à mobilidade, muito menos numa rua que está definida como sendo uma “linha estruturante”. Brevemente tornaremos pública uma análise mais aprofundada desta obra.


(Artigo originalmente publicado na edição de 14/10/2017 do Diário do Minho)

Mário Meireles
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Mário Meireles

Engenheiro de Mobilidade Urbana - Interfaces Físicos at TUB - Transportes Urbanos de Braga
Utilizador diário da bicicleta como meio de transporte é licenciado em Engenharia Informática, mestre em Engenharia Urbana: Cidades Sustentáveis e PhD Student na área dos transportes e mobilidade.

A sua dissertação de mestrado teve como título "Como Promover a Mobilidade Ciclável em Portugal. O caso da cidade de Braga."
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